Lotus 56: a história do carro de Fórmula 1 movido por uma turbina de helicóptero

Leonardo Contesini 18 maio, 2014 25
Lotus 56: a história do carro de Fórmula 1 movido por uma turbina de helicóptero

Já virou clichê dizer que o automobilismo dos velhos tempos era muito mais emocionante, perigoso e romântico que o atual. Mas como dizem por aí, se clichês não tivessem uma ponta de verdade, eles não se tornariam clichês. Estes incríveis monopostos movidos a turbina usados pela Lotus final da década de 60, mostram essa ponta de verdade na comparação com o automobilismo moderno.

Vamos primeiro lembrar da ousadia daqueles tempos. O fim dos anos 1960 e o começo dos 1970 devem ter sido o período mais louco da Fórmula 1. As equipes experimentavam todos os tipos de soluções inéditas, criativas e às vezes um tanto absurdas em busca de alguma vantagem sobre os rivais.

Foi assim que surgiram carros de seis rodas, carros em formato de bule de chá, asas em forma de tábua de passar e com exaustores na traseira. O grande “cientista maluco” (e também brilhante) da época era Colin Chapman, o gênio fundador da Lotus. Tinha as ideias, as colocava em prática, quase sempre ganhava corridas com elas e acabava influenciava todo mundo.

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Em 1967, Chapman foi aos EUA disputar as 500 Milhas de Indianápolis e foi assombrado pelo carro turbina de Parnelli Jones, que teria vencido a corrida se a transmissão não tivesse quebrado a três voltas do final. No ano seguinte ele decidiu que poderia voltar a vencer com um carro turbina como o do americano e passou a trabalhar no que se tornaria o Lotus 56.

Além da propulsão a turbina, Chapman deu seu toque de inovação ao projeto e decidiu adotar tração nas quatro rodas para despejar os 500 cv no asfalto, além de um perfil em forma de cunha, o mesmo que permaneceria em seu próximo carro, o Lotus 72. Como você pode ver na foto abaixo, o carro ganhou a cor vermelha do patrocinador e seria pilotado por Jim Clark, além de Graham Hill, Joe Leonard e Art Pollard.

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Infelizmente, Clark morreu correndo de F2 pouco antes dos treinos de classificação e Mike Spence morreu testando o 56 em Indianápolis. Leonard conseguiu a pole e liderou quase toda a prova, mas um problema no eixo que tocava a bomba de combustível o tirou da corrida, enquanto Hill bateu e o carro de Pollard quebrou.

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As turbinas foram banidas do regulamento da Indy, mas Chapman e o projetista Maurice Philipe esperaram a Pratt & Whitney disponibilizar um propulsor em acordo com o regulamento da Fórmula 1. Isso aconteceu em 1971, quando o Lotus 56B chegou às mãos de Emerson Fittipaldi e Dave Walker para a disputa da temporada.

A turbina produzia cerca de 600 cv em uma época em que os motores a pistão geravam cerca de 450 cv — caso do clássico Cosworth DFV. Era compacta e não necessitava de radiadores, mas exigia tanques enormes de querosene nas laterais e uma assustadora saída de escape logo atrás da cabeça do piloto.

A exemplo do seu antecessor, o Lotus 56B não possuía freio-motor. Na hora de parar, ele confiava em freios convencionais do tipo inboard — que são montados no chassi, em vez de na ponta dos eixos. Como o conjunto motriz também não possuía marchas, o piloto poderia acelerar com o pé direito e frear com o esquerdo — hábito que só iria se popularizar na geração atual de pilotos, criada à base de câmbio sequêncial.

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O carro era muito rápido em retas, mas deficiente nas curvas. Também era frágil e pouco confiável. Apesar do sucesso em Indianápolis, na Fórmula 1 ele disputou apenas três corridas e terminou somente uma: em Monza, Emerson Fittipaldi chegou em oitavo lugar, depois de largar em 18º.

Decepcionado, Chapman abriu mão do uso de turbinas e da tração nas quatro rodas, e investiu tudo em seu próximo bólido, o Lotus 72 — modelo que causaria mais uma revolução no automobilismo, e foi campeão nas mãos de Emerson em 1972.