Lister Storm: o protótipo Le Mans com um V12 de 7 litros e 600 cv na dianteira – que virou ícone de Gran Turismo

Dalmo Hernandes 10 janeiro, 2018 0
Lister Storm: o protótipo Le Mans com um V12 de 7 litros e 600 cv na dianteira – que virou ícone de Gran Turismo

Aparentemente os carros do mundo real que viraram ícones de Gran Turismo ainda vão nos dar muito assunto para 2018. No ano passado falamos de alguns deles, como o TVR Speed 12, o Nissan R390 GT1 e o Dodge Copperhead, também conhecido como “Dodge Concept Car”. Hoje, vamos adicionar mais um nome à lista: o Lister Storm. Para alguns, a mera menção a seu nome já é um gatilho de nostalgia.

No meu caso, foi por causa de Gran Turismo 2. Eu ainda era bem novo quando jogava, e fiquei impressionado quando entrei na loja da Lister em North City, onde ficavam as fabricantes alemãs e britânicas. Era um carro com faróis escamoteáveis, proporções estranhas e um motor V12 de 593 hp (600 cv). Seu nome escrito em letras garrafais: STORM.

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Era divertido jogar com o Lister Storm: ele apontava rápido para a curva e era desafiador de controlar. Suas saídas de frente e de traseira eram igualmente intensas e praticamente inevitáveis. Em termos de aceleração, havia um estranho lag na aceleração ao passar da segunda para a terceira marcha, mas nada que comprometesse. E a visão da traseira na câmera em terceira pessoa era charmosa, com as enormes lanternas traseiras horizontais. Especialmente na cor azul escuro, tipicamente britânica.

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O Lister Storm atinge 200 mph (321,8 km/h) no Test Course de GT2. Foi difícil tirar este screenshot

O Lister Storm V12 ’94 fez sua estreia em Gran Turismo 2, de 1999, em versão de rua e de competição. Apareceu em todos os títulos da franquia que vieram depois, mas apenas na versão de corrida, que tem uma bela pintura verde-e-amarelo.

Mas que carro é esse, afinal? Qual é a história dele?

Para começar a contar esta história, uma boa maneira é falar sobre a Lister Cars. Os caras começaram a atuar na virada dos anos 60 modificando carros da Jaguar para as pistas. Seu último projeto nesta época foi preparar unidades do Sunbeam Tiger, roadster projetado com a ajuda de Carroll Shelby que, apesar do visual e das dimensões britânicas, trazia debaixo do capô o motor V8 do Ford Mustang. Achou a receita familiar? Sim, é o mesmo conceito do Shelby Cobra.

Só que a Lister não foi muito bem sucedida e, depois de 1963, desapareceu do mapa por mais de vinte anos. Foi em 1986 que a companhia ressurgiu – desta vez, oferecendo serviços de preparação para o Jaguar XJS Coupe, grand tourer que foi produzido entre 1975 e 1996 sem grandes alterações estéticas e era movido por um motor V12 de seis litros e mais de 300 cv.

A Lister, então realizou uma porção de modificações no motor para extrair mais potência: retrabalhou o sistema de injeção eletrônica, que ganhou quatro injetores extras e corpos de borboleta individuais, válvulas maiores, bielas Cosworth e um novo virabrequim com maior curso, aumentando o deslocamento para sete litros. A suspensão e os freios eram modificados e a carroceria recebia novos para-lamas, tampa do porta-malas, faróis e grade. Por dentro, os caras colocavam bancos Recaros de couro, melhorando o apoio nas curvas.

O resultado era um carro de 612 cv. O chamado Jaguar XJS 7.0 Le Mans era capaz de chegar aos 320 km/h, e cada exemplar custava £ 100.000. Os kits venderam razoavelmente bem, e a Lister decidiu, alguns anos depois, participar das 24 Horas de Le Mans com um carro de corrida feito do zero, movido pelo mesmo V12 de sete litros empregado no XJS.

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O carro começou a ser desenvolvido em 1993. Por ter experiência com o Jaguar XJS, a Lister decidiu que o novo protótipo teria o motor na dianteira. O Storm foi construído com uma estrutura do tipo “favo-de-mel” (honeycomb) de alumínio e painéis de fibra de carbono na carroceria. A suspensão usava braços triangulares sobrepostos assimétricos nas quatro rodas, com barras estabilizadoras na dianteira e na traseira, e o assoalho trazia dutos Venturi para criar o efeito-solo, canalizando o fluxo de ar para cima e criando uma zona de baixa pressão sob o carro, empurrando o mesmo para baixo em alta velocidade com a ajuda da carroceria bastante aerodinâmica.

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A silhueta remete ao Porsche 959, mas as proporções são mais estranhas: olha como as rodas parecem pequenas em relação à carroceria

A dianteira era baixa e a traseira era curta, e o motor ficava bastante recuado na estrutura, melhorando o equilíbrio dinâmico. E foi com esta arma na cintura que a Lister atacou as 24 Horas de Le Mans de 1995. Não foi muito bem sucedido, abandonando a corrida por problemas no câmbio depois de 40 voltas.

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No ano seguinte, em uma nova tentativa, o carro conseguiu terminar a corrida na 19ª posição. No ano seguinte, com uma nova dianteira, mais baixa e longa, o Storm teve dois exemplares inscritos nas 24 Horas de Le Mans de 1997. Ambos deixaram a corrida na 77ª volta, e por isso a Lister decidiu que não competiria em 1998, preferindo concentrar seus esforços no redesign do carro. Le Mans também estava descartada – era um desafio ainda muito além da experiência da equipe com o Storm.

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Em 1999, o Lister Storm estava de volta às pistas com uma dianteira menos experimental para o FIA GT, que naquele ano foi completamente dominado pelo Dodge Viper da equipe Oreca. Em 2000, porém, com os americanos fora da competição, o Storm brilhou: venceu cinco corridas e ficou com o campeonato.

A Lister ainda seguiu competindo com o carro até 2003, quando decidiu começar o desenvolvimento de um protótipo híbrido, o Storm LMP/Hybrid.

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Mas e a versão de rua? Pois bem: como você talvez saiba, uma das exigências das categorias de turismo da FIA na década de 1990 era justamente a existência de uma versão de rua.

1993 Lister Storm V12

Esta tinha 601 cv e 80 mkgf em seu V12 de sete litros e, de acordo com a descrição do carro em Gran Turismo 2, foi feita para “o cara que já tem uma garagem cheia de Ferraris e agora quer experimentar algo um pouco diferente”. Com relação 1.438 kg na balança, chegava aos 100 km/h em 4,1 segundos, e seus 320 km/h de velocidade máxima faziam dele um dos carros de quatro lugares (graças ao motor dianteiro, o Storm podia ser um 2+2 com porta-malas razoável) mais rápidos do mundo. Ele não tinha freios ABS, mas a Lister garantia que seus discos de freio de 355 mm davam conta de parar o carro com segurança.

Foram feitos quatro exemplares do Lister Storm mas, de acordo com as informações existentes hoje em dia, apenas três sobrevivem até os dias de hoje.

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Agora, uma curiosidade: um dos Lister Storm de competição foi trazido para o Brasil em 2002, pelo empresário Alcides Diniz, para participar das Mil Milhas Brasileiras. O carro foi inscrito com o nº 25 e conseguiu a pole position, mas teve de encerrar a corrida com apenas 12 voltas simplesmente porque os pneus comprados no exterior ficaram presos na alfândega. Sem pneus, o carro foi recolhido de volta para os boxes.

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Foto: Blog das Mil Milhas

Em 2005, uma nova participação na corrida em Interlagos aconteceu, desta vez com o nº 23. O Storm largou na quarta posição, mas sofreu uma colisão na 24ª volta e, mais uma vez, não conseguiu terminar a corrida.

Sugestão do leitor Willian Penteado