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Car Culture

Jogos noturnos: o nome do Lamborghini Countach nasceu em uma brincadeira na madrugada

Desde 1966, quando Ferruccio Lamborghini batizou seu novo esportivo de motor central-traseiro com o nome dos touros de Don Eduardo Miura, todos os carros de sua fábrica seguiram a tradição da nomenclatura taurina. Quer dizer… quase todos. Nenhum touro jamais foi batizado de LM-002 ou Countach. Estes dois quebraram a tradição, mas têm bons argumentos para isso.

O LM002 acabou com um nome codificado devido à sua origem militar. Nos anos 1970 a Lamborghini desenvolveu um protótipo de utilitário militar para tentar vender o projeto sob encomenda a empresas de prospecção de petróleo no Oriente Médio e, claro, a forças armadas nacionais. O primeiro protótipo se chamava Lamborghini Cheetah, mas os demais adotaram uma designação técnica mais lógica: como o projeto foi batizado de Lamborghini Militaria, os nomes adotaram a sigla LM seguida do número do projeto pela ordem de desenvolvimento. Assim nasceram os LM001, LM002, LM003 e LM004.

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Já o Countach tem uma origem controversa e bem mais casual. Há apenas dois pontos em comum a respeito das duas origens do nome: a primeira é que countach é uma palavra derivada do dialeto piemontês; a outra é que ele surgiu ainda na fase de desenvolvimento do protótipo.

Se você já procurou a palavra countach no dicionário piemontês, provavelmente acabou frustrado. É porque a grafia foi inventada pela Lamborghini para não confundir o público na hora da leitura do nome. A grafia original é contacc (mas a pronúncia é mesmo kun-tásh), e seu significado original é “contágio”. Mas da mesma forma que “pqp!” não é uma exclamação literal, contacc também é uma expressão de espanto — que pode ser traduzida como o nosso “pqp!”, com as mesmas aplicações, inclusive. 

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É daí que vem uma das histórias sobre a origem do nome: dizem que quando Nuccio Bertone viu pela primeira vez o protótipo do carro, criado por seu funcionário Marcello Gandini, exclamou a palavra impressionado pelas linhas do carro e o nome ficou. Há uma variação desta história que fala sobre um funcionário da Bertone que decidiu entrar no estúdio durante a noite e pediu ajuda para o vigia noturno, que era piemontês e, ao ver o carro, supostamente falou “contacc!“.

Ambas são apócrifas, mas até há alguns dias eram consideradas verdadeiras. Afinal, esse tipo de coisa não é registrada oficialmente nos arquivos de desenvolvimento da fabricante. Veja a Ford e a Mercedes, por exemplo, a marca americana não sabe precisar a origem real do nome do Mustang, enquanto a alemã propagou por muito tempo que a cor prata de seus carros vinha de uma pintura raspada às pressas para reduzir o peso de um carro de corrida.

No caso do Lamborghini Countach, contudo, os envolvidos em sua criação ainda estão vivos como as memórias do processo de desenvolvimento do clássico italiano. E foi assim que a Lamborghini conseguiu encontrar a origem real do nome do Countach: perguntando ao designer do carro, Marcello Gandini. Ele respondeu o seguinte:

“Quando fizemos os carros para os Salões, trabalhamos durante a noite e estávamos todos cansados, então ficávamos fazendo brincadeiras para manter o ânimo. Havia um artesão que fazia as maçanetas trabalhando conosco. Ele tinha dois metros de altura, mãos enormes e fazia todos os componentes pequenos. Ele praticamente só falava piemontês, quase não falava italiano. Piemontês é uma língua muito diferente do italiano, e soa parecido com francês. Uma de suas exclamações mais frequentes era ‘countach‘. Ele tinha esse hábito.

Quanto estávamos trabalhando à noite, para manter o ânimo da equipe criamos o clima amistoso e eu disse que deveríamos chamar o carro de Countach, só de brincadeira, sem nenhuma convicção. Ali perto estava Bob Wallace, que montava o conjunto mecânico — sempre fazíamos os protótipos funcionarem. Na época você podia até entrar nos Salões com o motor ligado, o que era maravilhoso. Então, de brincadeira, perguntei a Bob Wallace como o nome soava a um ouvido anglo-saxão. Ele disse o nome de um jeito estranho. Funcionou. Na hora resolvemos a grafia e o nome pegou. A sugestão real, levada a sério, veio de um dos meus colegas, um jovem que disse para chamarmos assim. Foi assim que o nome foi cunhado. É a única verdadeira história por trás desta palavra.”

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Bob Wallace e o protótipo do Countach

Ao ler o relato de Gandini foi inevitável pensar que as duas origens alternativas não eram assim tão apócrifas. Na verdade, conversando com Valentino Balboni, que já trabalhava como mecânico na Lamborghini na época do lançamento do Countach — e foi pupilo de Bob Wallace —, ele mesmo me contou a versão do guarda noturno. Então é provável que as duas histórias tenham surgido de relatos verbais da história verdadeira.

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