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Indian Motorcycle deixa o Brasil – veja as motos que acabamos de perder

Somos um site sobre carros, mas no fim das contas quem gosta de carros é fã de tudo que tem motor, não importa quantas rodas tenha. Com isto, de tempos em tempos damos atenção às motos. E não havia como deixar de noticiar – e lamentar – o fato de a lendária marca norte-americana Indian Motorcycles ter anunciado o fim de suas atividades no Brasil.

É triste, mas faz apenas três anos que a Indian inaugurou suas operações por aqui. A marca, que desde 2011 pertence à norte-americana Polaris, chegou em 2015 com a expectativa de tornar o Brasil seu segundo mercado mais importante, logo atrás dos EUA. Não foi o que aconteceu: em quase dois anos montando motocicletas na fábrica da Dafra em Manaus, no Amazonas, a produção foi de menos de 800 unidades. No fim de 2017, durante o Salão das Duas Rodas, a Polaris Brasil anunciou que deixaria de fabricar motos aqui para importá-las dos EUA. Então, na última terça-feira (25), a empresa anunciou que seu empreendimento no Brasil está oficialmente encerrado.

Paulo Brancaglion, o diretor-geral da Polaris Brasil, disse o seguinte:

“Enquanto não identificarmos um modelo de viabilidade para a Indian Motorcycle Brasil devido as atuais condições de mercado, o nosso foco será maximizar os recursos no crescimento da marca Polaris e fortalecimento da rede de concessionárias off-road.”

Ainda de acordo com a empresa, as cinco concessionárias Indian abertas no Brasil – em Belo Horizonte, Florianópolis, Goiânia, Rio de Janeiro e São Paulo – continuarão abertas por mais quatro meses, durante os quais venderão o restante do estoque e prestarão atendimento pós-venda. Após este período, os proprietários serão atendidos em concessionárias Polaris (são 17 unidades no Brasil) e oficinas credenciadas que ainda não foram definidas.

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Foto: Biker’s Life

Apesar de ser uma notícia ruim, o fim da Indian no Brasil não é surpreendente: nosso País têm se mostrado um terreno infértil para multinacionais. Algumas desistem antes mesmo de chegarem, como a sueca Ikea, enquanto outras estão indo embora, como a empresa de cosméticos artesanais Lush (exemplo de caso de sucesso no mundo inteiro) e até mesmo a gigante Walmart, que recentemente vendeu 80% de sua operação no Brasil. Burocracia, impostos, taxas excessivas e política protecionista são alguns dos fatores que, infelizmente, estimulam esta tendência. E a desvalorização cambial também, pois torna difícil oferecer um produto importado a um preço competitivo.

Polaris Slingshot Venice, CA 2017

A Polaris Industries, com sede em Minnesota, nos EUA, tem como principal ramo de atuação o mercado dos quadriciclos off-road, veículos elétricos para frotistas (como vans para entrega de encomendas) e máquinas de nicho bem específicos, como o Polaris Slingshot – algo que a marca define como “uma moto de três rodas”, mas que tem volante (ajustável), dois lugares, e um motor GM Ecotec de 2,4 litros com turbo e 175 cv. De fato, o Polaris Slingshot pode ser registrado como moto em alguns estados dos EUA, e exige que os ocupantes usem capacetes para rodar em vias públicas.

Que parece divertido, isto parece

O caso é que a Polaris se deu muito bem com a aquisição dos direitos sobre a Indian, que desde 2011 tem crescido em ritmo acelerado nos Estados Unidos – a marca é tímida ao falar em números, mas cita um aumento nas vendas de 18% ao ano, em média. Por si isto já impressiona, pois o mercado de motos grandes (com motor maior que 900 cm³) vem sofrendo nos Estados Unidos. E mais ainda porque a maior rival da Indian nos EUA, a Harley-Davidson, vem caindo em cerca de 2% todos os anos. Se as coisas continuarem neste ritmo, a Indian não vai levar mais que três anos para superar a Harley em vendas.

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Em cima, a Indian Scout “normal”. Embaixo, a Indian Scout Bobber. No meio, o motor water-cooled estilizado para remeter aos antigos aircooled

Nos últimos sete anos a Indian lançou seis modelos nos EUA, totalizando 16 versões diferentes. Sete delas eram comercializadas no Brasil. A mais acessível delas era a Scout 1130, menor modelo da Indian, movida por um motor V-twin de 1.133 cm³ e 100 cv, que custava na casa dos R$ 50.000. Ela também estava disponível na versão Bobber, que tinha estilo mais despojado e para-lamas reduzidos.

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Indian Chief Vintage

A Indian Chief era o próximo passo na linha brasileira. Por aqui, havia duas versões de acabamento: Dark Horse, com guidão elevado e acabamento preto fosco em todas as suas superfícies; e Vintage, com pintura em dois tons vermelho e creme e bags de couro na traseira.

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Moto de estrada, feita para brigar com a Harley-Davidson Softail Classic, a Indian Chief tem um motor V-twin arrefecido a ar de 1.811 cm³ e 16,4 mkgf de torque (assim como a Harley-Davidson, a Indian não divulga a potência de alguns de seus modelos, apenas o torque), além de para-lamas envolventes e uma postura de condução mais relaxada, típica das motos cruiser. Custava R$ 70.000.

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A Indian Chieftain também é movida pelo motor 1.8, chamado Thunder Stroke 111. Lançada em 2016, ela foi a primeira Indian com bolsas laterais rígidas e carenagem frontal. No Brasil ela também era vendida apenas com o acabamento Dark Horse, mas nos EUA existem as opções Classic, Elite e Limited. No Brasil, a Indian Chieftain Dark Horse custava cerca de R$ 85 mil.

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A maior e mais luxuosa moto da Indian é a Roadmaster, que era vendida no Brasil por R$ 115.000. Usando o mesmo motor V-twin de 1,8 litro, a Roadmaster tem três compartimentos de carga, encosto para o garupa, sistema de som de alta qualidade. Um dos destaques é o sistema multimídia com navegador por GPS com tela sensível ao toque de 7 polegadas (segundo a fabricante, a maior disponívem em uma moto), que a Indian batizou “Road Command” e também é empregado na Chief.

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Logo abaixo ficava a Springfield, que partia de R$ 92.000 e é como uma versão simplificada da Roadmaster, com assento mais básico e sem a tela sensível ao toque. Springfield, aliás, é o nome da cidade onde a Indian original foi fundada – uma das dezenas de Springfields que existem nos Estados Unidos, aliás. Esta, porém, fica em Massachusetts.

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Indian Springfield

A Indian foi fundada em 1897 por George M. Hendee, que parcicipava de competições de ciclismo antes de aposentar-se e decidir fabricar bicicletas. De início ele adotou os nomes Silver King e Silver Queen para seus modelos, mas no ano seguinte ele decidiu adotar o nome American Indian, a fim de afirmar com mais ênfase a identidade das bicicletas nos mercados externos. Em 1900 um colega de Hendee, Oscar Hendstrom, também ex-ciclista profissional, juntou-se a ele e os dois começaram a projetar sua primeira motocicleta. Que, a exemplo de todas as outras motos do início do século 20, era pouco mais que uma bicicleta com um tanque de combustível, carenagens e um motor adaptado – no caso, um monocilíndrico de 1,75 cv.

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Acontece que a moto era muito bonita e andava bem, tornando-se um sucesso rapidamente. Apoiada em recordes de velociadade locais, nos quais as motos eram pilotadas pelos próprios construtores (porque as coisas eram bem diferentes há 120 anos), a primeira Indian foi um sucesso e suas vendas cresceram vertiginosamente nos anos seguintes. Em 1904, ano em que a Indian introduziu a cor vermelho-sangue que se tornaria uma de suas marcas, produziu mais de 500 motos. Em 1913, o número chegou a 32.000.

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Em 1914 as motos da Indian conseguiram ainda mais publicidade quando o piloto-dublê Erwin “Cannonball” Baker, um dos mais famosos de todos os tempos, atrevessou os EUA de San Diego, na Califórnia, a Nova York – mais de 4.400 km – em um tempo recorde de 11 dias, 12 horas e 10 minutos montado em uma Indian.

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Nos anos seguintes, Erwin realizava a maioria de suas exibições no guidão de uma Indian Powerplus, moto lançada em 1916 que tinha um motor V-twin de 1.000 cm³ consideravelmente mais potente e suave do que os disponíveis até então. A Powerplus foi vendida praticamente sem modificações até 1924. Ela também foi vendida ao exército norte-americano durante os últimos anos da Primeira Guerra Mundial, que aconteceu entre 1914 e 1918.

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A Primeira Guerra Mundial, aliás, causou problemas para a Indian, que não tinha capacidade fabril para vender motos ao governo e ainda abastecer sua rede de concessionárias. Como consequência direta disto, apesar do crescimento econômico dos Estados Unidos nos primeiros anos depois da Guerra, muitas das autorizadas Indian migraram para outras fabricantes, incluindo a Harley-Davidson, que no começo dos anos 20 abocanhou a posição de líder do mercado norte-americano.

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Indian Scout 1920

Dito isto, foi também no início da década de 20 que a Indian lançou seus modelos mais bem-sucedidos, Scout (1920) e Chief (1922), cuja fama levou à adoção dos nomes para as duas primeiras motos lançadas pela Polaris no revival de 2011. Ainda nos anos 20, a Indian lançou a Four, moto de luxo com motor quatro-cilindros em linha que foi vendida entre 1928 e 1942. Apesar de não ter mais a liderança do mercado, o período entre-guerras foi um dos melhores para a Indian, que não foi tão afetada pela Grande Depressão de 1929.

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As coisas começaram a desandar depois da Segunda Guerra Mundial, que estourou em 1939. A preferência das tropas aliadas pelas motos da Harley-Davidson e até mesmo a chegada do Jeep, que era capaz de encarar terrenos difíceis com mais desenvoltura que as motos e ainda levar quatro soldados, foram fatores que desestabilizaram a fabricante e atrapalharam sua retomada após o fim do conflito em 1945.

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Em 1947 a Indian introduziu outra de suas marcas registradas: o war bonnet, farol auxiliar no para-lama dianteiro que tinha o formato da cabeça de um nativo americano usando um cocar (war bonnet, em inglês) e é visto nos modelos mais caros da marca até hoje. Mas a novidade acabou ofuscada por uma crise financeira que culminou com um pedido de falência em 1953.

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Entre 1955 e 2006, diversas tentativas de reviver a Indian foram realizadas por companhias diferentes, em todas as ocasiões com sucesso limitado – geralmente vendendo motos importadas da Europa, como as Royal Enfield, rebatizadas como Indian. Foi só com a compra pela Polaris, em 2011, que a situação voltou a melhorar. Em 2013, já em sua fase de recueperação, lançou uma versão especial da Scout: a Spirit of Munro. O nome da moto era uma homenagem ao neozelandês Burt Munro, outro piloto-dublê que ajudou a Indian a ser uma marca reconhecida.

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Nascido em 1899 na Nova Zelândia, Munro comprou sua Indian Scout em 1920, ano de lançamento. Ele passou as décadas seguintes participando de provas de velocidade com a moto e a modificando extensamente – sempre a mesma moto. Ele era um cara humilde, que gostava tanto de motos que ganhava a vida as vendendo, e geralmente trabalhava sozinho nas modificações em sua Scout, que batizou de “The Munro Special”. Muitas vezes Munro passava a madrugada toda mexendo na Indian e ia trabalhar sem dormir.

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Tanta dedicação rendeu frutos com o passar dos anos: em 1938 Munro quebrou seu primeiro recorde de velocidade na Nova Zelândia e não parou mais. Burt Munro viajou para as planícies de sal de Bonneville, em Utah, nos EUA, dez vezes ao longo das décadas de  50 e 60. Em três destas viagens – em 1962, 1966 e 1967 – Munro quebrou recordes em solo norte-americano. O último deles, conquistado quando Munro tinha 68 anos de idade e sua moto, 47, ainda está de pé: 295,453 km/h em uma moto com deslocamento inferior a 1.000 cm² (a Scout Munro Special deslocava 950 cm³, sendo que originalmente eram 600 cm³). Detalhe: no treino de classificação, Munro chegou a 305,89 km/h, maior velocidade já registrada por uma Indian até hoje. Dez anos depois, em 1978, Burt Munro morreu de causas naturais, aos 78 anos de idade.

Não foi sem merecimento, então, que em 2005 Burt Munro teve sua história contada no filme “Desafiando os Limites” (The World’s Fastest Indian), estrelado por Anthony Hopkins. E nada mais justo, por parte da Polaris, que homenageá-lo com a Indian Scout “Spirit of Munro” em 2013. E, como se não bastasse, em 2014 Munro consegiu quebrar seu próprio recorde retroativamente, 36 anos depois de partir, depois que seu filho notou um erro de cálculo na velocidade média: na verdade, em 1967 ele não atingiu 295,453 km/h. Ele chegou aos 296,259 km/h.

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A Indian Scout Spirit of Munro, criada para homenagear as conquistas de Burt

Tudo isto dito, aliás, o segredo da Indian para o sucesso certamente se deve, ao menos em parte, a valorizar a heritage da marca, e apostar em formas clássicas, sem inventar demais no departamento estético, mas também sem abrir mão de tecnologia atual, como freios ABS, partida sem chave, cruise control e o já citado sistema Road Command. É uma fórmula vencedora, da qual infelizmente os motociclistas brasileiros não poderão mais desfrutar.

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