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Automobilismo Técnica

Nissan GT-R decola durante corrida e cai na área dos espectadores em Nürburgring, deixando um morto

Um Nissan GT-R pilotado por Jann Mardenborough decolou durante uma corrida de endurance da VLN Nürburgring em Nordschleife nesta manhã de sábado (28) e acabou caindo sobre a área dos espectadores. Mardenborough não sofreu lesões durante o acidente, mas um dos espectadores que assistia a corrida atrás do alambrado — uma tradição de Nürburgring — foi atingido e morreu no local. Além da morte, um número ainda não confirmado de espectadores que estavam no mesmo local acabaram feridos.

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Foto: Alex Garcia/Twitter

O acidente aconteceu no Flugplatz, em um trecho de alta velocidade com variação de relevo em curto espaço. A presença de espectadores atrás do alambrado geralmente não é um problema, visto que geralmente eles ficam no lado de dentro das curvas, oposto ao escape da pista. Mas especificamente no Flugplatz os espectadores ficam no lado de fora da curva — atrás da área de escape — para ver a aproximação dos carros pela Quiddelbacher Höhe. Na imagem abaixo é possível ver as variações de relevo e o local onde os espectadores assistem a prova. O acidente de Mardenborough aconteceu no fim da Quiddelbacher, saindo na primeira curva, onde os carros geralmente estão a mais de 200 km/h.

Quiddelbacher-Hhe

A corrida era uma prova de quatro horas realizada anualmente, a ADAC Westfalenfahrt, mas com o acidente ainda na primeira hora de prova, ela foi paralisada e, em seguida, cancelada para que a polícia local possa investigar o local e os fatos ocorridos.

A Nissan publicou uma declaração oficial informando que Mardenborough passa bem e está fazendo apenas exames de rotina nesses casos. A fabricante ainda se diz “profundamente chocada e entristecida pelos acontecimentos” e “lamenta pela morte e pelos feridos”, e que também está cooperando com os organizadores da prova nas investigações.

O vídeo acima mostra as cenas impressionantes da decolagem e do momento em que o carro atinge o alambrado e os espectadores. O acidente é mecanicamente igual aos sofridos por Manfred Winkelhock no mesmo Nordschleife, durante uma prova de F2 em 1980, e de Mark Webber e Pete Dumbreck nas 24 Horas de Le Mans de 1999. Todos eles causados pelo mesmo motivo: o desequilíbrio aerodinâmico.

 

Por que o carro decola desse jeito?

Nos três casos o que causa a decolagem e o flip subsequente é uma soma de eventos iniciada pela perda de downforce na dianteira, que faz a frente se levantar, seguida pela súbita entrada de ar sob o carro, e a perda de eficácia dos dispositivos aerodinâmicos do carro — difusor, asa traseira, defletores e o próprio assoalho do carro.

Uma vez que a frente decola, surge o efeito cumulativo que é uma espécie de “estol invertido”. As asas de um carro de corrida funcionam com o princípio inverso das asas de aviões: a pressão do ar é menor na parte inferior do que na parte superior da asa. Quando a dianteira levanta, o fluxo de ar na parte superior da asa fica prejudicado causando o descolamento de camada de limite. Nesse caso, a parte inferior vira uma barreira aerodinâmica que causa sustentação em vez de downforce. O mesmo efeito acontece com o carro como um todo: a pressão aerodinâmica sob o carro é maior que a pressão sobre a carroceria.

Uma forma de se prevenir isso nos F1 e protótipos está no desenho do assoalho. O centro de pressão aerodinâmica deve ficar um pouco mais próximo do ponto médio do comprimento do carro. Antigamente os carros-asa da Fórmula 1 eram muito suscetíveis a estas decolagens porque o centro de pressão aerodinâmica dos túneis formados pelo assoalho e saias laterais era bem recuado — as saias laterais serviam para reduzir o fluxo de ar e a pressão aerodinâmica sob o carro. Isso deixava os carros sub-esterçantes e sensíveis à decolagens no caso de falta de downforce na dianteira.

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No caso de carros de turismo, existe um risco conceitual: para maximizar a eficácia da asa traseira pelo efeito de alavanca, o aerofólio fica bastante recuado para trás. Soma isso ao fato de um automóvel de turismo não conseguir ter difusores muito longos, tanto por restrição de regulamento quando pela própria construção de veículo — ou ele ficaria . O resultado é que o centro de pressão aerodinâmica de um GT3 como este Nissan GT-R fica muito deslocado para trás.

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Em condições ideais de temperatura e pressão, o splitter frontal (aquela “saia” em forma de lâmina deitada na parte inferior do para-choques dianteiro na foto acima) e o peso do motor central-dianteiro contrabalançam isso. Mas em Nordschleife há qualquer coisa menos condição ideal de temperatura e pressão: o crest do Flugplatz acabou fazendo teste definitivo de equilíbrio de forças.

Naquela decolagem, a inércia cospe o peso do motor para cima e o downforce frontal é insuficiente em proporção ao downforce traseiro. A frente decola, o splitter perde total funcionalidade, o centro de pressão aerodinâmica deslocado para trás multiplica o efeito exponencialmente, o colchão de ar atinge o assoalho, ocorre descolamento de camada de fluxo aerodinâmico na parte superior da carroceria e o carro decola.

Um outro exemplo de como a aerodinâmica pode causar acidentes é este Lexus de arrancada. Como nos carros de turismo, ele tem a asa bastante recuada para maximizar seu funcionamento pelo efeito de alavanca. Mas nesse caso, a asa traseira superdimensionada para sua aplicação ajudou a levantar ainda mais a dianteira, que empina naturalmente durante uma arrancada. Novamente o fluxo de ar sob o carro formou maior pressão aerodinâmica que o fluxo sobre a carroceria, iniciando o flip.

Como ficou claro, diante de uma situação dessa o piloto não tem nada a fazer para evitar o acidente, tornando-se “passageiro” do carro, como costuma-se dizer. Contudo há algumas técnicas que podem ajudar a evitar esse tipo de decolagem. Quando o piloto passa com aceleração total por um crest, a dianteira está sensivelmente empinada, o que favorece a perda de pressão aerodinâmica na dianteira nessas situações. Se ele mantiver a aceleração neutra, o carro passa mais alinhado ao asfalto e tende a sair mais equilibrado. E caso o piloto freie durante o desnível, ele pode perder o controle da traseira e terminar com um capotamento ou uma rodada.

 

O piloto

Jann Mardenborough foi um dos pilotos da Nissan revelados pelo GT Academy, o concurso promovido pela marca em parceria com os desenvolvedores e produtores de Gran Turismo que “transforma” gamers em pilotos. Mardenborough foi o vencedor do GT Academy de 2011, superando 90.000 candidatos.

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Antes do concurso ele nunca havia disputado uma corrida, e estreou nas 24 Horas de Dubai pela equipe Nissan. Atualmente, ele disputa a GP3 pela equipe Carlin Motorsport, e irá disputar as 24 Horas de Le Mans na categoria LMP1 pela equipe da Nissan Motorsports/Nismo.