Edição diária: 20/06/2019
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Kombi: como um veículo de carga se tornou um dos colecionáveis mais procurados do mundo

Todo mundo tem uma história com uma Kombi, e a própria Volkswagen sabe disso – a campanha de “deslançamento” da Kombi usou exatamente esta premissa para despedir-se do modelo. A própria Kombi contava algumas destas histórias, interpretada pela atriz Maria Alice Vergueiro, e se despedia dizendo que voltaria para casa de uma vez por todas.

Quando nos referimos à Kombi, estamos falando das duas primeiras gerações, com motor arrefecido a ar na traseira, feitas sobre a base mecânica do Fusca – para muita gente, esta é a única Kombi possível, e somos inclinados a concordar. Existiram outras gerações lá fora, mas nenhuma delas, por mais populares que tenham sido, atingiu o mesmo nível de carisma.

Na verdade, nunca se quis tanto uma Kombi das antigas como agora. Você provavelmente já andou pesquisando os preços da Kombi por aí (pode admitir, todo mundo já pensou em comprar uma Kombi) e percebeu que elas estão caríssimas – especialmente os primeiros modelos, as chamadas “Corujinhas” por causa do friso na dianteira. Uma Kombi dos anos 1960 ou 1970 em estado razoável pode custar até R$ 40 mil, enquanto os melhores exemplares chegam facilmente ao dobro disto.

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É um fenômeno que já podemos observar há algum tempo, e não apenas em sites de classificados do Brasil. Se você curte acompanhar os leilões de clássicos de alto nível que acontecem lá fora, certamente ficou ainda mais surpreso com os valores de arremate estimados pelas agências. Não é preciso mais que uma busca no Google para dar exemplos. A Kombi abaixo, por exemplo, foi vendida por absurdos US$ 235 mil (quase R$ 750 mil) em um leilão na Alemanha em 2014.

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Trata-se de um exemplar de 1955, do modelo Samba Bus 23-Window, versão luxuosa com pintura em dois tons, acabamento mais caprichado, um enorme teto solar de lona e 23 janelas.

Esta outra, fabricada em 1963 e restaurada à perfeição, também é um modelo de 23 janelas, e foi vendida pela Barrett Jackson em 2011 por US$ 217.000, ou o equivalente a R$ 690 mil. É muita grana, não?

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Por mais que você seja capaz de listar todos os defeitos inerentes ao projeto da Kombi e tenha jurado a si mesmo que jamais se sentará ao volante de um veículo no qual os ocupantes do banco da frente são as zonas de deformação em caso de impacto, não dá para dizer este exemplar não é belíssimo. Mas é uma Kombi, cara! Por que custou tanto?

Esta questão já vem nos intrigando há algum tempo aqui no QG do FlatOut e, por isto, decidimos analisá-la em busca de respostas. Eis nossas conclusões.

 

Projeto simples e robusto

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A Kombi foi lançada em 1950, usando como base o conjunto mecânico do Fusca. No entanto, em vez de carroceria sobre chassi, a van usava construção monobloco, tornando-se mais leve, rígida e simples do que o besouro. O entre-eixos de ambos é idêntico (2,4 m), mas o formato de pão de forma da Kombi e o fato de o motorista sentar-se sobre o eixo dianteiro ajudam a aumentar muito a área útil do veículo, que pode ser usado como lotação ou para levar até 1.000 kg de carga.

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O motor boxer arrefecido a ar, utilizado por grande parte de sua existência, é um projeto bastante antigo, mas também de manutenção simples e de componentes abundantes e baratos. Não é dos mais fortes, mas cumpre sua função com louvor. Esta é a receita para a longevidade, e significa que quem procura um veículo antigo de manutenção relativamente simples e barata tem não apenas na Kombi, mas em qualquer VW a ar, um bom candidato.

 

Carisma

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Já citamos o carisma aqui algumas vezes, mas é impossível não fazê-lo de novo. O visual da Kombi, com faróis redondos, proporções amigáveis e a indefectível identidade visual da VW em seus primeiros anos, tem um grande papel no modo como ela foi aceita pelos entusiastas. Ela é inconfundível e, mesmo depois que perdeu o característico “V” na dianteira, continuou simpática.

A música é nova, mas o som é antigo – e a estética é totalmente inspirada nos anos 1960

Ela foi adotada pelos hippies da década de 1960 e hoje faz parte de toda a estética daquela época, aparecendo em ilustrações, ensaios fotográficos retrô, clipes de bandas do revival do rock psicodélico, tatuagens e camisetas. Na década de 1970, ela teve sua participação na cultura dos surfistas californianos ao lado do próprio Fusca, das picapes Datsun e das woodies (as peruas de madeira usadas para transportar pranchas de surfe). O que nos leva a nosso próximo ponto…

 

Nostalgia

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Dissemos que não é apenas no Brasil que os VW (incluindo a Kombi) estão ficando mais caros. Procurando respostas para a recente valorização, topamos com alguns tópicos antigos em fóruns dedicados a estes carros pela Internet, como o VW Vortex e o ThevSamba. Por lá, já se questiona este boom da Velha Senhora há quase dez anos. Tópicos de 2008, 2009 ou 2010 questionam o valor altíssimo, de mais de US$ 100 mil, de alguns exemplares da Kombi, especialmente as versões 23-Window, Samba Bus e as camper vans da alemã Westfalia, equipadas com camas, armários e mesas.

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Estas pessoas envelheceram e deixaram a Kombi cara demais

Em mais de uma ocasião, encontramos uma explicação bastante plausível: nostalgia. Pessoas que, na década de 1960, tinham uma Kombi e visitavam festivais de música, acampavam e faziam longas viagens envelheceram, amadureceram e ganharam dinheiro. Quatro ou cinco décadas depois, já com a vida feita e uma conta bancária gorda, estas pessoas decidiram reviver a juventude e curtir a aposentadoria na estrada, comprando Kombis iguais às que tinham quando eram jovens. Só há um probleminha, bastante óbvio: a Kombi não é mais fabricada.

 

Oferta e demanda

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A Wikipédia diz que “nos períodos em que a oferta de um bem ou serviço excede a procura, seu preço tende a cair. Já em períodos nos quais a demanda passa a superar a oferta, a tendência é o aumento do preço”. É uma das leis básicas do mercado – quanto mais raro, mais caro. Entre 1950 e 1979, período de produção das duas primeiras gerações da Kombi (ambas com motor arrefecido a ar), mais de cinco milhões de exemplares foram fabricados, é claro, mas nem todas elas sobreviveram a muitos anos de uso intenso – e, por incrível que pareça, muitas delas foram veículos de trabalho ao longo de toda a sua vida, sendo dirigidas até acabar.

A Kombi clássica deixou de se produzida nos EUA e na Europa em 1979, mas a Westfalia seguiu produzindo exemplares de seus modelos Camper até 2003 – utilizando, inclusive, unidades fabricadas no Brasil e exportadas para a Europa como base. Com isto, o Brasil tornou-se uma espécie de fornecedor de Kombi para o mercado internacional – existem empresas especializadas na compra e importação de exemplares brasileiros para qualquer lugar do planeta, incluindo outros modelos de VW arrefecidos a ar. Na maioria das vezes não são veículos prontos, e sim carros precisando de uma restauração ou, ao menos, uma boa reforma.

O site Brazilian Classic Cars é um destes novos negócios, e oferece clássico brasileiros sob encomenda para a Europa. As Kombi mais baratas, exemplares íntegros, porém visivelmente cansados, custam € 15 mil, ou R$ 52 mil.

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Aparentemente este é um mercado aquecido, que acaba causando especulação: sabendo que são veículos requisitados por colecionadores, os proprietários anunciam suas Kombi por preços cada vez maiores, pois sabem que encontrarão alguém disposto a pagar. E o fenômeno ficou ainda mais evidente depois de 2013, com o fim da produção da Kombi no Brasil.

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