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Limão na ferida: este Porsche 911 turbodiesel foi feito para incomodar puristas

Pense em um Porsche 911. Como ele é? Você provavelmente passou alguns instantes decidindo qual seria a geração e a versão. Um 911 clássico? Um 930 Turbo? Ele seria um carro de rua, para curtir todos os dias, ou um especial de pista na veia do GT2 RS?  Um RWB? Um Singer?

Não importa. Tenho certeza de uma coisa: ele está inteiro. Pode não estar limpo, pois você dá o devido uso a seu 911 imaginário, mas é um Porsche 911 inteiro, utilizável, e equipado com um flat-six na traseira. Turbo ou aspirado? Aí é com você.

Dificilmente há ícone maior que o Porsche 911 em termos de carro esporte. Mesmo que eu não fosse fã do 911 saberia reconhecer a força de seu nome, de sua silhueta e a forma como ele mostra que a Porsche sabe conciliar tradição e inovação, old school cutting edge. E é por necessidade: o Porsche 911 está para sempre preso ao motor boxer em sua traseira, mesmo que já existam outras formas naturalmente mais eficientes de fazer carros esportivos há décadas.

Não dá para não admirar isto, mesmo que o você prefira o Corvette, a Ferrari 458 Italia, o Mercedes-AMG GT R, o Nissan GT-R ou qualquer outro esportivo que possa ser chamado de “911 killer”. Na real, o fato de existir o termo “911 killer” é mais uma evidência do quão icônico é o nine-eleven.

“Iconoclasta” é como se chama aquele que destrói um ícone. Entre início do século VIII e meados do século IX, o Império Romano Oriental, cuja capital era Constantinopla (hoje Istambul, a quarta maior cidade do mundo e maior cidade da Turquia), foi dominado pela política iconoclasta, que dividiu os cristãos do império entre iconódulos, ue adoravam imagens sacras; e os iconoclastas, que as repudiavam. No ano 730, o imperador Leão III declarou que era proibido adorar ícones, o que causou revolta nos iconódulos, que foram perseguidos e tiveram suas imagens destruídas pelos iconoclastas. Aliás, a palavra quer dizer exatamente isto: deriva dos termos gregos eikon, “ícone” ou “imagem”; e klastein, “quebrar”.

E como quebrar o ícone que é o Porsche 911? Aliás, por que alguém iria querer fazer isto?

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Talvez nunca saibamos o exato porquê de uma equipe de corridas chamada Hella Shitty Racing  algo como “Tosco pra C*ralho Racing” em uma tradução meia-boca – pegou um Porsche 911 todo ferrado e foi disputar com ele as 24 Horas de Le Mons. De quebra, viraram notícia no mundo todo.

“Vocês estão loucos em dar espaço para eles. Os caras destruíram um Porsche 911!” Duas coisas. Primeira: tecnicamente não foram eles que destruiram o carro – ele já estava destruído antes. Afinal os caras pagaram menos de 500 dólares nele (como mandam as regras das 24 Horas de Le Mons). Segunda: eu também fiquei furioso em um primeiro momento – até perceber que era exatamente isto que os caras queriam: irritar os puristas. Irritar caras como Jack Baruth, fã da Porsche, dono de Porsche, ex-editor-chefe do site automotivo The Truth About Cars, que em 2011 escreveu um artigo criticando a RAUH-Welt Begriff, ou RWB, companhia do customizador e fumante japonês Akira Nakai, porque seu trabalho estava “destruindo os Porsche 911 arrefecidos a ar”.

Baruth disse o seguinte ao descrever como nasce um Porsche da RWB:

O cara compra um Porsche 964 Turbo e manda um japonês colocar um bodykit horrível, rebaixar a p*rra toda e basicamente transformar aquilo que era um carro esportivo muito completo e competente em uma caricatura sobre rodas. O carro então é levado para o SEMA para que a tribo de caras desempregados, meio retardados, com boné de lado que ficam reunidos em estacionamentos de supermercados possam coroar o dono como seu novo rei.

(…) A boa notícia é que a “expertise” da RWB é superficial. Akira Nakai não está tocando a Rinspeed ou a Ruf. Ele provavelmente não manja de carros o bastante para fazer muitas mudanças nele. Daqui a vinte anos o futuro dono deste carro conseguirá restaurar o 964 de volta à originalidade. Claro, vai custar dinheiro, especialmente nos para-lamas traseiros (e na suspensão, que provavelmente estará arruinada por aquelas rodas ridículas), mas será possível.

Você não precisa gostar do trampo de Akira Nakai, mas é preciso dizer que o cara organiza corridas toda semana com dezenas de 911 modificados pela RWB. Os carros não são originais mesmo, sendo equipados com motores turbinados fornecidos por outras preparadoras e customizados, na maioria das vezes, com inspiração no Porsche 911 GT2 RS da geração 993, versão favorita de Akira Nakai. Há quem faça um Porsche 911 RWB só pela estética da coisa, mas não cabe a mim tentar convencer de que é algo ruim o trabalho de um cara reconhecido no mundo todo e que faz algo que admiro – ganhar a vida modificando e pilotando Porsches. Até porque eu acho os RWB legais.

O caso é que o chamado Nein-11, um trocadilho que brinca com o termo em inglês nine-eleven e a palavra “não” em alemão (“não-11”), é um gigantesco e proposital “F*DA-SE” para o Baruth, para mim, para você e para qualquer outro que acha que um 911 não poderia ter sido transformado em uma sucata sobre rodas. Não foi um projeto maluco que por acaso ousou demais e gerou revolta. Foi um projeto maluco que ousou de propósito na medida certa para causar MUITA revolta. São coisas diferentes.

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O carro foi comprado pelo americano Philipp von Weitershausen porque ele estava restaurando um 911 (de verdade, para usar nas ruas, seguindo todas as convenções sociais) e se interessou pelo conjunto mecânico vindo da Europa, difícil de encontrar nos Estados Unidos. Depois de pegar o motor e o câmbio, ele ficou apenas com a estrutura do 911, com as quatro rodas, mas sem carroceria, motor ou interior – o carro foi comprado como estava por pura conveniência. Então, ele teve o estalo de colocá-lo para correr em LeMons.

Para quem não lembra, as 24 Horas de LeMons  são um campeonato que acontece em diversos circuitos dos EUA e só aceita carros que custem no máximo US$ 500, no total (excluindo da conta custos com equipamentos de segurança). O vencedor da corrida é o que menos importa: os organizadores dão prêmios em dinheiro para o carro mais barato, para o mais exótico, para o que abandona primeiro e para o último a cruzar a linha de chegada. A ideia é mesmo celebrar o automobilismo de baixo custo e, acima de tudo, o bom humor. Também é por isso que ele era vermelho em uma corrida, e já estava azul em outra.

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A cara de bichinho fofinho do Nein-11 esconde uma cutucada: RAUCH Wolke, em alemão, significa “nuvem de fumaça”. Se é uma referência ao dieselgate ou ao hábito de fumar um cigarro atrás do outro de Akira Nakai, ou ambos, não importa: é genial

Bom humor é a chave do Nein-11. Em 2014, quando o projeto começou, Weitershausen contou ao Jalopnik como surgiu a ideia de transformar sua sucata de 911 em um carro de corrida.

Depois que eu removi tudo o que precisava, a carroceria ficou no chão da oficina, esperando para ir para o ferro velho. Então todo mundo meio que percebeu que transformá-lo em um carro para LeMons era uma oportunidade boa demais para deixar passar. A gente poderia ofender tanto o pessoal que adora duvidar do orçamento de US$ 500 quanto os puristas da Porsche.

Começamos a pensar em que conjunto mecânico colocaríamos para ofender ao máximo e, na boa, só havia uma resposta: um motor a diesel. Além disso, já fizeram tantos swaps diferentes no 911, mas a gente tinha quase certeza de que o nosso seria o único 911 turbodiesel do mundo. Encontramos um Jetta TDI 1998 que não passou na inspeção de poluentes, então o compramos por praticamente nada. Vender as peças de Porsche que não queríamos, como o acabamento interno e os vidros, colocou tudo dentro do orçamento.

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… e o lembrete de quem é a dona da Porsche — ironia fina

O carro participou de LeMons entre 2014 e 2017, com diversas configurações de carroceria, mas sempre a mesma mecânica. Que, apesar de ser relativamente simples (trata-se de um projeto muito parecido com o VW AP, porém turbodiesel), deu bastante trabalho para ser adaptada.

Sabe do que mais? Deve ter ficado no mínimo decente de se conduzir, porque, bem… apesar do aspecto monstruoso e do orçamento baixíssimo, ainda é um 911. E ainda disputa corridas, de certa forma. É de uma heresia sem tamanho e eu faria diferente, mas não consigo condenar friamente.

E, sabe o que mais? O carro está à venda. Depois de quatro anos com ele, Weiterhausen disse que a vida mudou e que precisa se dedicar mais a outras coisas. Diz também que o carro vem com uma gaiola de proteção Evil Genius, um banco concha de fibra de vidro da OMP, cinto de segurança Schroth Profi-II, extintor e sistema de supressão de incêndio.

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O dono ainda afirma que o carro só precisa sangrar os freios e ter os eixos reinstalados (eles foram refeitos recentemente) para correr. O 911 acompanha peças sobressalentes para o motor, a suspensão e os freios. Quanto custa? “Ofertas de menos de US$ 5 mil não serão aceitas”, Weiterhausen disse em um anúncio no Facebook. Não me parece um mau negócio por este 911 iconoclasta, ainda que ele seja mais uma piada (das boas, claro) sobre rodas do que qualquer coisa.

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