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Miura SVR, 1 de 1: quando a Lamborghini fez um supercarro de pista original de fábrica

O Lamborghini Miura é considerado por muitos especialistas o primeiro supercarro moderno feito no mundo – o primeiro automóvel produzido em série com motor central-traseiro e carroceria em formato de cunha. Ainda que este assunto seja motivo de debate, é inegável a importância do Miura para estabelecer a “fórmula básica” dos superesportivos.

Não bastasse sua importância histórica, o Lamborghini Miura também é um carro maravilhoso, com formas inspiradíssimas desenhadas por Marcello Gandini no estúdio Bertone, e também é muito raro: é bem sabido que foram feitas apenas 764 unidades entre 1966 e 1973 – depois disto, foi lançado o Lamborghini Countach.

Então, se qualquer Miura já é raro por natureza, este aqui é o mais raro de todos: o Lamborghini Miura SVR, versão “de corrida” da qual só existe um exemplar. E ele acaba de ser restaurado pela própria fabricante em seu Polo Storico em Sant’Agata Bolognese. Não é uma beleza?

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Pois ele sequer deveria existir. Para quem não sabe (ou não lembra), Ferruccio Lamborghini era um cara de convicção. Ele fundou a Lamborghini para fazer carros melhores do que as Ferrari e, em sua concepção, para isto era necessário conceder automóveis que, desde o início, fossem feitos para as ruas. Ele era completamente contrário à ideia de carros de corrida adaptados para uso nas ruas (que, a grosso modo, era o que a Ferrari fazia), e também não queria que os carros de rua da marca fossem levados para as pistas. Aliás, como já comentamos aqui, o próprio Miura foi feito às escondidas, sem o conhecimento de Ferruccio, que era contrário até mesmo à ideia de um esportivo de motor central-traseiro e só deu carta branca para o projeto depois que viu sua boa recepção no Salão de Genebra de 1966.

1971 Lamborghini Miura P400 SVJ

Em 2015 contamos aqui a história do Lamborghini Miura SVJ, versão modificada para as pistas por iniciativa de um engenheiro envolvido no projeto desde o início, Bob Wallace. A fim de mostrar a seu chefe que o Miura tinha potencial para as pistas, em 1971 ele pegou um exemplar e o modificou  para adequá-lo ao Apêndice J do regulamento da FIA, que ditava as regras para corridas de carros de turismo. O chamado Miura Jota recebeu reforços na estrutura, carroceria de alumínio, janelas de plástico nas laterais e interior aliviado, reduzindo seu peso de 1.240 kg para atléticos 940 kg. Além disso o motor V12 de quatro litros, que originalmente entregava 385 cv, recebeu aumento na taxa de compressão para 11,5:1, novos comandos de válvulas, ignição eletrônica, cárter seco e escape menos para entregar 440 cv.

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O Miura Jota (ou SVJ) original foi destruído em um acidente, mas inspirou outros donos de Miura a encomendar as modificações à fábrica – cinco carros no total, todos com modificações feitas pelo próprio Bob Wallace, que conseguiu a duras penas convencer a Lamborghini a ajudá-lo nessa. Mas a história não acabou ali.

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Houve um único exemplar que recebeu modificações ainda mais extensas: um spoiler maior na dianteira, uma asa traseira no teto (como um hatchback) e para-lamas ainda mais largos para acomodar rodas BBS de corrida com cubo rápido e pneus 345/35 na traseira. Além disso, ganhou suspensão de competição com amortecedores Koni, além de freios com discos Girling iguais aos usados no Porsche 917. O carro, batizado Lamborghini Miura SVR, também era ainda mais leve, pesando apenas 800 kg de acordo com a literatura oficial da companhia. E tem o mesmo motor de 440 cv usado pelo SVJ.

Fora isto, não há muito mais informações técnicas disponíveis sobre o carro. Sua história, contudo, é bem documentada pela Lamborghini: o carro, de chassi #3781, motor #2511 e carroceria #383 nasceu em 1968 como um Miura S na clássica cor Verde Miura com interior preto, e foi entregue à concessionária Lamborghini de Turim no dia 30 de novembro daquele ano, logo depois de aparecer na 50ª Salão de Turim, realizada naquele ano.

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Devia ser muito parecido com este carro

Ou seja: estamos falando do carro que provavelmente mostrou ao mundo as modificações incorporadas ao Miura S, que em relação ao Miura P400 tinha comandos de válvula modificados, detalhes cromados ao redor das janelas e faróis, coletor de admissão com dutos 2mm mais largos e vidros elétricos.

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O carro trocou de mãos oito vezes antes de, em 1974, ser adquirido por um alemão chamado Heinz Straber, que levou o carro de volta para Sant’Agata para ser transformado no SVR, em um trabalho que levou 18 meses. Não dá para entender direito esses caras, porque o carro foi vendido pouco depois para um entusiasta japonês de nome Hiromitsu Ito. Que decidiu não vender o carro, ficando com ele por mais de quatro décadas.

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Em 2015 o carro passou por uma restauração que incluiu a troca do acabamento interno original por um revestimento de couro caramelo, e o carro foi colocado à venda. Não se sabe o que aconteceu com o carro desde então, e a Lamborghini também foi bastante econômica nos detalhes, limitando-se a dizer que começou a restaurar o carro há cerca de um ano e meio e que o carro chegou desmontado ao Polo Storico, mas que por sorte não havia componentes faltando.

O dono, que ainda é Hiromitsu Ito, que encomendou algumas alterações: revestir o interior em preto e instalar bancos concha, cintos de competição de quatro pontos e uma barra removível para reforçar a rigidez do habitáculo.

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Sim, são modificações modernas em um superesportivo dos anos 60/70 que é único no mundo, sendo provavelmente um dos mais valiosos exemplares do Miura. Mas, veja bem, o Sr. Ito já está há 40 anos com o Miura SVR e faz questão de levá-lo a exibições em circuitos de corrida sempre que possível. Então, se alguém tem crédito para fazer algo assim, esse cara é ele.

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Considerando que Ferruccio Lamborghini era avesso à criação de um superesportivo de motor central-traseiro, e mais ainda se este superesportivo tivesse foco nas pistas, só o fato de este carro existir já era notável. Ótimo saber que ele é tratado como merece.

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