L’arbre du Ténéré: a árvore mais isolada do mundo foi destruída por um motorista bêbado

Dalmo Hernandes 27 dezembro, 2016 0
<i>L’arbre du Ténéré</i>: a árvore mais isolada do mundo foi destruída por um motorista bêbado

O deserto do Ténéré, no centro-sul do Saara, e é uma enorme planície de areia que se estende por 400.000 km quadrados entre o nordeste do Níger e o oeste do Chade. Ténéré, no idioma Tuareg, significa “deserto”, assim como sahara quer dizer a mesma coisa em um dos vários dialetos africanos que existem. É por isso que o Ténéré também é conhecido como “o deserto dentro de um deserto”, uma área extremamente remota mas que, na década de 1970, viu nascer uma das provas automobilísticas mais incríveis do mundo, o Rali Paris-Dakar. Mas esta não é a história que vamos contar. Não hoje.

Lá, um dia, viveu a árvore mais isolada do mundo – não havia qualquer outra árvore, e nenhuma civilização, em um raio de 400 km. Ela era uma acácia conhecida como “A árvore do Ténéré”.

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O único resquício de intervenção humana que havia perto da árvore era um poço artesiano alimentado por um lençol freático a 30 metros da superfície. As raízes da também chegavam até a água, e por isso ela continuava viva.

A árvore do Ténéré era a última lembrança de um tempo quando o deserto do Saara, do qual o Ténéré faz parte, era menos inóspito e mais verde, há mais de 300 anos. À medida em que a região do Saara ficou mais quente, as outras acácias morreram e só restou uma.

Era uma árvore pequena, com cerca de quatro metros de altura e copa em formato de pára-sol. Seu tronco se bifurcava logo na metade, dando à acácia a forma de um “Y”, e os povos que viviam na região a consideravam um tabu. Viajantes, caravanas e povos nômades como os tuaregues, que transportavam grãos,sal e especiarias pelo Saara, costumavam parar para pegar água do poço e prestar respeito à árvore, reunindo-se em volta dela para descansar por algumas horas antes de seguir viagem. Eles não arrancavam seus galhos para se aquecer à noite ou preparar chá, nem deixavam que seus camelos se alimentassem das folhas.

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Por décadas e décadas a árvore do Ténéré era algo conhecido e adorado apenas pelos nativos. Foi só na da década de 1930, que o resto do mundo a conheceu e se encantou por seus mistérios. Foi em 1934 que, pela primeira vez, um veículo motorizado passou pelo deserto do Ténéré. Ele levava o explorador Henri Lhote, que visitava o deserto pela primeira vez, e ficou impressionado com a resiliência da acácia.

Em seu livro L’épopée du Ténéré, Lhote diz que o tronco tinha “um aspecto degenerado, como se estivesse doente, mas a árvore tem folhas verdes e bonitas, e algumas flores amarelas”.

O comandante das Missões Militares Aliadas da frança, Michel Lesourd, também enxergava algo extraordinário na árvore, e admirava o modo como os nômades Touareg viam na árvore do Ténéré uma espécie de divindade que precisava ser respeitada. Ele a chamou de “um farol vivo”.

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Com o passar dos anos, a árvore do Ténéré tornou-se um símbolo do grande deserto africano. Era o único ponto de referência para quem atravessava o deserto Ténéré – fosse por necessidade ou aventura. Até que, um dia, ela foi atingida por um veículo, como o próprio Lohte relata no livro. Ele descobriu o fato na segunda vez em que visitou a árvore, em 1959.

Se antes esta árvore era verde e florida, agora é uma árvore com espinhos, sem cores e nua. Não consigo reconhecê-la. Antes ela tinha dois troncos bem separados. Agora, só tem um, com um toco ao seu lado, arrancado, e não cortado. O que aconteceu com esta árvore infeliz? Simples: um caminhão a atingiu… mas havia espaço suficiente para desviar dela… o tabu, a árvore sagrada, aquela que nômade algum se atreveria a ferir com a mão… vítima de um motorista.

Ao que consta, a árvore permaneceu viva e em pé mesmo depois deste primeiro impacto. Até que, em 1973, ela foi atropelada novamente – e, desta vez, completamente arrancada do solo, morta por um motorista líbio que, de acordo com relatos da época, estava bêbado. Mas isto jamais foi confirmado, e o motorista jamais foi encontrado (o que faz sentido: você também não daria um jeito de sumir se tivesse derrubado acidentalmente uma árvore de 300 anos?).

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No dia 8 de novembro, os restos da árvore foram levados para um museu em Niamei, a capital do Níger, onde permanecem até hoje, abrigados por uma espécie de mausoléu.

No lugar da árvore, foi erguida uma escultura de metal que lembra vagamente uma árvore, iluminada por um holofote.

Quatro anos depois, em 1977, o piloto de rali francês Thierry Sabine se perdeu no deserto de Ténéré durante uma provaa. Não foi fácil, mas em sua experiência ele percebeu uma coisa: o local seria perfeito para um rali — uma prova desafiadora, longa e que serviria para pilotos de motos e carros do mundo todo testarem suas habilidades. Foi ali que nasceu o Paris-Dakar, uma das provas automobilísticas mais famosas e difíceis do planeta.

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