Mercedes CLK GTR: o rival que o McLaren F1 (quase) não teve

Leonardo Contesini 27 dezembro, 2014 174
Mercedes CLK GTR: o rival que o McLaren F1 (quase) não teve

Era uma vez um universo automobilístico em que os modelos especiais de homologação eram frequentes e até mesmo os bólidos mais potentes de Le Mans precisavam de uma versão de rua para poder alinhar no grid. A história é geralmente a seguinte: os fabricantes estudam o regulamento, constroem uma série limitada de modelos de rua e ganham o direito de inscrever uma versão de pista nos campeonatos.

Assim foi com os modelos da categoria GT1 da FIA. Ou melhor: assim deveria ter sido, pois o CLK GTR de rua é apenas o último capítulo dessa história única e que dificilmente se repetirá.

A história começou no fim de 1996, depois que a FIA tentou transformar o campeonato de turismo alemão — o Deutsche Tourenwagen Meisterschaft, ou DTM — em um campeonato mundial batizado International Touring Car Championship. A manobra foi desastrosa: as duas categorias acabaram e a DTM só voltou em 2000, depois de quatro anos. Sem nenhuma categoria de ponta para participar e já atuando como fornecedora de motores na F1, a Mercedes e a AMG decidiram que o novo campeonato GT1 da FIA era o lugar ideal para se manter em atividade nas pistas.

tumblr_mg58ezGLDO1qargtno1_1280

Só havia um pequeno problema: havia pouquíssimo tempo até o início da temporada de 1997 e o regulamento exigia que fossem construídas, no mínimo, 25 unidades de rua para que um modelo pudesse disputar o Mundial. Como eles conseguiram? Digamos que a FIA não foi muito incisiva em relação às regras de homologação e a Mercedes só precisou fazer um exemplar de rua em 1997 — e nem chegou a vendê-lo.

O projeto começou com um McLaren F1 GTR, comprado em segredo para um exercício de engenharia reversa. Os alemães analisaram a construção, o funcionamento e o desempenho do esportivo inglês — que havia se sagrado campeão da categoria que deu origem ao campeonato FIA GT, a BPR Global GT Endurance Series. A AMG chegou ao ponto de instalar um molde inicial da carroceria de seu futuro carro de corridas sobre o McLaren para testar e desenvolver a aerodinâmica do modelo (essa história será contada em um próximo post).

tumblr_myrmaith961s7e0meo1_1280

Em apenas 128 dias — ou quatro meses e uma semana — a Mercedes concluiu o bólido que foi batizado como CLK GTR. Com monocoque de fibra de carbono fabricado pela Lola na Inglaterra, suspensão pushrod inboard integrada ao subchassi de alumínio na traseira e um V12 6.9 com 48 válvulas, pistões forjados, bielas de titânio e mais de 600 cv (que mais tarde equiparia o Pagani Zonda), o CLK GTR estava pronto para a disputa.

tumblr_mxd9ytSNND1ro6nr6o7_1280

Na primeira corrida do FIA GT 1997 em Hockenheim, em abril daquele ano, a AMG-Mercedes conseguiu alinhar dois CLK GTR no grid. Um deles, pilotado por Bernd Schneider e Alexander Wurz, conseguiu simplesmente a pole-position, superando a concorrência formada por McLaren F1 GTR, Porsche 911 GT1, Viper GTS-R, Panoz Esperante GTR-1 entre outros.

Na corrida, contudo, a rapidez do projeto cobrou seu preço: nenhum dos CLK GTR terminou a prova. A Mercedes trabalhou na confiabilidade do carro para a segunda corrida, em Silverstone, e obteve bons resultados: o CLK GTR terminou a prova em segundo lugar, a menos de um segundo de distância do F1 GTR vencedor. Na quarta etapa em Nürburgring, depois de um apagado oitavo lugar em Helsinki, o CLK GTR faturou a primeira das seis vitórias da equipe ao longo do ano. A AMG-Mercedes conquistou o título de construtores, e Bernd Schneider ficou com o caneco dos pilotos.

Em 1998, o modelo continuou a impor seu domínio. Venceu as duas primeiras corridas, e então foi substituído pelo CLK LM, uma variação feita para disputar as 24 horas de Le Mans. A principal modificação era a substituição do V12 por um V8 de cinco litros M119, o mesmo projeto que equipou o Sauber C9, o vencedor de Le Mans em 1989. O motivo? A durabilidade do motor: enquanto as corridas do FIA GT tinham 500 km, nas 24 Horas de Le Mans são mais de 4.700 km. A potência continuava na casa dos 600 cv apesar dos cilindros e dos quase dois litros a menos.

FIA GT World Championship

O carro também ganhou um novo pacote aerodinâmico, com bico e teto mais baixos e novos dutos de refrigeração para o motor e os freios. Tudo parecia bem, principalmente depois de Bernd Schneider cravar o tempo mais rápido da classificação para a corrida. A mudança para os V8, contudo, não repetiria o sucesso de 1989 e na 31ª volta os dois Mercedes já estavam fora da corrida devido a problemas mecânicos.

Mesmo com o fiasco em Mans, o CLK voltaria às pistas para ganhar simplesmente todas as corridas restantes na temporada do FIA GT. Klaus Ludwig e o brasileiro Ricardo Zonta dividiram o título de pilotos, e o domínio entre os construtores fez com que não houvesse concorrentes dispostos a ser desafiados.

 

Mas e a versão de rua?

Como vimos, a Mercedes foi beneficiada pelo relaxamento das regras de homologação — não só ela: Nissan e Porsche também pegaram uma carona na vista grossa da FIA. Eles só foram se preocupar em construir uma versão de rua do CLK GTR em 1998, quando o modelo já havia sido aposentado das pistas.

tumblr_n1vsi1BgwP1ts6cg4o1_1280

Diz a lenda que o atraso no desenvolvimento dos carros de rua foi devido à dificuldade de adaptação de um carro desses para os pobres mortais. Imagine só: é como se a Audi decidisse vender o R18 e-tron com ar-condicionado para milionários desfilarem por Dubai.

No processo de transformação em supercarro de rua o CLK GTR ganhou assistência elétrica para freios e direção e um controle de tração para impedir que os monstruosos pneus 345/35 R18 se evaporassem em uma arrancada mais inspirada. Além disso, ele ganhou amenidades que milionários esperam em um supercarro da Mercedes como bancos de couro e ar-condicionado. Como resultado o carro engordou 300 kg, indo de 1.100 kg para 1.400 kg.

T2eC16FHJHEE9ny2p6iBROl1MpD_4

A asa móvel de corrida deu lugar a uma asa integrada à carroceria, com na Ferrari F50. O motor V12 ficou com 620 cv e 78,5 mkgf, que eram moderados por um câmbio sequencial de seis marchas com acionamento por aletas elétricas no volante e pedal de embreagem. O painel era o mesmo do CLK, o cupê mais barato da Mercedes na época, ainda que o CLK custasse US$ 1.547.000 (cerca de US$ 2.200.000 em 2014, ou quase R$ 6 milhões), o que fez dele o carro produzido em série mais caro da história até então.

Captura de Tela 2014-12-27 às 03.45.47

Mas ele também entregava um desempenho que poucos carros entregaram até aquela época. Comparado com o McLaren F1, o CLK GTR vai de zero a 100 km/h em 3,4 segundos, enquanto o britânico vai em 3,2. A aceleração lateral era maior no Mercedes: 1,8 g vs. 1,3 g — uma marca alcançada por sua aerodinâmica, que também limitava sua velocidade máxima em 340 km/h, um quesito no qual o Mercedes leva uma surra do F1, que chegava aos 384 km/h.

tumblr_mu0ni2PzhF1r3dl49o1_1280

No fim, foram construídos apenas 20 CLK GTR Coupé. Os outros seis monocoques exigidos foram transformados nos raríssimos CLK GTR Roadster.