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Car Culture História

NSX, Prelude, e a ressurreição de um Civic VTi: Kazuhiko Kobayashi e as histórias da chegada da Honda ao Brasil em 1992

Onde você estava no fim de maio de 1992? Enquanto alguns de vocês estavam nascendo, outros estavam vibrando com a dura vitória de Ayrton Senna no GP de Mônaco contra os alienígenas Williams FW14B. E alguns outros estavam alucinados nas ruas brasileiras, com a Playboy da Cristiana Oliveira babando em carros que antes só eram vistos nas revistas e nas telas: a importação de automóveis havia sido liberada há apenas dois anos.

Fez parte deste cenário a chegada da Honda ao Brasil, e graças a um videomaker bastante envolvido com a marca, temos registros de vários destes momentos eternizados. Se você é fã de Honda, prepare-se para ver por aqui uma enxurrada de Civic, Accord, Prelude, Legend e NSX – incluindo o carro pessoal do Ayrton Senna.

Clique para ver: apresentação da SP Japan para o Civic Crx VTi 1993 e Honda Accord 1992

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O homem atrás das câmeras e da edição é Kazuhiko Kobayashi, gerente de pós-venda e responsável pelos treinamentos na SP Japan – a primeira concessionária automotiva da Honda por aqui – entre 1992 e 1995. Hoje, ele continua dando treinamentos, mas na Sprex Japan, sua empresa especializada na área de funilaria de reparos rápidos, além de vender equipamentos profissionais voltados a este fim (leia mais sobre isso no fim deste post).

Quando Kobayashi realizou as filmagens destes vídeos, ele já tinha muitos anos de experiência com a Honda acumulados – mas lá no Japão. Essa história começou já durante o período de formação na faculdade de engenharia mecânica: os seis meses obrigatórios de estágio foram cumpridos na Honda – e lá ele já emendou o começo de sua carreira, passando dez anos em Suzuka (entre 1974 e 1984) se dedicando ao desenvolvimento de protótipos. “Minha área era a de motocicletas, mas havia muita troca de informações e de experiências com a turma de automóveis… era muito divertido, enriquecedor”, completa Koba, como é conhecido entre os colegas.

Japan F1 Honda

Depois disso, foi transferido para a matriz, em Tóquio (foto acima), e lá permaneceu por sete anos. Bem, tecnicamente. “Eu nunca gostei de usar gravata. Dei rápido um jeito de voltar a fazer algo parecido com o que fazia em Suzuka”. Pouco tempo depois de sua ida a Tóquio, Kazuhiko já estava viajando por toda a Ásia para testar e desenvolver motocicletas e veículos da marca para países como Malásia, Indonésia, Taiwan e Coréia do Sul.

Em 1987 ele já estava fazendo esta função no Brasil (apesar de ter nascido em Nagasaki, ele viveu três décadas antes, entre os 5 e 10 anos de idade, em Santos), para a Moto Honda da Amazônia – e pouco depois já cuidava da assistência técnica e do pós-venda na unidade da Sena Madureira, em São Paulo. Em 1991, a Honda o chamou de volta para Tóquio, mas ele não queria sair do Brasil e, por isso, se desligou da matriz.

Mas havia uma carta na manga: “O presidente Collor tinha acabado de liberar as importações de automóveis. A família Gebara, que cuidava do grupo Brasilwagen, tinha vencido a concorrência para ser representante oficial da Honda e eu, sabendo disso, fui negociar com eles”.

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Nisso nasceu a concessionária SP Japan, inaugurada em 28 de maio de 1992 – a primeira representante oficial dos automóveis da Honda no Brasil –, com Kobayashi já exercendo as funções de gerente de pós-venda e responsável pelos treinamentos técnicos dos funcionários, que ele cumpriria por três anos. Kazuhiko também foi o responsável por liderar a obra de transformação do antigo depósito da Brasilwagen no galpão da oficina da Honda, na rua da Independência, no Cambuci (fotos abaixo).

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Sobre o vídeo acima. “Um Prelude Si tinha acabado de dar perda total, mas a frente estava intacta, então o air bag não foi disparado. O pessoal da oficina queria ver aquilo funcionando, então juntamos a turma e disparamos o equipamento. Mas tinha um mecânico que queria ver de lá de dentro. Levou o maior susto!”, se diverte Kobayashi.

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“No dia anterior à inauguração do showroom, na avenida Nove de Julho (a concessionária existia até há pouco tempo no mesmo local), houve um coquetel no Hotel Transamérica (vídeo acima). Tive o prazer de levar o NSX do coquetel ao showroom, de madrugada”, completa Koba, com orgulho nos olhos. E afinal, quantos NSX vieram oficialmente? “Apenas dois, um automático e um manual, ambos vermelhos.”

Naturalmente pergunto do NSX 1993 preto de Senna (o carro aparece logo no começo do vídeo acima), que atualmente carrega as placas BSS 8888 (“Beco” Senna da Silva – os números fazem referência ao seu primeiro título na F1). “Este, até onde recordo, não veio pela Honda. Lembro que ele veio dos Estados Unidos e que foram trocados os emblemas Acura e o painel que marcava em milhas, de forma que ele ficou 100% Honda na aparência. Eu cuidei pessoalmente da manutenção deste carro. Lembro de duas vezes que o NSX preto foi para a SP Japan para trocar a embreagem queimada – desconfio que isso era arte do irmão dele, não do Senna” conta Koba, entre risos.

E o Civic VTi 1994 que vocês viram no começo da reportagem? “Este carro tem uma história curiosa. Em algum momento de 1994, fomos levar uma pequena frota de Hondas do pátio do Cambuci para o da Nove de Julho. E aí tinha um mecânico bem jovem, que ficou encarregado de levar o último carro da fila, que era este Civic. A missão dele durou umas duas quadras! Depois de escutar um barulhão, fomos verificar o que tinha acontecido na rua de trás, só para nos depararmos com a perda total do VTi, que rodou e bateu de ré em um poste. A porrada foi tão forte que afetou até a lateral do outro lado. Ele devia estar dirigindo rápido, mas vale lembrar que, quando os Honda chegavam do porto, eles vinham com os pneus bastante cheios e o ABS desligado”, afirma Kobayashi.

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“E daí começou aquela briga. A seguradora não queria pagar o valor total do veículo, apenas uma parte, e a SP Japan julgava ser de direito receber o valor integral. Daí eu fiz uma proposta para a SP Japan: se eu pagar essa diferença, vocês me permitem ficar com o carro? Eles aceitaram, e assim começou a missão de recuperar este VTi. Eu construí uma mesa alinhadora, que acabou sendo usada em outros serviços da oficina, pagava hora extra dos funcionários, comprei várias peças, aproveitei outras de outros PT de VTi – eles batiam muito, porque era um carro muito rápido, o brasileiro não estava acostumado –, e em pouco mais de três meses ele foi recuperado. Foi o meu presente de natal, porque ele ficou pronto em dezembro de 1994”, completa Koba. O carro tem hoje cerca de 135 mil quilômetros, é usado diariamente e tem várias marcas de guerra – definitivamente não é um carro de coleção, mas sim, um automóvel de uso diário com 21 anos de batente. “Santo de casa, sabe como é!”, ironiza.

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honda-barata-koba-14 Depois da SP Japan, Kazuhiko teve diversas experiências relacionadas ao setor, que acabaram culminando no que ele faz hoje. Entre 1996 e 1999 ele teve sua própria oficina, a Koba Auto Service, que realizava serviços de mecânica, funilaria e pintura. Em 2000 voltou a dar assistência para a Honda, gerenciando a parte de pós-venda e de treinamentos de três concessionárias da marca, na zona leste de São Paulo. Em paralelo a isso, ele criou, em 1999, a Sprex (abreviação de spray express), introduzindo no país o conceito de oficina de funilaria de reparos rápidos, feitos em um dia. Para tal, desenvolveu várias ferramentas próprias (de acordo com ele, os impostos de importação tornam esta opção inviável) e criou um laboratório de tintas para oficinas pequenas, que acabou sendo endorsado pela Brasilux – é o sistema Brasimix.

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Depois de passar entre 2005 e 2012 no Japão, cuidando de seus pais, Koba voltou ao Brasil por conta de uma série de coincidências – como um representante comercial da MS Japan Service que queria exportar ferramental de funilaria para pequenos reparos para o Brasil. De volta ao País, Kazuhiko dá treinamentos de funilaria e pintura da Sprex e vende ferramental específico para a área.

Para realizar os treinamentos (veja aqui a lista dos vídeos), Kobayashi faz uma permuta com a rede Grand Brasil, onde ele também cumpre a função de supervisor técnico: ele treina as equipes do grupo e eles cedem o espaço para as suas aulas. Caso você tenha interesse nos cursos (que ele ministra periodicamente) ou nos equipamentos, anote os seus contatos: [email protected] / (11) 9 9869 5131. Facebook da Sprex Japan

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