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Lendas do WRC: Focus RS WRC e a volta triunfal da Ford ao topo do Mundial de Rali

Nos últimos posts da nossa série especial sobre as Lendas do WRC, vimos que na maior parte dos anos 2000 os franceses dominaram o WRC graças à combinação de carros matadores (Peugeot 206 e Citroën Xsara, C4 e DS) e o talento de Sébastien Loeb – que superou o tetracampeão Juha Kankkunen com nove títulos em sequência entre 2004 e 2012.

Apesar de sua campanha virtualmente perfeita, porém, Löeb não conseguiu garantir todos os títulos de construtores para a Citroën: em 2006 e 2007, quem levou a taça para casa foi a Ford. Seu segredo? Focus.

Considerado o maior rival do Volkswagen Golf desde o lançamento em 1998, o Focus sempre foi reconhecido por seu comportamento dinâmico exemplar. Com suspensão independente nas quatro rodas (McPherson na dianteira e multilink na traseira), motor dianteiro transversal e tamanho mais do que adequado, o Focus era o carro perfeito para que a Ford ensaiasse um retorno aos tempos de glória do WRC.

A era de ouro da Ford no WRC foi o ano de 1979, quando o Escort RS1800 conquistou seu primeiro e único título mundial de construtores. Ao longo dos anos o Escort evoluiu para um hatch de tração dianteira relativamente compacto e bem equilibrado, e em 1993, foi colocado para correr no Grupo A do WRC.

Apesar de conseguir dez vitórias nos cinco anos em que competiu, o Escort nunca conquistou um título de construtores. Além disso, cinco anos eram uma eternidade para um carro de rali – sempre em evolução rápida, eles davam tudo o que tinham para oferecer em dois ou três anos. Depois disso, ficavam ultrapassados e as equipes precisavam de carro novos. A Ford já havia adiado tempo demais.

Assim, em 1998 o recém nomeado chefe da divisão, Malcolm Wilson, recebeu autorização da chefia para iniciar o processo de transformação do Focus em um carro de rali – o carro-base já estava decidido. Na verdade, seu projeto foi até influenciado pela possibilidade de uma aventura no WRC.

A escolha da suspensão traseira independente multilink não veio por acaso: a Ford já previa que o Focus seria seu novo carro de rali, e facilitou o trabalho de Wilson adotando o sistema no carro de produção, já que as regras do Grupo WRC eram mais rígidas que as do Grupo A. Apesar de não  exigir séries de homologação, a FIA foi um pouco mais restrita quanto à carroceria e à suspensão, por exemplo.

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Assim, quando a Ford decidiu dar ao Focus o tratamento necessário, não foi preciso calcular as modificações para adaptar um novo tipo de suspensão dentro das regras. Já estava tudo pronto, ou quase.

Se você nos acompanha, deve saber que o Escort RS Cosworth estava mais para um Ford Sierra com carroceria de Escort – ele tinha até motor longitudinal –, e que seu motor era uma verdadeira joia mecânica desenvolvida pela Cosworth, com comando duplo no cabeçote, turbo e mais de 300 cv. Pois esta fórmula já estava batida no fim de sua carreira, e por isso o Focus era o mais indicado: com motor transversal, tração integral e balanços mais curtos, ele finalmente poderia colocar a Ford no mesmo nível dos rivais.

Agora com um motor Zetec de dois litros e 16 válvulas equipado com um turbocompressor Garrett (o Escort usava uma turbina da IHI), intercooler e radiador de óleo, o Focus RS WRC dispunha de 300 cv a 6.500 rpm e 56,1 mkgf de torque a 4.000 rpm. Era acoplado a uma caixa manual de seis marchas da XTrac, equipada com sistema de trocas sequenciais.

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Sua estreia, em 1999, deu início a uma parceria lendária: Colin McRae era o novo piloto principal da Ford, que pagou £ 6 milhões por um contrato de dois anos com o piloto – uma das transações mais caras da história do WRC –, que depois foi prorrogado por mais dois anos.

Colin McRae 2002-  Ford Focus - Action

Apesar de a Ford não ter conquistado nenhum título durante os quatro anos em que Colin McRae correu com a equipe, o desempenho do piloto na Ford – nove vitórias nestes quatro anos, algo impressionante em uma das categorias mais desafiadoras do automobilismo – fez com que a associação entre ambas as partes se tornasse emblemática. Ajudou, também, o fato de ter sido na Ford que McRae se tornou o maior vencedor de eventos na época, com 25 vitórias.

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Ao longo dos anos, o Focus de rali jamais deixou de evoluir. Sendo uma plataforma mais versátil, também era possível modificar componentes da carroceria de forma mais ágil sem entrar em conflito com o regulamento. Assim, em 2003, o Focus estreou um novo conjunto de para-choques, saias e spoilers.

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O chamado Focus WRC 03 era mais leve, tinha um para-choque mais aerodinâmico e asa traseira redesenhada. No mais, usava o mesmo monobloco e serviu como base para os modelos de 2004 e 2005 – campanhas não muito expressivas, com apenas três vitórias de Markko Märtin em 2004 e nenhuma em 2005.

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As vitórias voltaram a aparecer em 2006, quando a Ford criou um novo Focus de rali baseado na segunda geração do modelo. Apesar de manter o mesmo arranjo mecânico e de suspensão, o Focus WRC 06 era melhor acertado, mais leve e o motor era agora baseado na família Duratec porém tinha os mesmos dois litros, 16 válvulas e 300 cv graças a um restritor de ar no coletor de admissão (exigências do regulamento).

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Era deste ar fresco que a Ford precisava, porque com o novo Focus WRC, o finlandês Marcus Grönholm conseguiu nada menos que sete vitórias na temporada de 2006 do Mundial de Rali. Seu compatriota e colega de equipe Mikko Hirvonen conseguiu mais uma, e assim a Ford garantiu 195 pontos – 29 pontos de vantagem sobre a Citroën. Os ingleses estavam de volta!

Aconteceu a mesma coisa em 2007. O saldo não poderia ter sido melhor: logo na terceira etapa, a dupla Grönholm e Hirvonen e o colega de equipe norueguês Henning Solberg, irmão de Petter Solberg, garantiram uma vitória tripla. A partir daí, foram mais sete vitórias, com direito a dobradinha finlandesa em casa.

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Ainda que Loeb não parasse de acumular pontos no campeonato de pilotos, a Ford conseguiu conquistar seu segundo título em sequência naquele 2007.

O Focus continuou competindo no WRC por mais três anos, até que em 2010 foi substituído pelo Fiesta. A terceira geração nunca competiu em um rali mundial, mas seu legado continua: a adoção da tração integral ao novo Focus RS nos traz à memória, imediatamente, o tempo em que o Focus provou que a Ford ainda tinha jeito para os ralis. Missão cumprida!

 

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