Marta Rocha, Rabo Quente e Fafá: mais alguns apelidos marcantes dos carros brasileiros – parte 2

Dalmo Hernandes 9 agosto, 2018 0
Marta Rocha, Rabo Quente e Fafá: mais alguns apelidos marcantes dos carros brasileiros – parte 2

Há alguns dias começamos a contar aqui no FlatOut a história de alguns dos apelidos mais curiosos e inusitados dos carros brasileiros. Nada mais justo que continuar a saga com mais alguns deles, não é?

Alguns apelidos são meio maldosos, é verdade, mas outros são homenagens e alguns deles até renderam briga na justiça. Como na outra parte da lista (confira aqui), demos prioridade a apelidos que acabaram se tornando parte do folclore em torno de determinado modelo – brincadeiras pontuais com os nomes dos carros não entraram na conta.

Dito isto, fiquem à vontade para sugerir outros apelidos!

 

“Belo Antônio”

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No filme “Belo Antônio” (Il bell’Antonio, 1960), as mulheres derretem-se por Antônio, imaginando que ele seria um amante perfeito. Quando uma delas conquista o galã e casa-se com ele, acaba descobrindo que apesar de belo, Antônio é impotente. O Simca Chambord, lançado em 1959, era um carro elegante, um tanto caro e tinha um roncador V8 de 2,5 litros sob o capô.

Parecia ideal para os ricaços da época, mas havia um problema: o V8 gerava apenas 84 cv, o torque só aparecia em rotações elevadas e a velocidade máxima não passava dos 130 km/h. Com o sucesso do filme na mesma época do lançamento do carro, a comparação foi inevitável: faltava potência a Antônio e ao Simca Chambord.

 

Fafá

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Como dissemos na primeira parte deste post, o Fusca foi um carro que teve muitos apelidos ao longo de sua vida, no mundo todo. Eis mais um: Fafá, apelido dado ao modelo ao besouro em 1979, quando a Volkswagen realizou mais uma das várias reestilizações que o Besouro teve ao longo das décadas.

Até 1978 todo Fusca tinha lanternas traseiras pequenas, com a base reta, conhecidas como “capelinha”. Em 1979, porém, os modelos 1300L e 1600 passaram a usar lanternas maiores e circulares. O 1300 continuou usando as lanternas antigas.

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Fafá, seus atributos físicos e Rita Lee em 1979

Na época a cantora Fafá de Belém havia acabado de lançar seu quarto álbum, Estrela Radiante, considerado pela crítica um de seus melhores e mais ecléticos, além de contar com seu maior sucesso – a música “Sob Medida”, de Chico Buarque. Fafá atingiu reconhecimento mundial e era convidada frequentem em programas de TV, e logo passou a ser considerada uma das musas da época.

O povo brasileiro, sempre criativo, logo tratou de associar as novas lanternas grandes e redondas do Fusca aos fartos seios da cantora. O apelido pegou e, mesmo décadas depois, todo Fusca com as tais lanternas é chamado de “Fusca Fafá”. A própria cantora, em uma entrevista à revista Istoé Gente, disse que os maiores responsáveis pela propagação do apelido foram os taxistas.

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Mas a história até rendeu processo. Em 2000, quando a VW vendia o New Beetle no Brasil, a Volkswagen fez alusão ao apelido do clássico, chamando o carro de “Fafá de Berlim”. Na mesma entrevista ela conta que estava em Portugal quando soube da campanha e decidiu processar a Volkswagen. “A mínima delicadeza era eles terem me consultado. O argumento é que isso é de domínio público, mas eu não sou de domínio público”, ela disse na época. O processo levou sete anos para ter um desfecho, e foi determinado que a VW pagasse uma indenização de R$ 350.000 à cantora.

 

Tristonho e Gatinho

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Os faróis de um carro estão entre suas características mais marcantes de um carro e, junto de outros elementos da dianteira – grade, frisos, emblemas, entradas de ar – acabam formando a “cara” daquele modelo em especial. E às vezes até rendem apelidos, como aconteceu com o Ford Fiesta no Brasil.

A quarta geração do Fiesta (segunda no Brasil), lançada em 1996, ficou conhecida como “Fiesta Tristonho” por causa do formato dos faróis. E faz sentido, pois eles parecem mesmo olhos desolados. Dito isto, o carro em si não tinha nada de triste: bem acabado, bem acertado e, na versaõ CLX, tinha um motor 1.4 16v de 88 cv muito elástico e econômico.

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Em 1999, porém, a Ford mudou sua linguagem de design, adotando linhas mais angulosas e agressivas. O Fiesta foi atualizado de acordo, e os faróis “tristonhos” deram lugar a peças triangulares que lhe renderam um novo apelido: “gatinho”. De fato os faróis lembravam, bem de leve, olhos de gato – é o mesmo princípio dos “óculos gatinho”, por exemplo.

 

Marta Rocha

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O primeiro carro de passeio fabricado pela Chevrolet no Brasil foi o Opala, lançado em 1968. Mas a atuação da marca como fabricante nacional começou em bem antes: já em 1955 começou a ser montada no Brasil, com componentes importados dos EUA, a picape Chevrolet 3100.

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Uma característica marcante da caminhonete eram os para-lamas traseiros protuberantes em relação à caçamba. No ano anterior, 1954, o concurso de Miss Brasil premiou a belíssima e voluptuosa Martha (com “h”) Rocha, que tinha generosos quadris e, com a premiação, conquistou o direito de concorrer pelo título de Miss Universo no ano seguinte. Conta-se que ela não ganhou o concurso, porque seus quadris tinham duas polegadas (cinco centímetros) a mais que os da rival norte-americana, que ficou com a coroa. Na verdade a história foi inventada por um jornalista na época – é aceita a versão de que a norte-americana venceu para reacender o interesse dos organizadores do concurso pelos Estados Unidos. Mas seu nome e suas curvas ficaram para sempre marcados como o apelido da picape.

 

Rabo Quente

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O Renault 4CV pode ser encarado como a versão francesa do Fusca. Lançado na França em 1946, ele era assumidamente inspirado no Volkswagen Sedan, com carroceria compacta e motor traseiro – um quatro-cilindros em linha que podia ter 603 cm³ e 22 cv ou 747 cm³ e 32 cv. Apesar da pouca força, o 4CV foi até mesmo carro de rali, preparado por Jean Rédélé, o fundador da Alpine. Rédelé era mecânico, piloto e entusiasta, e tinha as manhas de preparar o motor de 0,7 litro.

Ele também modificava suspensão e freios, aumentava a potência do motor e trocava o câmbio original de três marchas por uma caixa de cinco marchas, entre outras melhorias. Foi o suficiente para conseguir resultados expressivos em competições como a Mille Miglia, famosa corrida de longa duração disputada em estradas italianas, e a Coupe des Alpes (“Copa dos Alpes”), que era parecida com a Mille Miglia, porém realizada em estradas dos Alpes franceses.

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O 4CV começou a ser importado para o Brasil já no início da década de 1950. E mesmo não sendo o único carro com motor traseiro vendido no Brasil (afinal havia também o Fusca, que desembarcou por aqui na mesma época), foi ele quem ganhou o apelido de “Rabo Quente” – talvez porque a dianteira tinha uma falsa grade, que sugeria a presença de um motor onde na verdade ficava o porta-malas, que abrigava também o estepe (novamente, como no Fusca).

 

 

“Deixavê”

Quase todo mundo sabe que “DKW” na verdade é pronunciado como “decavê”. Mas nem todo mundo conhece o apelido “Deixavê” – trocadilho cuja inspiração é bem mais sacana do que mera fonética. A questão é que até 1964 os modelos DKW-Vemag, que também eram conhecidos por seu sonoro três-cilindros de dois tempos, pouco menos de um litro e 50 cv, tinham portas “suicidas”. Você sabe: aquelas que abrem “para trás”.

As tais portas suicidas sempre foram bem sacanas com as mulheres de saia, para a alegria da molecada que estava por perto – elas “deixavam ver” as pernocas das garotas que estavam saindo do carro, ao contrário das portas comuns, que as protegiam dos olhares. Então é provável que algum voyeur bem-humorado tenha criado o trocadilho.

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De qualquer forma, após 1964 os DKW já não “deixavam ver” nada.