Mazda RX-7: o lendário esportivo com motor rotativo Wankel pode voltar

Dalmo Hernandes 27 outubro, 2015 0
Mazda RX-7: o lendário esportivo com motor rotativo Wankel pode voltar

Há algum tempo, fizemos a nossos leitores a seguinte pergunta: qual é o carro que saiu de linha, deixou saudades e você gostaria que voltasse? Usamos como exemplo o Mazda RX-7, por uma infinidade de razões — é um carro com história, um belo design e um conjunto mecânico marcante. Esta última é cortesia do motor rotativo Wankel, um dos poucos motores sem pistões reciprocantes a atingir sucesso comercial.

A gente aqui no FlatOut adora o motor Wankel, apesar de ele jamais ter sido oferecido no Brasil de forma oficial (ainda que existam alguns exemplares importados de forma independente rodando por aí). É preciso ter contato com uma bela obra de engenharia para poder apreciá-la? Claro que não!

Com muito menos partes móveis, o Wankel era mecanicamente mais simples e, graças ao movimento contínuo dos rotores em forma de esfiha dentro da câmara de combustão, seu funcionamento é muito mais suave. A potência específica é muito alta — o motor do Mazda RX-7 de última geração, era um dois-rotores de apenas 1,3 litros que, com dois turbocompressores, entregava 280 cv.

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Claro, hoje temos motores de quatro cilindros chegando cada vez mais perto dos 400 cv, como é o caso do A45 AMG e seu 2.0 turbo de 360 cv. Mas, no caso do RX-7, estamos falando de um carro que começou a ser fabricado em 1991 — ou seja, 24 anos atrás. E é óbvio que iremos mencionar seu ronco agudo e estridente, que lembra um enxame de vespas furiosas.

Dez minutos 787B e seu motor de 2,6 litros, quatro rotores e 700 cv girando a quase 10.000 rpm

O RX-7 é um dos grandes esportivos japoneses dos anos 1990 e 2000 que deixaram de ser produzidos e não ganharam sucessor — e só isto já é motivo suficiente para que desejemos uma nova geração. Se temos um GT-R contemporâneo (que está em vias de ganhar um sucessor, diga-se), por que não podemos ter um RX-7 atual? O mais perto que chegamos disto foi o RX-8, que fez relativo sucesso, mas era um carro bem diferente.

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Um belo carro, por sinal

Bem, acontece que esta realidade tem chances de mudar.

“Claro, este é mais um daqueles boatos que aparecem, nos enchem de esperanças e depois nos acertam na cara!”, você pode ter pensado. E não é sem razão — faz pelo menos dez anos que a Mazda dá indícios de que um novo RX-7 poderá ser feito, mas até agora nada passou de especulação. Agora, no entanto, temos algo bem mais palpável.

 

Isto porque a Mazda confirmou hoje à britânica Autocar que seu novo carro conceito para o Salão de Tóquio, que começa neste fim de semana, será um cupê esportivo com motor rotativo Wankel. Sim, vai acontecer. Eles também disseram que o carro terá dois lugares e duas portas — nada de sedã com traje esportivo ou cupê com duas portas camufladas (caso do RX-8).

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“O design é o de um puro esportivo. Temos o MX-5 e outro ícone é um esportivo com motor rotativo. Não falamos em alcance de mercado mas este seria o segmento deste carro”, disse Masamichi Kogai, presidente da Mazda, à publicação inglesa. No entanto, quem disse as palavras mágicas foi Ikuo Maeda, chefe do departamento de design da fabricante: “este carro representa nosso sonho, mas não queremos ficar só no sonho por muito mais tempo”.

Mas calma, não vá soltando os fogos de artifício, ainda. A Mazda confirmou que um esportivo com motor Wankel será sua principal atração e manifestou claro interesse em transformá-lo em realidade, mas nada disto significa que com certeza temos um novo RX-7 a caminho.

Claro, indícios não faltam: um novo RX-8 seria improvável e certamente teria quatro portas e proporções mais conservadoras. O nome RX-7 é muito forte, e achamos que dificilmente a Mazda deixaria de usá-lo em um suposto novo carro esportivo com duas portas, dois lugares e motor Wankel. E, por último mas essencial, repare bem nas linhas do teaser que acompanha as notícias.

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Ainda que a silhueta sugira um capô mais longo e uma traseira mais curta, é inegável que as formas remetem ao RX-7 FD, terceira e última geração. Repare na linha do teto, no formato das janelas laterais e, mais importante, na traseira: aquela lanterna traseira em uma peça única, escurecida, com luzes circulares nas extremidades, nos é extremamente familiar.

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Oh yes

Agora, você deve saber que a história do RX-7 data de muito antes de 1991, quando a terceira geração foi lançada. Como falamos neste post, o primeiro RX-7 data de 1978, quando ainda era chamado de Savanna RX-7 e usava motores rotativos de dois rotores e 1,2 ou 1,3 litro. Ele não foi o primeiro carro com motor Wankel da Mazda — este título vai para o cupê “de luxo” Cosmo, lançado em 1966. Como contamos neste post:

O Mazda Cosmo, por sua vez, foi simplesmente o primeiro carro da Mazda a vir equipado com o motor rotativo desenvolvido por Felix Wankel. Conhecido por sua alta potência específica, o Wankel de dois rotores do Cosmo tinha exatamente 982 cm³ de deslocamento e entregava 110 cv. Em 1967, 343 unidades — conhecidas como “Series I” — foram produzidas, e este carro é uma delas, o que o torna bastante raro.

A partir de 1968 a potência passou para 130 cv, graças a um novo coletor de admissão (o ganho poderia ser maior, mas isto sacrificaria a durabilidade do motor), e o entre-eixos ganhou alguns centímetros. A chamada “Series II” foi fabricada até 1972 e adicionou mais 1.176 unidades ao total de Mazda Cosmo de primeira geração existentes no mundo.

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Não fosse o Cosmo, não haveria RX-7, porque foi ele o carro que mostrou que os motores rotativos eram economicamente viáveis. E, depois dele, foi a vez do RX-3, produzido entre 1971 e 1978 compacto que tinha versões cupê, sedã e perua, sendo que algumas delas vinham com uma evolução do motor do rotativo encontrado no Cosmo.

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Costuma-se dizer que o RX-7 é o sucessor do RX-3, mas a verdade é que este não foi desenvolvido para ser um esportivo puro. O RX-7 era diferente, e apresentava-se como um rival para caras como o Nissan S30 (o famoso 240Z), com capô longo, traseira curta e dois lugares.

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Os motores ainda eram de 1,2 e 1,3 litro, sendo que a versão mais potente, com turbo e injeção eletrônica, tinha 165 cv. Não era muita potência, claro, mas isto não impediu que o RX-7 fosse um sucesso no Japão e nos EUA, com mais de 470 mil unidades produzidas.

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A segunda geração, apresentada em 1986, trouxe um carro maior e mais encorpado, com uma carroceria inspirada no Porsche 944 — olha só o perfil e o formato do vidro traseiro. Seu comportamento dinâmico também era mais ameno, com um leve subesterço e um quê de grand tourer. O que importa, no entanto, é que o motor Wankel continuava lá, e cada vez mais potente: um 13B turbinado entregava 215 cv.

Além disso, a dirigibilidade da segunda geração foi muito elogiada pela imprensa especializada na época — publicações americanas como a Motor Trend e a Car and Driver imediatamente o chamaram de “carro importado do ano”. Mesmo que os EUA tivessem uma versão menos potente, de 185 cv…

As duas primeiras gerações do RX-7 são verdadeiros clássicos, mas foi a terceira que transformou seu nome em uma lenda não apenas entre os fãs da Mazda ou de esportivos japoneses, mas também entre os entusiastas em geral. Isto porque seu visual é simplesmente inconfundível, sua reputação foi sedimentada em vídeos da Best Motoring International, filmes como “Velozes e Furiosos”, séries de anime e games de corrida como o já citado Gran Turismo.

O que é até meio curioso, se pensarmos bem: a terceira geração do RX-7 foi a que obteve menos sucesso comercial. Definitivamente não foi por incompetência do carro — que, pela primeira vez, dispensava os motores naturalmente aspirados. E não estamos falando de downzing ou preocupação com consumo de combustível, não. O negócio aqui era ter um carro mais potente e sofisticado.

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Pura sofisticação. Foto: Ian Strachan

Uma das grandes novidades era o intrincado sistema biturbo, que usava dois turbocompressores para ampliar o rendimento do motor em baixas rotações. Um deles fornecia 0.7 bar de pressão a partir de 1.800 rpm, enquanto o segundo entrava em ação a partir dos 4.000 rpm, também. Até Entre 4.500 rpm, os dois turbocompressores trabalhavam juntos para fornecer 0,6 bar, garantindo uma transição suave entre ambos os caracóis. Tudo coordenado por um módulo eletrônico desenvolvido em parceria com a Hitachi. Chegava a ser poético.

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Isto sem falar no imenso potencial de preparação do motor rotativo — os 700 cv sem indução forçada do 787B eram uma prova disso. Com turbos maiores, não é incomum encontrar exemplares do RX-7 arranhando os 900 cv sem trocar componentes internos do motor.

Como você deve lembrar, os esportivos japoneses da época tinham componentes superdimensionados e um enorme potencial que nem fazia questão de se esconder, mas ficava oculto por números de potência e torque bastante conservadores, por questões de legislação.

No entanto, o RX-7 havia crescido de tamanho e, de repente, começou a custar mais caro não apenas por ser um carro maior, mais moderno e mais potente, mas também porque passou a se enquadrar em uma nova faixa tributária. Quem queria um Mazda esportivo acabava procurando um Miata, que custava menos e entregava muita diversão.

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Por outro lado, duas coisas aconteceram depois da morte do RX-7, em 2001: suas aparições em filmes e games tornaram sua imagem ainda mais forte, e o Wankel continuou vivo e forte no RX-8. O que tirou o motor de cena foram mesmo as leis para emissões, que obrigaram a Mazda a deixar de fabricá-lo para seus carros de rua em 2012.

No entanto, o anúncio do conceito no Salão de Tóquio veio confirmar algo que a Mazda sempre deixou evidente: o desenvolvimento do motor rotativo nunca parou. Ainda para a Autocar, Kogai disse que a equipe de pesquisa e desenvolvimento está trabalhando duro. “os objetivos são estritos, motores rotativos têm muitos problemas inerentes ao projeto e precisamos resolver cada um deles. E não é só a questão das emissões, mas também do desempenho e de torná-los mais fáceis de manter”.

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Então, pessoal, há um comprometimento e a aparente vontade de fazer um esportivo. No entanto, ainda não se fala em datas — a Mazda diz que vai esperar o feedback ao conceito no Salão de Tóquio. Talvez seja para definir o direcionamento do projeto. No entanto, diz-se que é plausível esperar um lançamento importante para meados de 2018.

Nós vamos ficar esperando, e sempre caçando novidades. Seria uma volta e tanto.