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Project Cars Project Cars #61

Meu Mercedes-Benz 190E 2.3 Cosworth finalmente está andando – confira o Project Cars #61

E, finalmente com vocês… o último capítulo da primeira temporada da sua novela automotiva mais enrolada de todas! Pois bem. Mais de um ano se passou desde o último capítulo, mas já estávamos defasados mais de dois anos na linha do tempo em relação à vida real. E como prometi a mim mesmo que só o faria se e quando conseguisse andar com o carro novamente…

Consegui. Mas não foi fácil.

Uma das coisas que aprendi com a Sonia, e que me serviu pra qualquer projeto com carro velho em geral, é ter cuidado com o advérbio “só”. Toda vez que você fala que é “só” fazer aquilo, nunca é só aquilo. Colocar um câmbio manual em um carro automático, mesmo que tudo seja original do carro, nunca é tão plug-and-play assim na vida real, onde há vários fatores como orçamento, espaço, tempo e mais um monte de coisas aleatórias que vão entrar no meio da conta. Sempre falta um suporte, um parafuso, uma junta, um conector. Muitas vezes você consegue encontrar um equivalente de outros carros ou comprar peças novas. Muitas vezes não. Uma simples parte de um esticador de correia de acessórios, por exemplo, foi capaz de atrasar a obra por 3 meses, desde descobrir que o bicho sumiu até a retirada nos Correios com os impostos pagos (e ainda precisou de algum artesanato por ter vindo errado).

01 - ESTICADOR

Ainda assim, o projeto ia caminhando, naturalmente a passos bem lentos. Como havia combinado com o Honda que queria fazer parte de todos os passos da montagem (tanto pra otimizar o tempo dividindo as tarefas quanto pra aprender a mexer no meu próprio carro), as agendas dos dois tinham de coincidir, coisa que geralmente não acontecia. Mas toda vez que acontecia, eram dias épicos.

Quero inclusive aproveitar este parágrafo pra fazer um agradecimento especial ao cara. Afinal de contas, não é todo dia que você encontra uma referência praticamente infinita não só em Mercedes-Benz como em vários carros de várias marcas de várias épocas e um espírito tão evoluído em uma só pessoa: além de ser gente boníssima, ensina tudo que sabe na maior paciência do mundo e nunca hesita em ser humilde e buscar o auxílio de um manual quando a memória não ajuda. Um pessimista diria que perdi dois anos numa oficina. Eu digo que os ganhei: foram dois anos colecionando histórias, experiências e aprendizados, e ainda cheguei no final com um carro funcionando e um amigo pro resto da vida. Valeu a pena demais. Aquele abraço, José Honda!

02 - SELFIE

Após a chegada da finada Cosworth do meu amigo Ismael, separamos o que iríamos precisar pra montagem de Sonia e começamos a colocar as coisas no lugar. Inicialmente, montamos coletores, bombas, polias, suportes e afins, com o motor ainda no suporte.

03 - MOTOR SUPORTE

Nesse meio tempo, também trocamos os detalhes que acompanham um swap de câmbio: pedais, circuito hidráulico do acionamento da embreagem, alavanca do câmbio, cardã e suporte do câmbio.

04 - ALAVANCA ANTIGA 05 - ALAVANCA NOVA

Após isso, já com o disco de embreagem com pastilhas novas, montamos o câmbio manual no motor, aproveitando pra já colocar o acoplamento do cardaã, vulgo “bolachão” na ponta do câmbio pra poder levar o conjunto pra dentro do cofre.

06 - MOTOR GIRAFA

Com o motor dentro do cofre, trocamos os bicos, instalamos o bendito esticador da correia de acessórios junto com a respectiva correia e o homem me indagou: “e o diferencial, não vai trocar não?”

07 - MOTOR COFRE 08 - BICOS

Lógico que tinha esquecido, mas lógico que ia. O diferencial que estava no carro (que fazia conjunto com o câmbio automático) tinha relação 3.27 enquanto o diferencial original para o câmbio manual tinha relação 3,07. Como ainda não havia sequer andado no carro de uma maneira decente para comparar, preferi confiar nos engenheiros da Mercedes e usar o que foi planejado para o carro inicialmente. Lógico que pra isso precisaria tirar o diferencial da finada que já estava em seu caixão. Uma tarde, um Marcony e um Pedra foram suficientes. Vieram tanto diferencial quanto semi-eixos e o pedaço do cardan que havia ficado para trás.

09 - FOTO CHACARA

Todas as peças na oficina. Agora era “só” montar, certo? Certo, mas ainda precisei usar duas semanas de férias pra ir à oficina praticamente todos os dias, chegando de manhã e muitos dias saindo quase meia noite. Mas subimos diferencial, cardan, acoplamentos. Inclusive aproveitamos pra conferir o nível e ver de perto a ação da parte autoblocante do bicho.

10 - FOTO DIFF

Replicamos de maneira extremamente profissional as travas do suporte do câmbio e montamos os varões de acionamento na alavanca.

11 - FOTO PORCA 12 - FOTO SUPORTE 13 - FOTO VAR≈ES

Compramos e montamos mangueiras, abraçadeiras, o-rings, parafusos e arruelas.

14 - FOTO MANGUEIRAS

Fixamos barra estabilizadora dianteira e prendemos de uma maneira completamente profissional a haste que aciona o regulador da altura da suspensão traseira para poder testar enquanto não chegavam os reparos originais.

15 - FOTO HASTE

Montamos o que restou do escape com o que a gente achou perdido no fundo da oficina.

16 - FOTO ESCAPE SOLDA 17 - FOTO ESCAPE CABE_A 18 - FOTO ESCAPE CARRO

Montamos um maldito radiador de óleo que tomou praticamente um dia inteiro pra tubulação passar por onde devia. E que me deu tanta raiva que eu não quis tirar meia foto. Montamos mangueiras, radiador, termostática nova e enchemos o sistema com aditivo e água destilada.

19 - FOTO ADITIVO

Colocamos óleo, gasolina e demos a partida.

Nada.

“Você ligou o motor de partida, menino?”
“Rapaz… acho que não.”
“Então vai lá ligar.”

20 - FOTO MOTOR PARTIDA

Ligamos o motor de partida. Dois cabos numa posição infernal. Mas ligamos e demos a partida.

Motor ameaçou pegar mas jogou gasolina pro céu. Tudo frouxo nas linhas de combustível ali na frente.

“Tá vendo? Isso que dá fazer as coisas com pressa!”

Sapo levado, conexões apertadas. E, após cinco anos e meio de sofrimento, finalmente aconteceu:

O momento foi acompanhado por uma confusão de sentimentos bons. Mas o principal era alívio. Depois de tanto suor e de tanto ouvir piadinhas dos amigos por todo esse tempo, ver aquilo funcionando sem esquentar, sem misturar água com óleo e até segurando marcha-lenta depois de alguns ajustes do mago, lavava minha alma de cima a baixo. Com alguns acionamentos do pedal, a embreagem subiu e ela andou por alguns centímetros pra frente e pra trás. Aquilo foi o ápice do alívio.

Naturalmente demos algumas voltas ali por perto pra senti-la um pouco melhor, mas como o documento dela já não era pago há um bom tempo e tanto o barulho do escape quanto suas condições de higiene chamavam bastante atenção, preferimos chamar um guincho e levá-la pra casa sem abrir espaço para maiores emoções.

21 - FOTO GUINCHO

Mas mesmo que planejasse não passar por elas, não foi possível: acompanhar esse carro voltando pra casa depois de tanto tempo fora, ainda ouvindo a playlist certa, não deixou o peão segurar a onda. O olho molhou.

22 - FOTO GUINCHO UNO

Com o carro finalmente em casa, o próximo passo será o famigerado pente fino: revisar pesadamente a parte elétrica e de injeção, cuidar de alguma estética do interior (como o painel rachado e os forros de porta) e partir para o exterior.

23 - FOTO LIMPEZA

Como sempre achei a EVO I mais bonita que a EVO II justamente por ser mais discreta mas ainda assim bastante imponente, a idéia é deixa-la ao menos esteticamente idêntica à EVO I, já que mecanicamente ainda seria completamente fora da realidade para esse simples mortal. As rodas apareceram com algum custo (têm o mesmo desenho da família gullideckel, só que em aro 16), mas ainda falta o bodykit. Há algumas boas réplicas à venda mundo a fora, mas como ainda moramos em um país regido por um Estado imenso e faminto, elas chegariam aqui por um valor que ainda não tenho. Portanto, acredito que até poder dizer a plenos pulmões que o carro está pronto, ainda temos muito chão.

24 - FOTO EVO I

Em todo caso, agradeço a quem acompanhou essa novela até aqui. Seja ajudando ou incentivando até mesmo pelos comentários: cada um foi mais um cv de força me puxando a continuar até o final. Aquele carro outrora abandonado no meio da Asa Norte agora anda sozinho e terá um futuro brilhante pela frente, se assim o criador me permitir.

Voltaremos assim que tivermos novidades. Um abraço!

Por Sherman Vito, Project Cars #61

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