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O Brasil inventou mesmo o carro a álcool (e o carro flex)?

Estamos quase em 2018, e a essa altura da década quase 95% dos carros novos vendidos no Brasil são flexíveis em combustível — ou simplesmente flex, para usar o termo popular. Isso significa que esse tipo de sistema que aceita tanto álcool quanto gasolina se tornou o padrão brasileiro, graças ao nosso potencial de produção de derivados da cana-de-açúcar. Mesmo vendendo açúcar para o resto do mundo ainda sobra matéria-prima para fazer álcool de todos os tipos, pinga e combustível a preços relativamente baixos.

Tudo isso começou porque um dia, nos anos 1970, logo após a primeira crise do petróleo de 1973, os militares do governo — que também comandavam a Petrobras — decidiram que não poderíamos ficar dependentes dos petro-árabes e que precisávamos de uma solução alternativa. Foi quando o governo começou a bancar os estudos para viabilizar o uso de álcool de cana-de-açúcar como combustível. Na época era vantajoso, porque o preço do açúcar era ridiculamente baixo.

O desenvolvimento foi feito pelo Centro Técnico Aeroespacial (CTA), o braço científico da aeronáutica brasileira, e em 1975, os resultados dos estudos e adaptações foram apresentados ao presidente Ernesto Geisel. O general gostou dos resultados e, em 14 de novembro daquele mesmo ano, decretou o início do Programa Nacional do Álcool, mais conhecido como “Pró-Álcool”.

O programa foi um sucesso nos primeiros anos. Afinal era um produto que ninguém usava em nenhum lugar do planeta, e por isso não estava sujeito às variações de humor do mercado externo. A produção saltou de 600 milhões de litros em 1975-76 para 3,4 bilhões de litros em 1979-80 e chegou ao seu auge em 1986-87. Mas como costuma acontecer com as demandas criadas pelas canetas do governo, o negócio começou a desandar antes de completar 10 anos. Primeiro o preço do petróleo no mercado internacional voltou a baixar. A gasolina baixou junto e o álcool — que sempre rendeu menos autonomia devido às suas propriedades físico-químicas — se tornava pouco vantajoso para o consumidor e, consequentemente, para o produtor. Por outro lado, o preço do açúcar também não ficou baixo eternamente e chegou a um ponto em que era mais vantajoso produzir açúcar do que álcool.

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Foto: Folhapress

O resultado foi a escassez do combustível, que causava crises de desabastecimento e a substituição do álcool por metanol — muito mais nocivo e prejudicial aos motores dos carros e do nosso corpo. Estas crises levaram a uma queda na demanda por carros a álcool e a conversões de motores a álcool para rodar com gasolina. Trocavam-se os pistões, às vezes a junta do cabeçote, faziam-se ajustes do carburador e pronto: pode abastecer com gasolina.

Os carros a álcool até resistiram durante os anos 1990 e chegaram a cruzar a virada do século, mas eram vendidos por encomenda e a demanda era baixíssima. Encontrar um carro a álcool do final dos anos 1990 é mais difícil que vender um Effa M100 usado. Eles finalmente sucumbiram em 2003, quando a Volkswagen lançou o primeiro modelo flex brasileiro, o Gol (e qual outro seria?). Assim começou a mudança dos carros brasileiros para o padrão atual, usando uma tecnologia idealizada e desenvolvida no Brasil.

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Este belo conto nacionalista poderia muito bem estar nos livros didáticos para mostrar como somos criativos e temos nosso jeitinho próprio ao lidar com as adversidades… se não fosse o fato de nenhuma destas tecnologias ser realmente inventada no Brasil.

O primeiro motor movido a álcool de que se tem registro é o protótipo que o inventor americano Samuel Morey usou para conseguir sua patente de motor de combustão interna sem compressão em… 1826 — 147 anos antes do início das pesquisas no CTA. E adivinhem só onde ele usou o motor? Em um carro experimental que não funcionou direito. O motor de Morey, contudo, serviu para duas coisas: evoluir os motores de combustão interna e inventar um dispositivo que dosificava o combustível de acordo com o volume de ar admitido pelo motor. Sim: Morey inventou o carburador usando um motor a álcool.

Agora… você até pode argumentar que por ser um motor com ciclo obsoleto, sem compressão, ele não funciona exatamente como nossos motores de quatro tempos queimadores de suco de cana fermentado. Mas isso também não significa que nós brasileiros inventamos o motor de ciclo Otto movido a álcool. Quem inventou isso foi… o próprio Nikolaus Otto. Ele fez isso durante o desenvolvimento do ciclo de quatro tempos que leva seu nome. É isso aí: o motor de quatro tempos foi inventado queimando álcool.

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Mas porque raios herr Otto e mr. Morey usaram álcool como combustível? Porque o álcool já era usado como combustível para lamparinas, lanternas e aquecedores desde o século 17, e por esse motivo era isento de impostos. Ele precisava ser barato para que as pessoas não morressem de frio. Não havia querosene, nem gasolina. O combustível líquido mais acessível era o álcool. Mesmo quando os derivados de petróleo substituíram o álcool, ele continuou usado em indústrias e, vejam só, pelos pilotos de corridas de automóveis, que conseguiam mais potência dos motores quando abastecidos com álcool. Até no Brasil, onde um Ford disputou uma corrida no lendário Circuito da Gávea, no Rio de Janeiro, usando álcool etílico hidratado 70% em 1925.

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Aliás, foi nessa mesma época que surgiu a primeira campanha pela substituição da gasolina pelo álcool no Brasil e em vários países por todo o mundo. Henry Ford disse ao New York Times em 1925 que “o álcool é o combustível do futuro“, enquanto no outro lado do Atlântico, Harry Ricardo, engenheiro de motores da Rolls-Royce disse que “é uma questão de absoluta necessidade encontrar um combustível alternativo. Felizmente, tal combustível surge à vista na forma de álcool; este é um produto vegetal cujo consumo não envolve a redução da reserva mundial e que, em países tropicais, pode ser produzido em quantidades suficientes para suprir a demanda global“. A Alemanha do final do século 19 queria de qualquer jeito se ver independente do petróleo e sobretaxou a gasolina ao mesmo tempo que isentou o álcool de impostos.

No Brasil, o presidente Epitácio Pessoa já via problemas na “colossal importação de gasolina” (o que desequilibrava nossa balança comercial) e via no álcool uma solução — que poderia ainda estimular a indústria canavieira. Seu sucessor, Arthur Bernardes, encomendou estudos para entender melhor como o álcool poderia nos ajudar nesta questão dos combustíveis. Estes estudos resultaram na legislação que obriga a adição de álcool à gasolina, surgida nos anos 1930 inicialmente nas esferas municipais e estaduais — inicialmente a mistura era de 5% a 10%. Mais tarde, quando Getúlio Vargas decidiu que o combustível era um assunto nacional, a legislação ficou a cargo do poder federal.

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Apesar da legislação e dos estudos de viabilidade e desenvolvimento, o primeiro carro a álcool produzido em série no mundo também não foi brasileiro — costuma-se considerar o Fiat 147 1979 o primeiro carro a álcool, embora o Dodge 1800 tenha sido usado antes para o desenvolvimento da tecnologia no Brasil. Não foi nenhum deles.

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O primeiro carro a álcool produzido em série da história foi também o primeiro carro produzido em série na história: o Ford T. Os primeiros modelos do popular de Henry Ford, produzidos em 1908, usavam carburadores ajustáveis que permitiam abastecer o 2.3 de quatro cilindros com gasolina ou álcool. Se você deixasse o ajuste permanentemente para álcool, bem, você tinha um carro a álcool.  Preciso dizer que o carro flex também não é invenção brasileira?

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Preciso, porque ajustar o carburador é algo que demanda conhecimento específico, bem diferente de parar no posto e encher o tanque com qualquer coisa que não seja diesel. Nesse caso, também não foram os brasileiros que inventaram o carro flex que se adapta automaticamente ao combustível usado.

Quem inventou esta tecnologia foram os americanos, que não tinham uma lei estúpida que proibia importações e criava reservas de mercado como nós, e por isso já tinham injeção eletrônica de combustível e centenas de engenheiros capazes de programá-las. A Ford desenvolveu os primeiros carros flex em 1982, em resposta a um pedido do governo da Califórnia, que queria viabilizar carros a metanol para reduzir a dependência de petróleo e reduzir as emissões de poluentes. Primeiro eles fizeram 40 Escorts movidos a metanol puro, e cederam os carros ao condado de Los Angeles. Eles funcionavam bem, mas não podiam ser abastecidos em qualquer lugar: o metanol só era oferecido em quatro postos, o que inviabilizava o uso convencional dos carros.

Para resolver este problema, a Ford começou a trabalhar em um sistema que pudesse rodar com metanol e também com gasolina quando fosse necessário. O resultado foi uma pequena frota de 705 carros flex entregue entre 1985 e 1992. E os carros não eram apenas de um modelo: havia Escorts 1.6, Taurus 3.0 V6 e até os clássicos Crown Victoria com o V8 de cinco litros flex. Com a viabilidade comprovada por esta frota experimental usada pelos governos dos EUA e do Canadá, o governo dos EUA aprovou uma lei de incentivos a veículos flex em 1993.

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Os primeiros frutos desta legislação foram o Ford Taurus FFV (Flex-Fuel Vehicle), que podia rodar com gasolina pura ou metanol “M85” (com 15% de gasolina para facilitar as partidas a frio), e o Chrysler Spirit FFV, que também funcionava com as mesmas proporções do Ford.

Até o final dos anos 1990 somente Ford e Chrysler fabricavam modelos flex (a partir de 1998 eles passaram a usar E85 em vez de M85), mas a GM também desenvolvia a tecnologia oferecendo modelos experimentais, como o Lumina FFV. O Taurus e o Spirit continuaram, e se juntaram aos novos Dodge Intrepid e Dodge Grand Caravan, Chrysler Town & Country, Dodge Ram 1500, Ford Ranger 3.0 e as picapes GMC Sierra e Avalanche. Tudo isso entre 1993 e 2002 — ou seja, entre dez anos e um ano antes do primeiro flex ser lançado no Brasil.

Apesar disso, os EUA não tiveram — e ainda não têm — algo fundamental para estimular os carros flex: uma indústria canavieira forte para suprir uma eventual demanda por álcool do imenso mercado automobilístico local. Lá eles usam etanol de milho. Por esse motivo o Brasil, embora não tenha inventado nada, conseguiu se tornar uma referência mundial em carros movidos a álcool.

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