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História

O Circuito Gilles Villeneuve foi definido em meia hora – e projetado de graça

Neste fim de semana a Fórmula 1 aporta pela 31ª vez na Île de Notre-Dame para disputar o GP do Canadá. O circuito, hoje batizado em homenagem ao piloto Gilles Villeneuve, é um dos mais técnicos e velozes do calendário, com muros colados na pista e um traçado sinuoso formado por curvas curtas — a receita perfeita para corridas emocionantes.

Por ser um circuito construído especificamente para a Fórmula 1, você poderia imaginar que o tudo foi meticulosamente projetado para favorecer o espetáculo da categoria, mas na verdade ele foi idealizado em apenas 39 minutos!

Tudo começou em 1967, quando o Canadá organizou uma grande feira internacional para reunir a cultura e a tecnologia de vários países em celebração ao seu centenário. Para sediar o evento, batizado Expo 67, os canadenses decidiram usar as rochas extraídas durante a construção do metrô de Montreal para criar uma ilha artificial no rio Saint Lawrence e nela construíram os pavilhões para cada país ou região convidados.

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Após o fim da Expo 67, quase todos os pavilhões foram demolidos ou reformados para receber novas instalações, como o Cassino de Montreal. Anos depois surgiu a oportunidade de sediar os Jogos Olímpicos de 1976, e a ilha novamente foi aproveitada, desta vez para as provas de canoagem e remo e alguns pavilhões foram transformados em garagem de barcos.

No ano seguinte, o presidente da Federação de Automobilismo de Quebec entrou em contato com Roger Peart, um engenheiro britânico radicado no Canadá que participava da fiscalização e monitoramento de circuitos de corrida em todo o mundo. A cervejaria Labatt (aquela que patrocinava o Williams de Nigel Mansell) gostaria de saber se seria possível sediar uma prova de Fórmula 1 em Montreal. Peart pediu 30 minutos para pensar e dar uma resposta.

Nesses 30 minutos, ele imaginou um traçado de corridas na Ilha de Notre-Dame. Depois pensou em um circuito de rua começando e terminando no Estádio Olímpico. Então ele voltou a pensar na Ilha com uma reta margeando a raia de canoagem, as garagens de barcos como boxes para as equipes e, principalmente, o acesso direto à estação de metrô.

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Em 39 minutos ele retornou a ligação confirmando a possibilidade.

Para ajudar a decisão de Peart, o então prefeito de Montreal anunciou dias depois que a Ilha de Notre-Dame seria destinada exclusivamente a atividades desportivas, enquanto sua vizinha, a Ilha de Santa Helena (esta natural) seria reserva a eventos culturais. Em abril de 1978, a prefeitura aprovou o projeto de construção de um circuito de Fórmula 1, com a expressa condição de que não fosse usado dinheiro público. A população de Montreal já havia ajudado (a contragosto) a bancar as instalações olímpicas e jamais aceitaria gastar ainda mais dinheiro para um circuito de corridas.

A construção do circuito foi concluída em tempo recorde, algo realmente inimaginável por aqui. O projeto do circuito foi feito durante o inverno, sem a possibilidade de se ver as condições do solo sob a grossa camada de neve. Com o projeto aprovado pelo prefeito em abril, Peart viajou à Europa em maio para obter a aprovação da FIA para o traçado. Com o aval da Federação ele voltou ao Canadá e as obras começaram em julho. A corrida estava marcada para 8 de outubro, com os treinos começando na sexta-feira, dia 6.

Em menos de três meses os canadenses conseguiram construir o circuito dentro das especificações de segurança da FIA. Como Hermann Tilke ainda não havia sido inventado, o circuito tem pontos de ultrapassagem por praticamente toda a extensão do traçado. A única grande mudança em relação ao projeto original, foi a localização dos boxes, que deixaram a garagem de barcos no outro lado da ilha (visto no onboard acima) e foram deslocados para onde estão até hoje, logo após a curva Senna.

No dia 6 de outubro o circuito estava pronto para receber as equipes e os treinos de sexta-feira como planejado. Jean-Pierre Jarrier conquistou a pole position e largou na ponta diante das 72.000 pessoas que testemunharam a inauguração. Roger Peart foi convidado para ser o diretor de prova e ouviu do próprio Jackie Stewart que seu circuito parecia “um paraíso no meio de um belíssimo rio”.

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E como se os deuses da velocidade tivessem preparado algo mais que especial para a inauguração, Gilles Villeneuve, ainda uma grande promessa, conquistou sua primeira vitória no novo circuito construído em sua província natal a bordo da Ferrari 312T3.

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De 1978 até hoje, o circuito só não sediou o GP do Canadá em duas ocasiões: em 1987 devido a uma disputa entre patrocinadores fez com que a prova não fosse realizada, e em 2009 por questões financeiras. Em 1982, o circuito foi rebatizado Circuit Gilles Villeneuve, em homenagem ao seu primeiro vencedor, morto em um acidente em Zolder naquele ano e ganhou a inscrição “Salut Gilles” na linha de largada/chegada.

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[ via Jalopnik US ]

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