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Car Culture

Lendas do WRC: Citroën Xsara WRC e a estreia matadora de Sébastien Loeb

Se você perguntar a qualquer um que entenda um pouco de história dos ralis qual foi a equipe que mais venceu no WRC, a resposta será a Lancia. Com o Stratos, o 037 e o Delta HF Integrale, a Lancia venceu nada menos que dez títulos do campeonato de construtores e até agora não foi superada. Sendo assim, certamente os italianos foram os que mais acumularam títulos de construtores, certo?

Errado: esta honra vai para os franceses, que dominaram o Grupo B nos anos 80 com o Peugeot 205 T16 e, no início dos anos 2000, voltaram com tudo graças ao Peugeot 206 WRC. Mas foi com a Citroën que eles deixaram claro que seriam imbatíveis por quase dez anos. E tudo começou com uma dupla exposiva: Sébastien Loeb e o Citroën Xsara.

Mas vamos começar do começo.

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A Citroën e a Peugeot são parte da mesma companhia, a PSA, desde 1976 — o que significa que, tecnicamente, o triunfo do Talbot Lotus Sunbeam em 1981 foi um esforço comum das duas companhias, pois a Talbot era uma das marcas que faziam parte do grupo PSA Peugeot Citroën na época. Pelo resto da década, porém, a Peugeot assumiu o papel de competir no WRC, de modo que, de acordo com a política interna do grupo, a Citroën não poderia fazer o mesmo para não provocar concorrência direta.

Por isso a Citroën só pode competir a sério no WRC depois que a Peugeot desistiu da categoria, em 2003, para investir nas corridas de longa duração. As duas equipes continuaram na competição, mas a Peugeot estava mais interessada nas corridas de longa duração — empreitada que culminou com uma vitória em Le Mans em 2009, com o Peugeot 908 HDi — e abriu espaço para que a Citroën mostrasse seu potencial fora do asfalto.

Quer dizer, “reafirmar” é um verbo melhor, porque nos anos 50 o Citroën DS — um dos carros mais inovadores de todos os tempos, responsável por introduzir à Citroën conceitos como a suspensão ajustável hidropneumática — conseguiu ótimos resultados nos ralis, incluindo o Rally Monte Carlo em 1959 e 1966.

Com a chegada do WRC, a Citroën teve a chance de recuperar este legado. Começaram de leve, com um desempenho exemplar no circuito de rally-raid (provas de resistência que podem durar semanas, divididas em vários estágios, como o Rally Dakar) e também no WRC, com seu Xsara Kit Car.

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Apesar do nome, a categoria Kit Car do WRC não era disputada por kit cars. Posicionada como alternativa mais barata ao Grupo A, a Kit Car era disputada em campeonatos nacionais. Os carros eram baseados em versões de produção, mas deveriam ser equipados com motores de até dois litros com cabeçote de 16 válvulas e turbocompressor, com potência limitada a 280 cv. O peso mínimo era de 960 kg e os carros tinham tração traseira.

O Xsara Kit Car foi apresentado em 1998 e, logo de cara, venceu dois títulos franceses em sequência e foi colocado para correr nas etapas de asfalto do WRC em 1999, vencendo em Corsica, na Itália, e na Catalunha, na Espanha. Com a Peugeot fora do caminho, a Citroën teria espaço para investir em um novo carro para encarar os peixes maiores no WRC para valer.

A Citroën poderia ter aproveitado todo o trabalho já realizado pela Peugeot no desenvolvimento do 206 WRC — afinal, era um carro tricampeão e continuava superior aos rivais —, mas era uma questão de honra projetar o novo carro do zero.

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Sob o comando de Guy Fréquelin, os engenheiros da Citroën Sport modificaram o Xsara usado nas ruas, reduzindo sua largura para ficar abaixo do limite de 1.770 mm imposto pelas regras do WRC, e deram a ele um discreto spoiler dianteiro complementado por uma gigantesca asa traseira de fibra de carbono.

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Já ostentando a dianteira reestilizada, o Xsara WRC era menor que um Kit Car mas, de acordo com os pilotos, era um carro mais fácil de guiar — algo necessário quando qualquer erro no meio de uma curva podia significar o fim da competição para uma equipe.

Acompanhando a Citroën desde seu retorno aos ralis no fim dos anos 1990 estava um jovem piloto francês chamado Sébastien Loeb. Ele e o colega espanhol Jesús Puras foram os destaques da equipe desde os kit cars, com Loeb conquistando seu primeiro título em 2001.

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A estreia no WRC aconteceu em 2001. O motor do Xsara deslocava 1,8 litro, tinha bloco de alumínio (o Kit Car usava um bloco de ferro) e era instalado em posição longitudinal. Com cabeçote de 16 válvulas, taxa de compressão de 9:1 e turbo Garrett, entregava 315 cv a 5.500 rpm e 58,1 mkgf de torque a baixas 2.750 rpm.

O câmbio era manual de seis marchas com acionamento sequencial, e seu maior trunfo era o sistema de tração integral que usava um módulo de controle Magneti-Marelli exatamente igual ao que controlava o motor para gerenciar dois diferenciais eletro-hidráulicos (central e traseiro) ativos. Assim, o torque era distribuído em proporção 50-50 como padrão, mas podia variar de acordo com as condições do piso. Como no 206 WRC, a suspensão era independente do tipo McPherson nas quatro rodas (com braços triangulares inferiores na traseira).

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Nos dois primeiros anos, o Xsara conseguiu duas vitórias, uma em cada ano — 2001 e 2002. Jesús Puras conseguiu vencer na Córsega, e Loeb, que estreou no WRC com um carro de nível mundial e 2001, venceu o Rali ADAC, na Alemanha, no ano seguinte.

Acontece que, naquele ano, o 206 ainda era o rei dos estágios. O caminho só ficou limpo de verdade em 2003, ano em que Petter Solberg conquistou o título dos pilotos com a Subaru. No campeonato de construtores, porém, os carros de Loeb, Carlos Sainz e Colin McRae garantiram que o Xsara levasse a maior taça para casa pela primeira vez.

No ano seguinte, Loeb se destacou de verdade. Vencendo sete dos dezesseis ralis (seis com Loeb) e comparecendo a todos os pódios, às vezes com dois carros — os pilotos eram Loeb e Sainz —, a Citroën conquistou 194 pontos (51 na frente da Ford) e comemorou seu segundo título de construtores em sequência. Sébastien Loeb seria campeão entre os pilotos — feito que repetiria outras oito vezes até 2012.

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Em 2005, Sainz deu lugar ao belga François Duval como companheiro de equipe de Loeb durante quase toda a temporada, correndo em apenas quatro etapas e subindo ao pódio em uma delas, na terceira posição (Acrópole, na Grécia). Loeb venceu dez das dezesseis etapas e Duval venceu uma. Foi um desempenho ainda mais insano do que o do Delta nos anos 90. Na metade da temporada todos tinham certeza: Loeb e a Citroën seriam os donos da festa de novo.

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Dito e feito. Com 127 pontos — quase o dobro do segundo colocado, Petter Solberg — Loeb venceu seu segundo título e o Xsara, seu terceiro e último. Poderia ter conseguido mais dois até 2007, se Loeb não tivesse sido contratado pela Ford e não tivesse sido substituído pelo C4 WRC. Mas estas histórias ficam para os próximos posts!

 

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