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Ian Callum: a carreira e os carros do lendário designer britânico

Em 1968, quando tinha apenas 14 anos, Ian Callum mandou alguns esboços para a Jaguar. Ele sonhava em trabalhar na fabricante britânica como designer de automóveis. William Haynes, que presidia a fabricante na época, recebeu a carta e, surpreendentemente, a respondendo dizendo que Callum tinha futuro, mas precisava estudar engenharia e se dedicar muito. E foi o que ele fez.

Avance 51 anos no tempo e chegamos a junho de 2019. Ian Callum, agora com 64 anos de idade anunciou que irá se aposentar depois de quatro décadas como designer automobilístico, encerrando sua carreira como chefe de design da marca em que um dia sonhou trabalhar.

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Ian Callum nasceu em 30 de julho de 1954 na cidade de Dumfries, Escócia, e já aos 25 anos, em 1979, conseguiu um emprego na Ford do Reino Unido. Iniciante, seu trabalho consistia principalmente em desenhar volantes e outros componentes menores dos carros. Contudo, o talento de Callum lhe garantiu algumas oportunidades maiores com o passar do tempo. A primeira delas veio já em 1984:

Sim, o lendário Ford RS200, que se tornou ícone do Grupo B mesmo sem qualquer vitória no WRC, foi o primeiro carro cujo design ficou inteiramente a cargo de Ian Callum. Projetado do zero pela Ford britânica, o RS200 não foi considerado bonito em sua época, com a dianteira curta e os faróis circulares, mas ele certamente era inconfundível. Com um conjunto mecânico diferente do ,  se encontrava em qualquer Ford da época – motor quatro-cilindros turbo central-traseiro e tração integral – e uma série de homologação limitada a 200 unidades, o RS200 se tornou uma lenda.

Como se não bastasse, seis anos depois, Callum também foi o responsável pelo Escort RS Cosworth – que, como muitos aqui já sabem, era mais um Ford Sierra disfarçado, com motor longitudinal e tração 4×4. Um carro que, diferentemente do RS200, foi relativamente bem-sucedido no Mundial de Rali, com dez vitórias entre 1993 e 1997.

Apesar da boa aparência e do bom desempenho do RS Cosworth, Callum deixou o cargo na Ford em 1991. Seu destino: fundar a TWR Design junto com Peter Stevens e o Tom Walkinshaw, e prestar serviços à própria Ford, que na época era dona da Jaguar e da Aston Martin. O que ele queria, de fato, era dar forma a superesportivos e protótipos de corrida.

Na posição de diretor de design, Callum foi o responsável pelo Aston Martin DB7 – primeiro modelo totalmente novo da Aston sob o guarda-chuva da Ford, que chegou a construir uma nova fábrica no Reino Unido para produzi-lo. E o DB7 era feito sobre a plataforma do antigo Jaguar XJS. Tanto a Aston Martin quanto a Jaguar haviam sido compradas pela Ford no fim da década de 1980. Com o DB7, a Aston Martin estabeleceu a identidade visual seguida pela fabricante até recentemente.

Callum permaneceu na TWR Design por oito anos, até 1999. Ao longo daquele período, a empresa prestou serviços de design para a Nissan e para a Ford – e os carros projetados por eles para ambas foram apresentados em 1997: o Ford Puma e o Nissan R390.

O primeiro, como os fãs de Gran Turismo 2 bem sabem, era um cupê esportivo baseado no Fiesta de quarta geração – mais ou menos como o Opel/Chevrolet Tigra estava para o Corsa B:

O segundo foi o projeto da Nissan para a categoria GT1 do Mundial de Endurance – a categoria na qual competiram ícones como o Porsche 911 GT1, o McLaren F1 e o Toyota GT-One. E, coincidentemente, ele também se tornou um dos favoritos dos fãs de Gran Turismo 2.

A conexão da Tom Walkinshaw Racing com a Jaguar rendeu a Ian Callum, em 1999, uma indicação para assumir o cargo de diretor de design da companhia. Callum aceitou, e manteve-se na posição pelas duas décadas seguintes, até 2019.

Nos primeiros anos, Callum conseguiu conciliar o trabalho na Jaguar com o projeto do Aston Martin Vanquish, lançado em 2001.

Para a própria Jag, o primeiro trabalho de Callum foi o conceito R-Coupe, de 2003 – um carro que serviu de inspiração para primeiro facelift do S-Type. Em seguida, veio a perua do Jaguar X-Type, cuja traseira foi projetada sob sua supervisão.

Estes primeiros projetos ainda eram galgados no estilo retrô de Geoff Lawson, projetista que antecedeu Callum no cargo, falecido em 1999. Quando chegou a hora de apresentar novos projetos, Ian Callum decidiu que a Jaguar deveria seguir uma nova direção, adquirindo um estilo ainda elegante, porém mais arrojado e adequado à era moderna.

Esta nova direção começou a ser traçada com o Jaguar XK de segunda geração, que foi lançado em 2006 e produzido até 2015 – e lembrava bastante o Aston Martin DB9 da época. O Jaguar XF, sucessor do S-Type, foi apresentado no ano seguinte. O visual daquele carro já trazia diversos elementos do atual XF, que foi lançado em 2015 e também foi assinado por Callum: os faróis afilados, a traseira alta e as lanternas esguias, ligadas por uma barra cromada.

Na época, Callum considerou o XF uma verdadeira revolução no design da Jaguar – algo que foi reafirmado em 2010, quando a Jaguar apresentou a quinta geração de seu sedã de topo, o XJ. Até então, o carro conservava a mesma identidade visual do primeiro modelo, de 1968. Callum inspirou-se nas linhas do XF, porém com proporções mais avantajadas e uma dose extra de elegância – vide as lanternas traseiras verticais, em formato de cascata.

Naquele mesmo 2010, Callum desenhou o supercarro conceitual C-X75 – sucessor espiritual do emblemático XJ220. Equipado com quatro motores elétricos, um para cada roda, o conceito tinha quatro motores elétricos, um para cada roda, e mais duas micro-turbinas a gás. O conjunto entregava 780 cv e deveria ser capaz de levar o C-X75 de zero a 100 km/h em 3,4 segundos.

Versões posteriores do projeto usavam dois motores elétricos e um quatro-cilindros turbo de 1,6 litro. No fim das contas, o C-X75 foi cancelado como reflexo da crise econômica mundial – mas ainda apareceu no filme “007 contra Spectre”, de 2015.

Entre os esportivos puro-sangue, a última grande criação de Ian Callum foi o F-Type, que foi lançado em 2013. Ele foi o sucessor espiritual do mítico E-Type, e adotava alguns elementos estéticos do C-X75. Considerado um dos carros mais bonitos da era moderna, o F-Type – tanto que só no ano que vem ele receberá seu primeiro facelift abrangente.

Os últimos projetos assinados por Callum para a Jaguar, porém, foram dois SUVs: o F-Pace, cuja dianteira era claramente inspirada pelo Jaguar XF…

… e o elétrico I-Pace, que foi lançado lá fora em 2018 e chegou ao Brasil neste ano.

Embora tenha deixado o cargo de diretor na Jaguar para, segundo ele próprio, dedicar-se a outros projetos de design, Ian Callum vai continuar trabalhando para a companhia britânica como consultor.

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