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Marchetaria: a assinatura de luxo da Bentley e Rolls Royce está na arte da madeira

 

 

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Por muitas décadas, a madeira imperou como o padrão de requinte em um automóvel de luxo – herança que veio das carruagens dos nobres dos séculos XVIII e XIX. Aos carros baratos, vinil, baquelite, lata pintada; em contraste com o couro, cromo e painéis de madeira envernizados dos veículos distintos, não importando muito se era um esportivo Jaguar XK120 ou um aristocrático Bentley S3 Continental Flying Spur. Como na mobília, se havia luxo, couro e madeira eram mandatórios.

Mas os anos passaram. Com eles, outro senso estético. Se o couro predomina ainda como forração requintada (nos esportivos, dividindo espaço com materiais sintéticos como o alcantara) e o cromo foi reduzido a pequenos ornamentos, a madeira ficou brega, retrógrada, pesada. Cada vez mais têm sido substituída pelo próprio couro, placas de alumínio texturizado ou o acrílico negro – e quando aparece, frequentemente é escondida atrás de uma grossa camada de verniz escuro, ficando mais como uma textura de fundo, suave e imperceptível como o baixo de Jason Newsted no álbum “…And Justice For All”.

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Hoje, contudo, vamos falar do movimento da resistência. De quem não somente se orgulha de expor os poros, texturas e cores de madeira de extrema qualidade, como também dominou o mais alto grau de expertise da marchetaria – o trabalho artesanal de se produzir arte com delicados folheados de diferentes madeiras, metais preciosos e madrepérola. Para os carros da Bentley e da Rolls Royce, a madeira não apenas nunca foi anacrônica como é uma de suas principais assinaturas de luxo.

 

Tradição e tecnologia juntas

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A Marquetry da Bentley fica na planta de Crewe, atuando como uma extensão da H. J. Mulliner & Co., coachbuilder fundada em 1760 e que atualmente responde como a divisão de automóveis feitos sob encomenda da marca. Já a da Rolls-Royce fica em Goodwood. Em ambas, há um estoque de quase US$ 300 mil de veneers – folheados – de madeira, cortados a laser e com cerca de 0,06 mm de espessura, comparável à capa de um charuto. Eles são conservados em salas climatizadas e umidificadas, com temperatura constante de 25ºC e 80% de umidade, para manter as lâminas maleáveis e suaves. Em uma era em que a preocupação com o meio-ambiente é mandatória, cada folheado vem documentado, de forma que é possível rastrear exatamente a árvore do qual ele foi originado. Além disso, a cada árvore consumida no processo, as marcas possuem o compromisso ambiental de plantar outra.

A seleção dos folheados é extremamente rigorosa em termos de riqueza de textura. De acordo com a Bentley, o representante responsável por este departamento viaja ao seu fornecedor na Itália e, de dentro de um galpão que oferece mais de 72.000 m² de folheados, costuma retornar com entre 30 e 35 m². Talvez um exagero, mas sem dúvida a seleção é criteriosa à última instância.

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A Rolls-Royce oferece nada menos que 20.000 combinações possíveis de folheados para cada Rolls-Royce personalizado – e cada carro deles usa até 120 peças diferentes acabadas com madeira. Note como até mesmo a base dos bancos pode ser finalizada, lembrando uma peça de mobília maciça. Uma vez escolhida a matéria-prima e o tema ou a arte de marchetaria, o processo de preparação dos folheados se inicia.

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Em ambas as marcas, parte essencial do processo é a catalogação destes folheados. Não apenas separá-los uns dos outros por espécie de madeira, coloração e padrão de textura, mas principalmente, organizar o conjunto de folheados na sequência perfeita. Eles são cortados do tronco de forma rotativa (imagine a forma como você tira filme de PVC de cozinha), então o padrão se repete de forma cíclica, com minúscula diferença de escala. Botá-los na ordem correta é essencial para o que os marcheteiros chamam de bookmatching – a união com espelhamento perfeito de textura ao folheado vizinho. Veja a imagem abaixo – na sequência, aplicação criativa invertendo o padrão de bookmatching no Rolls Royce Dawn, criando um “V” na seção central do veículo.

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O vídeo abaixo mostra bem o criterioso e repetitivo processo de bookmatching (e você achava jogo da memória difícil…), bem como alguns outros processos, como o corte a laser e o extenso trabalho artesanal em peças maiores, e o polimento à mão.

O folheado não é aplicado diretamente na peça (que costuma ser de alumínio): entre ambos costuma haver um sanduíche de ao menos cinco camadas de Tulipa Poplar. Elas são unidas com compressão de 1.160 psi num forno a 130ºC – o folheado é protegido por uma camada de Mylar (um poliéster de alta resistência térmica).

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É essencial que todas as peças possuam exatamente a mesma cor, por isso elas costumam ser ajustadas artesanalmente com o processo de areia quente, que escurece o folheado. A inspeção final é feita numa caixa de luz. Na foto acima, vemos um uso em menor escala. Com uma pinça, o artesão está escurecendo uma peça que será utilizada como tronco de uma árvore, cujas folhas são feitas de madre-pérola (imagens abaixo).

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Dependendo do desenho, mistura-se uma proporção maior de recortes a laser frente ao manual e vice-versa. Artes perfeitamente simétricas (como a série Metropolitan Collection da Rolls Royce) costumam ser quase todas feitas a laser. De qualquer forma, o acabamento final e o crítico processo de colagem necessitam ser 100% feitos por humanos. Dependendo da arte, pode levar literalmente um mês inteiro para se finalizar a marchetaria de um Rolls ou Bentley.

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Abaixo temos uma maravilhosa bandeja de mesa de um Rolls Royce Phantom Metropolitan Collection. Note como as madeiras escuras (Walnut) e com burls (textura que lembram nuvens ou rochas) criam a noção de profundidade com os prédios, de madeira mais clara (Maple). A face dos prédios possui um degradê feito com o mergulho parcial daquela peça de madeira no tanque de areia quente.

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Abaixo, o acabamento do painel traseiro de um Rolls Royce Phantom Pinnacle Travel. Trata-se de um trem estilizado em alta velocidade (a delicada barra prateada), deixando uma nuvem de fumaça, formada por uma complexa sobreposição de diferentes tipos de madeira. Nada menos que 230 pedaços individuais de madeira são utilizados neste painel.

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Abaixo, uma outra série especial da Rolls Royce: um Ghost Majestic Horse. Nesta arte, foram utilizados quatro madeiras (Walnut, Anegre, Maple, Oak) e o processo de banho de areia quente para criar sombreados e acentuar os tons do cavalo. Note como o verniz ajuda a dramatizar a arte.

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Cardápio amadeirado

Há dezenas de espécies de madeira utilizadas nos veículos de luxo. As mais usadas são a Nogueira (Walnut) e o Bordo (Maple), mas elas são somente parte de um grande cardápio de cores, veios, nós, grãos e texturas.

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Os tons in natura já são muito ricos, mas ainda são realçados, ganhando profundidade e brilho após a aplicação de cinco demãos de verniz poliéster e polimento à mão.

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Dentro de cada espécie há diversos padrões gráficos possíveis – abaixo temos quatro texturas muito comuns para o Bordo. O birdseye (olho de pássaro) e o burl (rádica) são muito utilizados nos Bentley e Rolls-Royce.

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O curioso é que a maioria dos padrões mais belos e cobiçados, com brilho volume e desenhos ricos, estão ligados a anomalias. O padrão curly (dependendo do espaçamento, chama-se de flamed), por exemplo, está ligado ao crescimento irregular do tronco, causado por alguma fonte de compactação ou distorção durante o ciclo de vida. Compare a textura do Maple e do Curly Maple que é possível entender o fenômeno. O birdseye está ligado a uma anomalia desconhecida nos anéis de crescimento. Fala-se em distorções causadas por pássaros tipo pica-pau, ações de vermes quando a árvore ainda é jovem ou consequência de algum tipo de fungo. Já o burl, tão usado nos Rolls e Bentley por sua textura rochosa paradoxalmente suave e esfumaçada, é consequência de um crescimento anormal de tecidos no tronco (normalmente catalisado por algum inseto ou fungo), ficando com a aparência externa de um tumor (são as duas fotos inferiores, abaixo). Não é raro este tipo de cancro limitar a vida da árvore.

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Abaixo temos um belíssimo folheado de Walnut Burl aplicado num Bentley Mulsanne 95, ano 2014. Note a importância do trabalho de book matching: a impressão é de que é apenas uma lâmina que contorna de porta a porta, mas não apenas são diferentes laminados como as peças também são fabricadas e acabadas separadamente. Outra opção muito exótica que a Bentley introduziu no começo do ano passado são as lâminas de pedras refinadas, como granito e mármore (saiba e veja mais neste link).

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Galeria de arte

Abaixo separei alguns dos melhores exemplos da Rolls Royce e da Bentley. Deguste sem moderação – clique nas fotos para ampliar!

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O Bentley Mulsanne Speed Blue Train (trio de fotos abaixo) foi uma série limitada da Mulliner ao 85º aniversário do clássico Bentley Speed Six 1930 que venceu uma aposta. Nela, Woolf Barnato, um dos “Bentley Boys” da década de 20 e vencedor de três edições consecutivas das 24 Horas de Le Mans (1928-29-30), apostou que não apenas derrotaria a locomotiva Calais-Mediterranée Express (conhecido como trem azul) de volta de Cannes para Calais, como também ele estaria em sua boate em Londres antes mesmo que o trem chegasse ao Canal da Mancha. Ele venceu.

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Nas duas fotos acima temos a demonstração de como madeiras diferentes mudam completamente a mensagem do habitáculo. No alto, o painel acabado em Ébano (Ebony) com “V” formado por bookmatching invertido no centro do painel dá uma sensação mais moderna e arquitetônica que o outro veículo, acabado com Nogueira Curl (Walnut), mais aristocrático e tradicional.

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