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Inferno verde: quando o Camel Trophy ousou cruzar a Amazônia na pior época possível

Em 1989, uma caravana de Land Rover atravessou a floresta amazônica em um dos eventos off-road mais desafiadores e lendários de todos os tempos: o Camel Trophy de 1989.

Não era a primeira vez que o Camel Trophy acontecia. Desde 1980, em uma disputa promovida pela fabricante de cigarros Camel com apoio da Land Rover, equipes de vários países se enfrentavam em uma prova de resistência para os veículos e para as pessoas. Para a Land Rover, era uma forma de promover a imagem de seus veículos e, para os participantes, uma oportunidade de testar seus próprios limites e a chance de colocar mais uma aventura concluída em seu diário. E uma aventura das grandes.

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A primeira edição foi realizada na BR-230, a “Rodovia” Transamazônica. Um trecho de 1.400 km foi percorrido a sentido Oeste, ligando Belém a Santarém, no Pará. No total, a Transamazônica tem 5.100 km de extensão e, na época apenas 173 km eram asfaltados. O resto era terra, e não chovia havia meses.

Nos anos seguintes, o Camel Trophy passou por outros cantos do mundo, como a Indonésia, os desertos africanos e a Austrália antes de voltar ao Brasil em 1989 — um retorno simbólico ao ponto de partida para comemorar a décima edição do rali. O percurso sempre envolvia locações inóspitas e cheias de obstáculos como trechos alagados, bancos de areia, rios e florestas para atravessar, tudo em uma época onde só se podia contar com mapas, bússolas e seu senso de orientação para encontrar o caminho certo.

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Foi uma boa ideia da Land Rover utilizar a competição para demonstrar a qualidade de seus veículos. Todos os seus modelos eram utilizados: o Defender de primeira geração, tanto com entre-eixos curto (Defender 90) com com entre-eixos longo (110, 127 e 130), Freelander, Range Rover e Discovery participaram das edições do Camel Trophy ao longo dos anos.

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Em 1989, foi o Land Rover Defender 110. Os veículos eram todos pintados na cor amarelo “Sandglow”, que hoje é um clássico da paleta da marca, e recebiam equipamentos que são considerados obrigatórios para trilhas hardcore. A lista era extensa, e incluía gaiola de proteção, snorkel, chapas no assoalho para proteção dos componentes de todo tipo de detrito, suspensão elevada e pneus de off road Michelin ou BF Goodrich, tanques de combustível auxiliares, racks de teto, guinchos na dianteira e faróis auxiliares.

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O conjunto de motor e câmbio, por outro lado, não passava por modificações. No caso do Land Rover Defender 110, era um quatro-cilindros turbodiesel de 2,5 litros capaz de render 110 cv, acoplado a uma caixa manual de cinco velocidades com reduzida.

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Do ponto de vista racional, era pouco para enfrentar o que estava por vir: assim como em 1980, 1.400 km compostos quase totalmente de trilhas e estradas de terra, com mais 500 km de balsa pelo Rio Amazonas. O ponto de partida era Alta Floresta, no Mato Grosso, de onde o comboio partiria pela BR-163, sentido norte, até chegar a Santarém, no Pará. Lá, uma balsa levaria os competidores até Itaporanga, no Amazonas, de onde seguiriam por terra até Manaus, onde estava a linha de chegada.

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Aquela foi considerada a edição mais difícil das dez que já haviam sido realizadas. Isto tem muito a ver com o fato de os organizadores terem escolhido propositalmente a estação de chuvas. Por mais que tivesse poucos trechos pavimentados, em época de seca a rodovia era difícil de trafegar mas, quando chovia, certos trechos se transformavam em quilômetros de barro e lama praticamente intransponíveis.

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De acordo com o site CamelTrophy.org.uk, estimavas das equipes chegaram à conclusão de que seria preciso um veículo com motor de 500 cv e pneus de mais de dois metros de diâmetro para concluir o traçado nas condições causadas pelas chuvas. Apesar disto, os Land Rover seguiram o trajeto com valentia… mas não sem dificuldade, como pode ser visto no documentário abaixo, que acompanha a aventura da equipe do Reino Unido, vencedora do Camel Trophy de 1989. No total, 14 equipes participaram da competição – além dos ingleses, houve times da Alemanha, Argentina, Bélgica, Brasil, Espanha, França, Holanda, Ilhas Canárias, Itália, Japão, Iugoslávia (hoje dividida em Macedônia, Eslovênia e Croácia), Suíça e Turquia.

O documentário tem uma hora de duração mas, se não tiver tempo, vale acompanhar alguns trechos para entender o quão difícil foi a travessia da Amazônia. Havia momento críticos em que foram percorridos apenas 800 metros em 24 horas, e foi necessário que um trator rebocasse os jipes para dar prosseguimento à prova.

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Infelizmente, detalhes a respeito da competição como tempos e pontuação e até os nomes dos participantes são escassos, mesmo na era da internet. Tudo o que se encontra são fotos e vídeos não apenas da edição de 1989, mas de todos os Camel Trophy realizados entre 1980 e 1998, graças aos filmes oficiais que a própria Camel lançava como parte do merchandising.

Através destes registros, é possível ver que a passagem do comboio por determinada região muitas vezes promovia modificações positivas àquele lugar, pois não eram raras as ocasiões em que se precisava construir pontes e tornar trafegáveis novamente trechos de estradas que haviam caído em desuso. Na edição de 1993, quando a prova foi realizada na Malásia, os competidores ajudaram a construir uma estação de monitoramento em uma floresta para que biólogos conseguissem estudar a fauna e a flora do local.

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Durante a década de 1990, o Camel Trophy foi realizado na Rússia, então União Soviética; no Paraguai, na Argentina, na Guiana e em Bornéu. A última prova foi na Terra do Fogo, o ponto mais austral da América do Sul, na fronteira entre Chile e Argentina. Depois disto, o patrocínio de fabricantes de cigarro foi proibido e competição foi extinta.

Existe, contudo, uma maneira de honrar estes bravos Land Rover que atravessaram obstáculos inacreditáveis: muitos deles, depois de concluir o Camel Trophy, eram revisados, tinham seus equipamentos off road removidos, passavam por uma leve recuperação cosmética e eram revendidos, fosse no Reino Unido ou no país que recebia a prova. Tais exemplares eram sempre muito disputados pelos praticantes do off road e, de tempos em tempos, um deles aparece à venda.

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Também não é incomum que entusiastas da Land Rover construam réplicas dos veículos que competiram no Camel Trophy, com o emblema do evento na dianteira e nas portas e a indefectível pintura amarelo “Sandglow”.

Agora, caso você não seja um praticante do off road no mundo real, pode ao menos dirigir um destes Land Rover no simulador Spintires (um dos mais realistas do gênero na atualidade, como já comentamos aqui): basta instalar um mod. Olha só:

Ou você pode simplesmente admirar as fotos e vídeos deste post e tentar imaginar como seria estar ali. Você encararia uma trilha dessas?

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