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Car Culture

Lendas do WRC: quando o Toyota Corolla largou o escritório e se tornou campeão do Mundial de Rali

Pensamos em várias abordagens antes de começar este post, mas é inevitável: quando a gente pensa em Toyota Corolla, o que vem à mente é um confiável sedã japonês, con interior confortável, mecânica a toda prova e, provavelmente, carroceria prata. É um bom carro, sem dúvidas, mas não é exatamente entusiasta. Dito isso, talvez você tenha se surpreendido quando leo o título deste texto e viu as palavras “Lendas do WRC” e “Toyota Corolla” tão perto em uma frase.

Pois bem: aconteceu, e foi em 1999 — o que torna tudo ainda mais chocante porque, naquele ano, o Corolla estava em sua oitava geração — a primeira fabricada no Brasil. Se você não está ligando o nome ao carro, vamos refrescar sua memória:

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Sim: o Corolla que venceu o WRC em 1999 pertence à mesma geração do primeiro Corolla fabricado no Brasil, de 1998 a 2002. Acontece que o carro de rali era bem diferente do sedã meio careta que, em poucos anos, se tornou o maior sucesso da Toyota no nosso mercado.

Para começar, ele era um hatch, e não um sedã — como era comum entre os modelos mais populares das fabricantes japonesas no início dos anos 2000, o Corolla tinha vários nomes e estilos que variavam de acordo com o mercado em que ele era vendido. Na Europa, o Corolla E110 (o código da oitava geração) era vendido na Europa e nos EUA com visual bem diferente na dianteira.

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Você já deve ter visto um Corolla com faróis redondos rodando por aí, não é? O caso é que, no fim dos anos 90, a Toyota trouxe para o Brasil algumas unidades da versão europeia do Corolla de oitava geração, mas o carro não foi bem recebido por seu visual um tanto exótico para o brasileiro. Acontece que foi o Corolla europeu com carroceria hatchback que serviu de base para o carro do WRC da Toyota em 1999.

A Toyota já havia experimentado a glória no WRC com o Celica Turbo 4WD — quer dizer, “experimentado” é pouco: com o cupê de motor quatro-cilindros turbo e tração integral, a Toyota conseguiu três títulos de pilotos e três de construtores, sendo que a maioria deles foi conquistada em sequência entre 1992 e 1994. Com o triunfo do Corolla em 1999, a Toyota acumulou quatro títulos de construtores e, no total, venceu o WRC mais vezes que a Subaru.

Mas como foi o último título da Toyota no WRC?

O Corolla que disputou o mundial de rali, como já dissemos, era baseado no hatchback de duas portas europeu de oitava geração, com faróis redondos. O segredo era seu sistema de tração integral, emprestado do Celica — ou você achou que, com os anos 2000 chegando, a Toyota ainda iria arriscar com tração dianteira?

O último título da Toyota com o Celica foi conquistado em 1994. Cinco anos depois, o carro já estava em uma nova geração, mas não era o mais indicado para disputar ralis. A concorrência tinha carros menores e mais leves, como o Escort da Ford e o Lancer Evolution da Mitsubishi (que estava em seu auge sob o comando de Tommi Mäkinen). O que fazer, então?

A divisão europeia da Toyota sabia exatamente o que fazer: colocar o Corolla no lugar do Celica — era um carro menor, mais leve e mais ágil, e a sequência absurda de vitórias do Delta anos antes era a prova de que um carro de motor transversal e tração dianteira tem potencial para ser um campeão nos estágios. Eles só precisavam fazer alguns ajustes — e convencer a sede no Japão de que era uma boa ideia.

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Com a mudança nas regras do WRC em 1997, dispensando a necessidade de criar um especial para homologação, a Toyota europeia tinha o argumento perfeito para colocar motor e o sistema de tração integral do Celica no Corolla. E foi exatamente isto o que eles fizeram, apresentando o Toyota Corolla WRC em 1998.

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Obviamente não foi uma tarefa simples — afinal, são carros essencialmente diferentes. O motor do Corolla de rali era baseado naquele do Celica, o que significa que era um quatro-cilindros de dois litros e 16 válvulas com comando duplo no cabeçote. A potência declarada era de 300 cv e o torque, de 52 mkgf (a potência real ficava na casa dos 350 cv), e o novo turbocompressor garantia que o motor tivesse fôlego até as 7.250 rpm 3 pra efeito de comparação, a “faixa útil” do Celica ia até 6.000 rpm. O câmbio era manual de seis marchas, com trocas sequenciais.

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O motor era recuado em 20 mm para melhorar a distribuição de peso — 54,4% na dianteira, 45,6% na traseira —, e o sistema de tração integral tinha dois diferenciais eletro-hidráulicos. A distribuição padrão de torque entre os eixos era de 50/50, mas variava de acordo com as condições do piso, e o curso da suspensão era de nada menos que 20 cm, um dos maiores da época.

O resultado era um carro difícil de bater. Se você acha que as coisas foram fáceis para a Mitsubishi, que levou os dois títulos de 1998, você está enganado: o Corolla deu trabalho para o Lancer de Tommi Mäkinen em seu ano de estreia, vencendo três etapas — Monte Carlo, Espanha e Nova Zelândia — e ficando com o segundo lugar em quase todas as outras. Parece pouca coisa, mas foi o suficiente para que Carlos Sainz, estrela da Toyota, ficasse atrás do campeão finlandês por apenas dois pontos.

Mas foi em 1999 que o Corolla brilhou de verdade. Carlos Sainz e Didier Auriol eram os pilotos principais e, juntos, deram o título de construtores à Toyota com um desempenho extremamente consistente — apesar de vencer apenas três vezes, era difícil ver um pódio que não contasse com a presença de algum dos dois.

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Assim, a equipe japonesa conseguiu acumular 109 pontos contra 105 da Subaru, segunda colocada. A Mitsubishi, que viu Tommi Mäkinen conquistar seu quarto título consecutivo no campeonato de pilotos naquele ano, ficou apenas com a terceira posição entre os construtores.

Ao todo, 57 unidades do Corolla WRC foram fabricadas pela Toyota Europe, e cada uma levava pelo menos 400 horas para ficar pronta. Destes, 33 foram usados pela equipe de fábrica entre, enquanto os outros 24 foram vendidos a equipes independentes.

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Leonardo Contesini
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