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Não, Carros nunca foi só um filme para crianças

Nesta semana, um pequeno alvoroço tomou conta da Internet por conta do trailer de “Carros 3”, que será lançado em 2017 – entusiastas de todas as idades comemoraram a volta do filme com gritos virtuais de empolgação e memes, muitos memes.

Mas “Carros” não era um filme para crianças? Não, cara. E, aproveitando o momento – e que o primeiro filme completou dez anos em 2016 – vamos explicar todos os motivos.

E não estamos falando apenas da atmosfera aparentemente mais madura do trailer, onde algo muito ruim acontece a Relâmpago McQueen: desde o primeiro filme, lá de 2006, a franquia “Carros” é altamente gearhead. Sem deixar de ser um bom filme para crianças. É por isso que você, mesmo que já tenha passado dos, sei lá, 30 anos, pode assistir “Carros 3”, compartilhar links no Facebook e fazer declarações carregadas de nostalgia. Mesmo que, parando para pensar, nem faça tanto tempo assim.

Em 2006 eu já não era uma criancinha – estava na reta final do ensino médio e tinha acabado de conseguir meu primeiro emprego. E, sendo entusiasta desde que me entendo por gente, fiquei bem empolgado com aquele filme com carros antropomorfizados feito pela Disney e pela Pixar. Aliás, qualquer um sabe que, por mais que sejam feitos para crianças, os filmes do famoso estúdio de animação sempre trazem algo para agradar também aos mais velhos, seja com uma história emocionante, piadas que as crianças não entendem e referências culturais bastante específicas. Afinal, são filmes feitos por adultos. E, no caso de “Carros”, entusiastas como nós.

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A história você certamente conhece: Relâmpago McQueen, um carro de corrida jovem e arrogante (e, curiosamente, um dos poucos do filme que não foram baseados em um modelo real) que sonha em ser o campeão da Copa Pistão. Ele é talentoso, veloz e muito popular, mas ainda não é um dos grandes.

No meio do caminho para a corrida que pode dar novo rumo a sua carreira, McQueen se desprende do caminhão que o transporta e vai parar na pacata cidadezinha de Radiator Springs, no meio do deserto americano, às margens de uma rodovia que lembra muito a famosa Rota 66. Lá, ele é acusado de causar desordem e acaba sendo forçado a passar uns dias lá.

A gente não está brincando quando fala das referências, porque o filme é um paraíso delas. A começar pelo nome de Relâmpago McQueen, clara homenagem a Steve McQueen, astro de “Bullitt” e “As 24 Horas de Le Mans”. Seu maior ídolo (e rival) na Copa Pistão é o Plymouth Superbird conhecido como “The King” – e ele não tem aquela cor azul por acaso: além de ser inspirado pelo carro de Richard Petty na Nascar, ele é dublado pelo próprio Richard Petty.

Aliás, a dublagem de “Carros” é outro aspecto que mostra sua veia entusiasta. Doc Hudson, o Hudson Hornet, o médico (ou seria mecânico?) e juiz de Radiator Springs (que foi um carro de corrida famoso décadas antes), é dublado por ninguém menos que o ator Paul Newman – que também era piloto e, em 1979, terminou em primeiro lugar em sua categoria e em segundo lugar as 24 Horas de Le Mans, ao volante de um Porsche 935. Newman morreu em 2008 de câncer de pulmão, aos 83 anos, e “Carros” acabou sendo seu último filme. No fim das contas, uma bela homenagem.

Entre as personalidades ligadas ao automobilismo, ainda aparecem Dale Earnhardt Jr, Michael Schumacher, Mario Andretti e Jay Leno – um elenco bastante entusiasta para um filme infantil, não concorda?

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Um Fiat 500 fã de Ferrari. E olha a grade de um Maserati ali atrás – os produtores tiveram o trabalho de licenciar todas as marcas que conseguiram

Há outros detalhes no filme que provam que muita coisa foi feita apenas para os adultos. Ou você acha que as crianças iriam notar que o Chevrolet Impala lowrider que vive em Radiator Springs é dublado por Cheech Marin por acaso? O comediante latino da dupla Cheech and Chong já disse várias vezes em entrevistas que esteve envolvido com a cultura dos lowriders no sul da Califórnia em sua juventude e até já os colocou em seus filmes.

E tem os carros, claro: como dissemos, Relâmpago McQueen é um dos poucos que não foram baseados em modelos do mundo real. Luigi, o borracheiro italiano, é um Fiat 500 clássico. Tem uma Kombi Hippie e um Ford Modelo T que é o habitante mais velho (ou melhor, antigo) de Radiator Springs. Os insetos são pequenos Fuscas (“Bug”, como são conhecidos nos países onde se fala inglês). Sally, o par romântico de McQueen, é um Porsche 911 996. O Xerife é um Mercury Coupe da década de 1950, que era um dos carros de polícia mais comuns daquela época. O vilão Chick Hicks é um bólido da Nascar da década de 1980 que lembra bastante o Chevrolet Monte Carlo, uma das bolhas usadas pela categoria naquele tempo.

Mais do que isto: apesar de serem carros antropomorfizados, com olhos nos para-brisas, os personagens de “Carros” são realistas até onde o visual artístico do filme permite. É só reparar nos emblemas, nas formas das carrocerias, nos roncos de motor e até mesmo no modo como a suspensão dos carros se comporta de acordo com o projeto. A atenção aos detalhes é tanta que até as marcas dos pneus são condizentes com a época de cada carro.

Mas não acaba aí: até mesmo técnicas de pilotagem básica foram introduzidas em “Carros”. Ou você acha que o “vira para fora e acelerar” do Doc Hudson foi tirado do nada? É uma versão rudimentar da técnica usada pelos pilotos de dirt tracks (pistas de terra) da Nascar.

A propósito, o Fabuloso Hudson Hornet existiu de verdade, e nós contamos sua história aqui

Se você era mais novo quando assistiu a “Carros”, talvez não tenha reparado em todas estas coisas. Mas temos certeza de que você reparou depois, caso tenha assistido de novo. E deve ter gostado de ver tantas referências à nossa paixão em um filme para crianças.

Falando nisso, não é por causa de toda a cultura envolvida que “Carros” deixa de ser um bom filme para crianças, com uma mensagem bacana para os futuros entusiastas: correr é legal, e vencer uma corrida é ainda mais. Só que, às vezes, a gente precisa desacelerar, sair da rotina e conhecer novas pessoas e ter novas experiências. Pegar uma rota alternativa para a vida. Além disso, vencer não é o mais importante, e sim ser leal aos seus amigos. No fim das contas, como o próprio Rei diz, a Copa Pistão é só uma taça vazia.

Como a gente já disse, você não precisa se sentir culpado por sua reação a “Carros 3”. Pode chorar as pitangas na sua timeline, pode especular o que acontece no filme, pode postar memes do “Relâmpago Marquinhos”. A gente entende.

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