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Lendas do WRC: Citroën C4 WRC e a consagração de Sébastien Loeb na elite do rali mundial

Como você já deve saber a esta altura, Sébastien Loeb é o maior vencedor da história do Campeonato Mundial de Rali com nada menos que nove títulos em sequência, de 2004 a 2012. Ao longo destes nove anos, Loeb só piltotou carros de uma equipe: a Citroën.

Até 2006 o Xsara WRC foi o carro de rali da equipe de fábrica da Citroën. O carro foi imbatível nos três primeiros anos. A equipe de fábrica faturou  três títulos de construtores em 2003, 2004 e 2005, e Loeb ganhou seus dois primeiros títulos do mundial de pilotos em 2004 e 2005.

O ano de 2006, porém, trouxe um adversário inesperado: o Ford Focus, que finalmente acertou na receita e tirou o Xsara de seu trono. Loeb continuou vencendo sem parar, mas a Citroën precisava reagir se quisesse voltar ao topo. Se pensarmos bem, em uma época de evolução rápida no WRC, o Xsara até durou bastante tempo sem alterações significativas — foram seis anos, de 2001 a 2006. Estava mais do que na hora de preparar um sucessor.

Quando você examina um Citroën C4 e vê as linhas elegantes, as saídas de ar perfumadas, o painel digital e o volante com centro fixo, tem a impressão de que é um carro muito sofisticado. O que muita gente não sabe é que, logo que foi apresentado ao mundo — no Salão de Genebra de 2004 — o C4 já deixou claro que foi feito pra ser um campeão do WRC.

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O cara aí em cima é o primeiro conceito do C4, adequadamente batizado de C4 WRC Concept. Era um perfeito carro de competição, com direito a volante de saque rápido, bancos concha e gaiola de proteção, e deixou claras as intenções do novo modelo, cuja versão de produção estreou ainda naquele ano.

Um belo resumo da temporada de 2006 do WRC — se tiver 52 minutos livres, assista, porque vale a pena

Àquela altura o Xsara ainda competia, mas já sentia o peso dos anos — especialmente em 2006, quando o Ford Focus conquistou seu primeiro título. Felizmente, o desenvolvimento do novo carro de rali da Citroën estava caminhando a passos largos. Naquele mesmo ano a versão definitiva do C4 WRC foi apresentada também no Salão de Genebra, pronta para estrear na temporada seguinte do WRC.

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O novo carro tinha um desafio muito grande pela frente, pois além de vencer, deveria superar seu antecessor. Por sorte, era um carro de concepção bem mais moderna, baseado na recém-lançada plataforma do Peugeot 307. Além disso, a Citroën trabalhou ao lado de Loeb ao longo de todo período de desenvolvimento do carro de rali — desde sua apresentação, em 2004, até sua estreia em 2007 — para garantir que seu principal piloto e sua nova ferramenta trabalhassem em harmonia.

Sendo um carro maior que o Xsara, com 4,2 metros de comprimento e 1,8 metro de largura, o C4 não teve problemas em se adequar ao regulamento do WRC e a carroceria não precisou de grandes modificações para tal. Contudo, há diversas diferenças entre o C4 de rali e o C4 que vemos nas ruas.

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A suspensão, a exemplo do 206 WRC, é independente do tipo McPherson nas quatro rodas, diferentemente do modelo de rua, que usa eixo de torção. O Xsara WRC foi o ponto de referência, o benchmark, e por isso o C4 continuou usando o motor de dois litros com comando duplo no cabeçote e turbo — agora com 315 cv a 5.500 rpm (15 cv a mais que o Xsara) — acoplado a uma caixa semi-automática de seis marchas com trocas sequenciais. A força do motor é levada para as quatro rodas através de três diferenciais: dois mecânicos, na dianteira e na traseira; e um eletrônico no centro.

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Em relação ao conceito, o carro não recebeu muitas alterações estéticas, embora o conjunto aerodinâmico e a asa traseira tenham sido substituídos para adequar-se ao regulamento e, por razões óbvias, o teto de vidro tenha dado lugar a uma chapa de aço tradicional — afinal, você já viu um carro de rali com teto de vidro?

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O primeiro ano do C4 WRC, 2007, foi um ano de desenvolvimento; o carro ainda precisava ser aperfeiçoado e, com base no feedback de Loeb e seu colega de equipe Dani Sordo, a Citroën faria as mudanças necessárias. Apesar disso, o desempenho do novo carro de rali foi o suficiente pra que Loeb não interrompesse sua espetacular sequência de títulos.

Loeb em ação com o C4, Monte Carlo, 2007

Na verdade, logo na estreia do C4 — o Rally Monte Carlo de 2007 —, Loeb e Sordo conseguiram uma dobradinha em cima da Ford. O bom desempenho continuou ao longo da temporada e raramente os franceses deixavam o pódio, com direito a mais sete vitórias em 16 etapas e outras duas dobradinhas (na Catalunha e na Irlanda) e, claro, ao título de Loeb. Aliás, o Citroën C4 foi um dos únicos (se não o único) carro do WRC a competir com a mesma dupla principal ao longo de toda sua carreira nas pistas.

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A competitividade de Loeb e Sordo foi comprovada no ano seguinte, 2008, quando a Citroën inaugurou uma nova sequência de títulos que só foi interrompida em 2013, quando Loeb se aposentou e outro francês chamado Sébastien conquistou seu primeiro título: Ogier, pela Volkswagen. Aliás, a primeira experiência de Sébastien Ogier em na categoria de topo do WRC foi 2008 e pela Citroën. Coincidência, não?

De qualquer forma, nas temporadas seguintes o bom desempenho se repetiu. O C4 WRC continuou superior à concorrência graças ao talento de Loeb e à ótima atuação de Sordo. Juntos, ambos acumularam 36 vitórias pela Citroën e, quatro anos, sendo que duas delas foram conquistadas por Ogier em 2010 — ano em que Kimi Räikkonen decidiu aventurar-se nos ralis, acompanhando Ogier na equipe secundária da fabricante francesa.

Kimi Räikkonen, honrando o sangue finlandês

Em 2011, o C4 deu lugar ao DS3 — sucessor que, nas mãos de Loeb, ainda concedeu à Citroën mais dois títulos de construtores antes que Ogier, agora na VW, se tornasse o grande nome do momento no rali. Mas estas histórias vão ficar para os dois últimos posts da série Lendas do WRC do FlatOut. Fique ligado!

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