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Norman Dewis: o maior piloto de testes do mundo – que você não conhecia

A Jaguar é uma das mais tradicionais fabricantes de automóveis britânicas. E ela não poderia ser mais britânica: ao longo de sua história, a companhia fundada em 1933 por Sir William Lyons construiu sua reputação vencendo corridas e construindo esportivos e carros de luxo. Algumas de suas vitórias estão entre as mais importantes do automobilismo. Seus esportivos estão entre os mais velozes e bonitos do mundo. E seus carros de luxo certamente figuram entre os mais emblemáticos e cultuados do planeta.

Apesar disto, em diversos aspectos, a história da Jaguar não é muito conhecida entre o grande público. E é por isso que, certamente, muitos não sabem quem era Sir Norman Dewis, que morreu na semana passada aos 98 anos de idade. Mas Dewis, que foi funcionário da Jaguar até 2014, quando se aposentou aos 93, foi possivelmente um dos pilotos de teste mais importantes de todos os tempos. E não, não estamos exagerando.

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Nascido em 1920, aos 14 anos de idade ele começou a trabalhar em outra fabricante inglesa, a Humber, instalando componentes de carroceria. No ano seguinte ele migrou para outra empresa, a Armstrong Siddeley – foi quando Dewis começou a aprender a dirigir, e a testar os carros que ele mesmo ajudava a montar. Com isto, acabou tornando-se especialista em avaliar a dirigibilidade dos automóveis.

Depois de servir à Força Aérea Britânica durante a Segunda Guerra Mundial, Dewis saiu de lá com muito mais habilidade e experiência. Pouco depois do fim do conflito, ele foi contratado pela Jaguar, ocupando o cargo de piloto de testes principal entre 1952 e 1985.

Na posição, Dewis era responsável por acompanhar a evolução de cada projeto do início ao fim, garantindo que a equipe de engenharia levasse ao máximo o potencial dinâmico de cada modelo – tanto os carros de competição quanto os esportivos de rua.

O primeiro deles foi o C-Type, vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1951, 1952 e 1953 – sendo que, nesse último ano, foi empregada uma inovação assinada pelo próprio Dewis: os freios a disco modernos. Com resistência ao fading por calor muito maior do que se via nos freios a tambor, certamente eles contribuíram para a vitória folgada do C-Type.

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Naquele mesmo 1953, Dewis foi o responsável pelo recorde de velocidade do Jaguar XK120 – ele chegou aos 277,47 km/h com o roadster, marca inédita para um automóvel produzido em série até então. Embora o XK120 tivesse diversas modificações aerodinâmicas na ocasião do recorde, logo em seguida o exemplar foi devolvido à sua configuração original e vendido normalmente em uma concessionária.

Dewis também trabalhou no acerto do sucessor do C-Type, o D-Type, que conquistou mais três vitórias em Le Mans entre 1955 e 1957. Na edição de 1955, ele conduziu um dos três carros levados pela Jaguar ao circuito de La Sarthe, revezando ao volante com Don Beauman. Os dois cumpriram 106 voltas antes de abandonar a prova pro problemas mecânicos.

Entre os esportivos de rua, Dewis ajudou no desenvolvimento carros como o XK140 de 1954 – o carro mais veloz de sua época, com velocidade superior a 200 km/h – e seu sucessor, o XK150. Em 1956, Dewis participou do desenvolvimento do Mark VIII, sedã esportivo que usava o mesmo seis-em-linha de 3,4 litros e 210 cv do XK140.

Outros carros cuja dinâmica foi acertada por Dewis foram o Mark 2, modelo médio lançado em 1959, as três primeiras gerações do Jaguar XJ, fabricado a partir de 1961. Além, é claro, do mítico Jaguar E-Type, considerado por muitos o maior de todos os esportivos britânicos.

Aliás, de acordo com a própria Jaguar, Dewis foi obrigado a testar o E-Type na marra antes do lançamento – ele estava atrasado para a coletiva de imprensa no Salão de Genebra de 1961, onde o modelo seria mostrado ao público pela primeira vez. Para chegar a tempo, ele cobriu os cerca de 1.100 km entre o Reino Unido e a Suíça em apenas 15 horas, parando apenas para abastecer.

Outra passagem marcante na carreira de Dewis foi seu acidente com o Jaguar XJ13, exemplar único de motor central-traseiro, concebido em 1966 para disputar as 24 Horas de Le Mans. Embora jamais tenha chegado a correr, o protótipo era belíssimo e se tornou uma das peças mais interessantes do acervo da Jaguar.

Em 1971, durante a apresentação do primeiro motor V12 produzido em série da Jaguar, Norman Dewis foi convidado para demonstrar o carro no circuito da MIRA (Motor Industry Research Association), em Warwickshire, no Reino Unido. O problema é que, depois de muito tempo parado, o XJ13 tinha pneus desgastados e impróprios para uso extremo. Dewis, contrariando ordens do diretor Lofty England, resolveu acelerar o protótipo mesmo assim e acabou batendo em um muro. O carro ficou destruído, mas Dewis saiu ileso.

Depois de manter-se no time de pesquisa e desenvolvimento da Jaguar ao longo das décadas de 1970 e 1980, Dewis seguiu cooperando com a Jaguar como embaixador, atendendo a eventos de pista e encontros de clássicos, além de prestar consultoria à Jaguar Classic e contribuir com os programas de restauração e recriação da fabricante.

Até os últimos anos, ele ainda era visto ao volante de clássicos da Jag, uma de suas últimas demonstrações foi com o D-Type, no Goodwood Festival of Speed de 2014. Foi naquele mesmo ano que Dewis recebeu a condecoração OBE (Order of de British Empire) por suas contribuições para a indústria automotiva, e passou a atender por Sir Norman Dewis.

De acordo com a Jaguar, Dewis havia prometido que, ao completar 100 anos, ele iria comemorar dirigindo um D-Type e chegando às 100 mph (160 km/h) com ele. Por mais que isto seja impossível agora, não duvidamos que ele realmente fosse capaz de fazê-lo.

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