Lonestar Cobra III: o superesportivo perdido de Carroll Shelby ressurge em Amelia Island

Dalmo Hernandes 13 março, 2018 0
Lonestar Cobra III: o superesportivo perdido de Carroll Shelby ressurge em Amelia Island

Como já dissemos outras vezes aqui no FlatOut, Carroll Shelby era um homem ocupado na segunda metade dos anos 60. O homem havia sido contratado pela Ford para ajudar com o projeto do GT40 para as 24 Horas de Le Mans; estava transformando o Ford Mustang em um carro de corrida – o Shelby GT350 – e ainda se dedicava ao Cobra, roadster britânico com motor de muscle car que se tornou um dos esportivos mais desejados de todos os tempos. Agora, o que você talvez não sabia: ele também arrumou tempo para desenvolver um sucessor antecipado para o Cobra – um carro que ficou desaparecido por mais de quatro décadas e só agora, em 2018, foi apresentado ao público novamente.

Seu nome? Lonestar Cobra III, e ele era praticamente um Ford GT40 com outra carroceria. E não poderia ser diferente, porque boa parte dos envolvidos no projeto também estava trabalhando no bólido da Ford para Le Mans. O que já nos dá uma pista a respeito de seu desempenho, pois entre 1966 e 1969 o GT40 venceu a corrida de 24 horas na França quatro vezes seguidas.

Em 1965, enquanto trabalhava na versão com motor big block 427 do Cobra, Carroll Shelby já pensava em seu sucessor. Um carro com carroceria própria, e não algo criado por outra pessoa e melhorado por Shelby, como era o Cobra: um AC Ace, pequeno, leve e estiloso, com o motor V8 que ele sempre mereceu. Para quem não lembra, até 1965 o Cobra usava motores V8 small block de 260 ou 289 pol³ (ou seja, 4,3 ou 4,7 litros). Depois disto, começou a oferecer a opção pelo enorme big block de 427 pol³ (sete litros) e com isto a potência em relação ao 289 literalmente dobrou dobrou: de 215 cv para 430 cv. Mas Shelby não era um cara de se acomodar.

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E ele também era um homem que sabia usar seus recursos. Ao ser chamado para colaborar com o desenvolvimento do Ford GT40, ele reencontrou John Wyer, engenheiro e chefe da J.W. Automotive, empresa que a Ford havia contratado no início do projeto do GT40, em agosto de 1963. Shelby e Wyer já haviam trabalhado juntos alguns anos antes: Carroll Shelby foi um dos pilotos que levaram o Aston Martin DBR1 à vitória nas 24 Horas de Le Mans de 1959, que também foi desenvolvido com a ajuda de John Wyer. Ou seja: os dois tinham uma boa relação, e não rolou nenhuma mágoa por parte de Wyer ao ser substituído pelo coleta. Na verdade, Shelby chamou Wyer para ajudá-lo a criar o sucessor do Cobra.

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Carroll Shelby e John Wyer: parças

Não foi por acaso, então, que o novo carro tinha uma silhueta bastante similar à do Ford GT40, embora sua identidade visual fosse bem distinta. John Wyer convenceu Carroll Shelby de que o sucessor do Cobra deveria ter motor central-traseiro como o GT40. Mais do que isto: Len Bayley, o designer chamado para projetar o Cobra III, também trabalhou com a Ford para transformar o GT40 em um carro de rua – o GT40 MkIII. Este já era por si só era uma obra de arte sobre rodas, com sua carroceria de linhas mais suaves, interior melhor acabado e marginalmente mais confortável, e um V8 289 de que tinha algo entre 310 cv e 340 cv, dependendo da fonte consultada. O Cobra III de Carroll Shelby acabou ganhando este mesmo motor, acoplado a uma caixa manual de cinco marchas da ZF, também compartilhada com o GT40 MkIII.

cobra-3-lonestar-11Pela mesma razão, a estrutura básica do carro e os arranjos de suspensão eram muito parecidos com os do carro de corrida da Ford, embora ambos tivessem dimensões diferentes: o GT40 tinha 4,05 metros de comprimento, 1,78 m de largura e 2,41 m de entre eixos; o Cobra III tinha 4,08 m de comprimento, 1,73 m de largura e 2,35 m de entre-eixos.

O interior do carro trazia dois lugares, volante do lado esquerdo (afinal, seu público-alvo era o norte-americano, e não o britânico) e acabamento em couro nos bancos, revestimentos de porta e painel de instrumentos.

Do lado de fora, faróis ovais quase horizontais, um para-choque cromado bastante rente à carroceria e uma grade oval na dianteira. A face traseira era convexa e limpa, com duas lanternas circulares e a placa do carro entre elas. Era um carro muito bonito, com um quê de Ferrari. A carroceria de alumínio foi feita no Reino Unido e pintada de vermelho, enquanto o interior originalmente tinha couro branco. Assim que o carro chegou a Los Angeles, onde ficava a sede da Shelby, o interior foi revestido com couro preto. Pouco depois, foi levado até o QG da Ford, em Dearborn, no Michigan, onde seria avaliado pela cúpula da marca. Eles iriam decidir se o projeto seria levado Lone-Star-3 Lone-Star-4

Foi nesta fase que o nome Cobra III foi barrado pela Ford, que na época detinha os direitos sobre a marca Cobra. Então, Shelby decidiu mudar o nome do carro para Lonestar, em homenagem à bandeira do Texas (que se chama The Lone Star, ou “a estrela solitária” em português), seu estado natal.

Não se sabe ao certo por que a Ford não aprovou o projeto. Especula-se que, por causa do formato das portas, era muito difícil entrar no carro. Além disso, acredita-se que o preço projetado para o carro era altíssimo: o dobro do que custava um Cobra 427. Sem o apoio da Ford em mais esta empreitada, Shelby abandonou o desenvolvimento do Lonestar Cobra III e decidiu vendê-lo. Afinal, ele já estava mesmo muito ocupado e seria algo a menos para se preocupar.

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Foto: Michael Shoen/CobraFerrariWars.com

O carro foi comprado por um entusiasta chamado Michael Shoen em 1975. Shoen veio a se tornar um dos maiores conhecedores da história da Ford nos anos 60 e até escreveu um livro sobre o assunto, The Cobra Ferrari Wars 1963-1965. Ele conta em seu site que dirigiu o carro por algum tempo em Los Angeles antes de levá-lo para sua casa (de trailer) no Arizona e que, apesar de não ter levado o supercarro ao limite, percebeu que seu desempenho era digno de um carro de corrida – ele mesmo pilotava um Shelby Cobra 1964 de competição na época.

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Ele também conta que o carro começou a ser restaurado em meados de 2005 por um amigo seu, Geoff Howard, que fez de tudo para preservar a originalidade do Lonestar Cobra III. Por esta razão, o trabalho de recuperação do carro levou mais de dez anos: ele só entrou na oficina de pintura em 2015, dez anos depois do início da restauração. Howard conseguiu manter 95% dos componentes originais do carro – uma das poucas peças a serem reproduzidas foi o para-choque dianteiro.

E faz pouquíssimo tempo que o carro ficou pronto: o Shelby Lonestar Cobra III foi revelado no último fim de semana, durante um evento em Scottsdale, no Arizona. É a história acontecendo diante dos nossos olhos.