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Car Culture

Jules Proto II 6×4: o protótipo mais esquisito que já correu no Rali Dakar

Há alguns dias contamos aqui a história do Rolls-Royce que correu no Dakar em 1981 — e foi um dos poucos a terminarem a corrida naquele ano. Acontece que aquela não foi a única aventura de seu criador, o piloto francês Thierry de Montcorgé, pelo deserto africano a bordo de um carro de rali, digamos… inesperado.

Olhe bem para a foto aí em cima. Parece gigantesco — até você compará-lo com as pessoas e outros veículos no cenário. E as proporçõs bizarras são só uma das esquisitices do Jules II que, para se ter uma ideia, nem foi criado para o Dakar.

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Montcorgé era um cara que sempre procurava um novo desafio, e com o Jules II não foi diferente. Três anos depois de sua aventura com o Rolls-Royce Corniche 4×4, (e provavelmente durante outro jantar regado a álcool), Thierry teve uma grande ideia: criar um protótipo feito do zero para disputar uma corrida ainda mais difícil que o Paris-Dakar. Era a corrida Pequim-Paris, que é exatamente o que você está imaginando — uma disputa de 15 mil km entre a capital chinesa e a capital francesa.

A prova foi disputada uma única vez, em 1907 — assim como o 1.000 Mile Trial de 1900 (leia a história aqui), era uma corrida de resistência para os primeiros automóveis fabricados no mundo de que as pessoas naquela época tinham mesmo vários parafusos a menos. Para se ter uma ideia, quase não haviam estradas e muito menos mapas, e como os postos de gasolina só viriam a se popularizar anos mais tarde, a solução foi transportar o combustível em camelos e armar estações de reabastecimento improvisadas por toda a rota.

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Agora você entende por que a única edição aconteceu em 1907, não é? De qualquer forma, ao longo do século algumas reencenamentos foram promovidos, e o Jules II participaria de um deles. Acontece que, provavelmente alguém com um pouco de juízo decidiu cancelar a corrida — que ainda foi disputada em 1990, 1997, 2005, 2007 e 2013.

Era o fim do sonho para Thierry de Montcorgé, não? Bem, não: sem a corrida Pequim-Paris, só restava a ele usar o Jules II em mais uma aventura no Paris-Dakar. Não que ele se incomodasse…

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A ideia por trás do Jules II era bem sacada: em vez de correr com dois carros — o de competição e o carro de apoio, como era comum na época —, por que não fazer uma picape e colocar todos os suprimentos e equipamentos na caçamba?

Fazia sentido, e assim Montcorgé partiu para a construção de seu veículo, que utilizava construção similar à do Rolls-Royce de três anos antes: chassi tubular com carroceria de poliéster. Até o motor era o mesmo: um Chevrolet small block de 5,7 litros e 355 cv, porém montado em posição central-traseira.

O Jules II (batizado assim pois também foi patrocinado pela fragrância de Christian Dior) era baixo, longo e tinha seis rodas, sendo que a transmissão de origem Porsche levava a força do motor para quatro delas. Apenas o eixo traseiro não tinha tração — na verdade, sua função era mais servir como repositório de componentes para o caso de alguma quebra.

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A carroceria não tinha portas (as janelas se abriam como escotilhas) e levava dois tanques de combustível nas laterais, com capacidade total de mais de 300 litros.

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Os freios eram a disco, com pistões duplos, nas seis rodas — afinal, é importante ter bons freios quando se tem um protótipo capaz de chegar a mais de 200 km/h nas areias africanas — e a caçamba carregava até um gerador próprio, para alimentar equipamentos e fornecer eletricidade para o acampamento (a barraca era montada sobre a caçamba, como demonstrado na foto acima). Tudo isso em um veículo relativamente leve, de 1.400 kg!

Apesar das boas ideias e de ser um dos carros mais bem preparados para o Paris-Dakar, o Jules II não seguiu os passos de seu antecessor e não terminou a prova: o chassi não resistiu às condições para lá de hostis do solo do norte da África e, ao que consta, sofreu uma quebra irreparável logo nos primeiros estágios.

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O vencedor da edição de 1984 do Paris-Dakar foi a Porsche, com o lendário 953 comandado pelo piloto René Metge pelo navagador Dominique Lemoyne — e ainda faturando os dois outros lugares do pódio.

Contudo, mesmo a vitória da Porsche não apagou a fama do Jules II, que foi vendido para um colecionador logo depois da corrida, pelo próprio Thierry de Montcorgé. Depois da morte de seu novo dono, o protótipo passou décadas esquecido até que, em 2008, foi encontrado por entusiastas franceses, restaurado (com um motor 2.0 turbo de origem Renault no lugar do V8 SBC) e leiloado por cerca de € 65 mil.

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