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Mercado e Indústria

Hyundai Santa Fe contra o mundo: o que ele oferece a mais (ou a menos) por R$ 300.000?

No início deste mês a Hyundai anunciou o lançamento do novo Santa Fe no Brasil. O modelo, agora se chama “All New Santa Fe”, que é o jeito que a Hyundai usa para se referir às novas gerações de seus modelos, mas ele não é assim tão “completamente novo”: apesar do visual moderno, ele ainda é baseado na mesma plataforma de seu antecessor, que é compartilhada com a atual geração do Kia Sorento.

É uma plataforma longe de ser obsoleta, tendo sido lançada há apenas quatro anos, em 2015, mas é importante mencionar este detalhe porque o Santa Fe teve um salto considerável de preço: dos R$ 184.900 do modelo anterior, o Santa Fe passou a ser vendido por R$ 297.300. Na prática, de “pouco menos de R$200.000” ele passou a “quase R$ 300.000”. E isso não é um malabarismo retórico para fazer o aumento de preço parecer maior do que: estamos falando de R$ 112.400 de diferença.

Por este preço o “All New” Santa Fe traz o chassi alongado para acomodar sete ocupantes (lá fora esta versão é chamada Santa Fe XL) e um pacote de equipamentos que não vai muito além do que se espera para um carro desse segmento — especialmente nesta faixa de preço.

A lista inclui: ar-condicionado de duas zonas, faróis direcionais com acendimento automático, bancos com aquecimento (três temperaturas nos dianteiros e duas no traseiro), teto solar panorâmico, quadro de instrumentos digital, bancos com ajuste elétrico e memória, seis airbags, câmeras de 360 graus e monitor de ponto cego, encostos de cabeça ativos na dianteira, controles de tração e estabilidade, assistente de partida em aclive e de frenagem em declive, sistema multimídia com Apple CarPlay e Android Auto. Um destaque da lista é a base de carregamento de celulares por indução (wireless), ainda não muito comum de se ver mesmo neste segmento (e nessa faixa de preço).

O motor é uma atualização do Lambda II do modelo anterior. Antes com 3,3 litros e 270 cv, ele agora desloca 3,5 litros para produzir 280 cv. O câmbio automático tem oito marchas e trocas manuais, e está sempre ligado às quatro rodas.

A lista, na verdade, não é tão diferente do antecessor, que não tinha as câmeras de 360 graus, nem a conectividade com CarPlay e Android Auto, nem a base de recarga por indução, ou o sistema de áudio Infinity — além, claro, de ter 10 cv a menos e um câmbio de seis marchas em vez de oito. A lista, por si, não justifica os quase R$ 115.000 a mais cobrados pelo novo modelo.

Diante disso, para entender esta diferença de preços, é preciso analisar o “All New” Santa Fe no contexto do mercado — quais seus rivais, quanto eles custam e que equipamentos oferecem. O rival mais evidente do Santa Fe é seu irmão de desenvolvimento, o Kia Sorento.

 

Kia Sorento

A atual geração do Sorento foi lançada em 2015, mas recebeu um facelift em 2018. A lista de equipamentos se diferencia apenas pelas câmeras de 360 graus, ausentes no Sorento, e a configuração mecânica é exatamente e mesma. Mudam o design da carroceria e da cabine — e lá dentro a arquitetura é exatamente a mesma, com a mesma disposição de equipamentos e comandos, incluindo a base de recarga.

A diferença é que a versão V6 é a mais cara do Sorento, pois ele também é oferecido com o motor quatro-cilindros de 2,4 litros e 172 cv. Se você não faz questão do design mais imponente e moderno do Hyundai, o Sorento é o mesmíssimo carro por R$ 229.990 — uma diferença de R$ 67.310 em favor do Kia; dá pra levar um HB20 Evolution com o motor 1.0 TGI e ainda sobram R$ 120 para abastecer.

 

Volvo XC90

Mas este é apenas seu rival mais semelhante. Nesta faixa de preços o “All New” Santa Fe acaba encarando o Volvo XC90 na versão momentum, que custa R$ 305.950 (3,5% mais caro), mas tem um motor 2.0 twincharged (compressor de polia e turbo) de 320 cv, além de itens de série não disponíveis no Hyundai, como o cruise control adaptativo, airbag para joelhos, sistema de alerta de mudança de faixa, alerta de colisão frontal e traseira, assistente de estacionamento semi-autônomo e luzes de curva. Além disso, o ar-condicionado tem quatro zonas em vez de duas — uma delas é para os passageiros da terceira fileira de bancos.

O porte do Volvo também é sutilmente maior: são 4,95 metros de comprimento, 1,92 de largura (sem os espelhos) e 2,98 metros de entre-eixos. No Hyundai, o comprimento é 18 cm menor (4,77 m), a largura é 3 cm menor (1,89 m) e o entre-eixos é 22 cm menor (2,76 m). Ou seja: por apenas 3,5% a mais é possível levar um carro maior, mais potente e mais equipado. O único fator a favor do Hyundai nesse cenário é sua garantia e sua rede autorizada: enquanto a Volvo tem 35 concessionárias e oferece garantia de dois anos sem limite de quilometragem, a Hyundai tem mais de 210 autorizadas e oferece garantia de cinco anos.

 

Mitsubishi Pajero Full

Outro modelo com porte semelhante é o Mitsubishi Pajero Full, oferecido com o motor V6 6G75 MIVEC de 3,8 litros e 250 cv. Não é um concorrente direto, mas dá uma noção de como a Hyundai chegou ao preço do Santa Fe.

O Pajero tem um sistema de tração 4×4 mais versátil, com opção de reduzida e seleção de tração traseira ou integral, mas a lista de equipamentos é mais modesta: ele não tem ar-condicionado de duas zonas, nem sistema de áudio premium, o teto-solar é simples, o quadro de instrumentos não é digital, os faróis não são de LED e o câmbio automático tem cinco marchas. É um carro mais robusto e mais rústico, que passará por menos apuros se decidir sair do asfalto. Quanto às dimensões, ele tem 4,90 metros de comprimento, 1,87 metro de largura, 2,78 metros de entre-eixos — basicamente as mesmas do Hyundai.

Na prática, ao comparar os dois é preciso colocar na balança se os itens de conveniência do Santa Fe, os 30 cv a mais, e o visual mais urbano e contemporâneo valem os R$ 55.310 de diferença.

 

Chevrolet Equinox

Se considerarmos os carros de cinco lugares, encontramos a maior ameaça ao Hyundai Santa Fe: o Chevrolet Equinox. Ele não tem um V6 a gasolina como o Hyundai porque já adotou o downsizing: ele usa uma versão de 262 cv do motor 2.0 turbo da Chevrolet — são 18 cv a menos, porém o torque de 35,8 kgfm é maior que os 34,3 kgfm do Hyundai. Além disso, esse torque está disponível a partir de 2.000 rpm em vez de 5.000 rpm. Isso em um carro 150 kg mais leve (são 1693 kg vs. 1843 kg).

Como o Hyundai o Equinox também tem tração integral, também tem sistema de áudio premium (Bose), teto solar panorâmico, faróis de LED, assistente de descida e de partida em aclives, ar-condicionado dual zone, controles de estabilidade e tração e sistema de chave presencial. Mas a lista da versão de topo, Premier, avança em um território que o Hyundai ainda não ousou adentrar com sistema ativo de redução de ruído externo, sistema de concierge On Star, stop/start, frenagem automática de emergência, assistente de permanência em faixa, sensor de movimento para abertura da tampa do porta-malas, alerta de colisão frontal e de tráfego cruzado, e assistente de estacionamento semi-autônomo. Isso por R$ 159.990. Nesse contexto, o Hyundai está cobrando quase R$ 138.000 por um visual mais moderno e um par de bancos no porta-malas.

Sim, porque o Equinox tem 4,62 metros de comprimento (o Hyundai tem 4,77 metros), 1,84 metro de largura (1,82 m no Hyundai)  e 2,73 metros de entre-eixos (2,76 metro no Hyundai) — o que resulta em um espaço interno basicamente idêntico.

 

Ford Edge ST

E se você não faz questão dos sete lugares e não quiser economizar os R$ 138.000 reais comprando um Equinox, aqui está uma opção bem mais saborosa: o Ford Edge ST.

Por R$ 299.000 (R$ 1.700 a mais que o Hyundai), ele entrega um V6 biturbo de 335 cv e 54,3 kgfm que o leva de zero a 100 km/h em 5,7 segundos e aos 238 km/h — o Hyundai faz o mesmo em 7,8 segundos e chega aos 210 km/h. O pacote de equipamentos também é mais recheado que o do Hyundai, oferecendo além do teto-solar panorâmico e do ar-condicionado de duas zonas, todos os sistemas auxiliares de direção desejáveis atualmente, como o cruise control adaptativo, sistema semi-autônomo de estacionamento, frenagem automática de emergência, farol alto automático, alerta de tráfego cruzado e assistente de permanência em faixa.

Quanto às dimensões, o Edge ST mede 4,83 metros de comprimento, 1,90 m de largura e 2,85 m de distância entre-eixos — é maior que o Hyundai em todos os aspectos. É apenas uma questão de querer os sete lugares, portanto.

 

Dodge Journey

Ainda nos sete lugares, temos no Brasil o Dodge Journey (sim, ele ainda é vendido!). Lançado em 2009 ele já está no final de carreira, mas também tem um V6 de 286 cv, sete lugares, sistema de áudio premium (Alpine), ar-condicionado de duas zonas, e se manteve relativamente atualizado com tecnologias recentes como frenagem automática de emergência.

Não tem controle de partida em rampa nem controle de declive, muito menos base de recarga de celular por indução. O teto solar é menor, convencional, mas o Dodge também custa praticamente metade do preço do Hyundai, sendo vendido por R$ 149.900.

 

O resumo da ópera

Analisando o segmento ficou claro o que a Hyundai levou em consideração para precificar seu “All New” Santa Fe: os modelos de sete lugares oferecidos são, via de regra, menores, mais antigos ou mais caros. Sim, há o Volvo e o Kia com propostas mais atraentes, mas a Hyundai parece apostar em sua rede autorizada e, principalmente, em seu pós-venda — que já é considerado um dos melhores do mercado, ao lado de Honda e Toyota — para convencer o cliente indeciso a escolher um Santa Fe em vez de um XC90 ou um Sorento. E isso é uma estratégia muito sensata.

Mas… ela faz sentido somente para quem não pode abrir mão de um SUV de sete lugares. Se os dois lugares do porta-malas não fazem a diferença, é possível fazer uma escolha igualmente moderna, mais tecnológica e ainda voltar para casa com dinheiro suficiente para um segundo carro — que nem precisará ser um modesto popular.

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