O Civic Black Bull da Rev it Up voltou: 1.006 cv, turbo e K23 – veja ele em ação e conheça seus detalhes!

Juliano Barata e Dalmo Hernandes 11 agosto, 2017 0
O Civic Black Bull da Rev it Up voltou: 1.006 cv, turbo e K23 – veja ele em ação e conheça seus detalhes!

Em novembro de 2011, um Honda Civic Si apelidado de Black Bull por seus preparadores tornou-se um dos primeiros grandes virais automotivos no Brasil: um K20 (posteriormente K24) aspirado com 370 cv girando quase dez mil RPM, deixando um Camaro SS incrédulo para trás. Com o Black Bull, começou a história da Rev It Up!, preparadora de Vila Velha (ES), que se estabeleceu como uma das principais especializadas em Honda no Brasil. E hoje, esta história chegou ao seu capítulo mais radical e você irá conhecer os seus detalhes.

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Depois de passar por aquela famosa (e curta) apreensão e de experimentar as configurações K20 aspirado, K24 aspirado e K24 supercharged, o Civic Black Bull acaba de voltar aos olhos do público. No último dia 26 de junho, um gráfico de dinamômetro foi compartilhado pela página da oficina Jaques Motorsport no Facebook. Se liga:

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Reparou no nome do arquivo ali em cima? Black Bull, Rev It Up… OK. Então observe o pico de potência: 1.006,8 cv a 8.234 rpm, 92,6 mkgf de torque a 7.362 rpm. Foi o que bastou para que a internet viesse abaixo, entre fãs e incrédulos. Quais os parâmetros do dino? Qual a pressão de trabalho? Enquanto isto, o pessoal da Rev It Up também começou a soltar alguns teasers no Facebook, indicando que o Black Bull tinha mesmo novidades quentes a caminho.

O carro acabou de sair do forno e neste exato instante está a caminho da casa de seu proprietário. A Rev It Up documentou todo o processo de montagem e de testes e publicou há poucos minutos este vídeo aí embaixo. Se você está na poltrona do escritório ou da casa, separe um cafézinho quentinho. Se está no posto, junte seus amigos. E aumente o volume.

Mas tem mais. Sabendo da importância deste projeto para os entusiastas, nesta manhã fomos trocar uma ideia com Alam e Guilherme Martins, os fundadores da Rev It Up, que compartilharam conosco um resumo da evolução do carro, detalhes desta mais recente preparação e um pouco da história da preparadora. E já adiantamos: este atual estágio do Black Bull é temporário – ele virá ainda mais forte.

 

Civic Black Bull: as origens

Para se ter uma ideia, o Civic Si Black Bull nasceu antes mesmo da preparadora: mais ainda, podemos até dizer que foi o Black Bull que fincou as raízes da Rev It Up. Alam e Guilherme sempre foram fãs dos Volkswagen turbinados até o fim dos anos 1990, quando tiveram contato pela primeira vez com o Civic VTI e ficaram admirados com a elasticidade e o fluxo dos motores B16. Depois disto, foi questão de tempo até que começarem a preparar os motores Honda e a fazer fama com seus vídeos – algo que era apenas um hobby mas, à medida que avançavam nos anos 2000, tornou-se cada vez mais profissional.

E então veio o Honda Civic Si, em 2007. A Rev It Up foi uma das primeiras a investir em componentes de preparação para o motor K20 no Brasil – de início, com aspiração natural, investindo em ajustes eletrônicos para aumentar as rotações do motor, melhorar o fluxo e reforçar seus componentes. Quando, trabalhando a partir de um piggyback da GReddy, eles conseguiram elevar o limite de giro do motor para 9.500 rpm, os caras começaram a ficar mais conhecidos, pois na época a ECU do Si ainda era uma caixa preta.

 

O nascimento e a evolução do Black Bull

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Foi assim que o proprietário do Civic Si Black Bull soube do trabalho dos irmãos Martins e encomendou com eles um projeto de preparação. Mas ele queria muito mais do que aquilo. Sua referência estava em projetos internacionais e ele queria algo único, o limite de um K-Series aspirado, com tudo do melhor em termos de componentes e fluxo. No Brasil, a oferta de componentes para o Civic Si ainda era escassa (ainda o é até hoje), seria preciso importar muitas peças do Japão e dos EUA, mas o cliente se dispôs a arcar com todos os custos de logística e até pagou adiantado.

A Rev It Up ainda não era uma preparadora propriamente dita. O trabalho foi todo feito na garagem de Alam e Guilherme em um primeiro momento, e a fama do projeto fez com que o trabalho dos irmãos ficasse cada vez mais requisitado e só a partir daí foi montada uma oficina com estrutura profissional. O Black Bull tornou-se o maior “carro-propaganda” da Rev It Up, e foi assim até sua apreensão no fim de 2011, por causa do vídeo que deixou o carro famoso.

Alam diz que, ao contrário do que se pensa, o Black Bull ficou apreendido por pouco tempo e, ao pegá-lo de volta, seu proprietário decidiu mudar o foco do projeto. Ele ainda seria legalizado para as ruas, porém sua preparação teria foco em corridas de arrancada de 800 metros. Com o desafio da resistência aerodinâmica exponencial, já não era mais possível manter as raízes naturalmente aspiradas, mesmo depois de aumentar o deslocamento para 2,4 litros (K24) e, por esta razão, foi adotado um supercharger Rotrex.

Nestas provas de arrancadas de 800 metros, não é exatamente algo incomum de se disputar contra motores V8 com sobrealimentação acima dos 2,5 bar. O Rotrex não passava dos 1,1 bar por uma questão de princípio mecânico, já que o compressor é conectado ao motor. “O Rotrex é excepcional”, comenta Alam. “Ele não esquenta, deixa o sistema de escape todo livre, mas existe a questão da limitação de pressão.” O carro andava bem, mas o dono queria estabelecê-lo em outro patamar. E aí chegamos ao estágio atual do Black Bull.

 

Civic Black Bull: o setup atual

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Há um bom motivo para o Black Bull ter ficado tanto tempo desaparecido: seu motor foi todo refeito e agora, em vez de um Rotrex, trabalha com um turbo roletado Precision.

Outra novidade é que o K-Series agora é um K23 (destroked, curso reduzido), graças a um virabrequim forjado, aliviado e faqueado (knife-edgding, processo em “V” feito nos contrapesos do virabrequim para aliviar o peso e reduzir sua turbulência), feito sob encomenda. Com menor curso de pistões, melhora-se a relação R/L do motor, de forma que as bielas trabalham de forma menos angulada. Com menos esforço lateral na parede dos cilindros, o motor funciona mais solto, com menos vibrações, atrito e maior facilidade para subir de giro. De acordo com Alam, o K23 trabalha a 9.400 rpm na maioria do tempo, mas é plenamente capaz de chegar às 10.000 rpm – será que veremos isso acontecer no próximo estágio do Black Bull?

Bielas e pistões, como era de se esperar, são forjados também. Os pistões, da CP, apresentam nada menos que 10,2:1 de taxa de compressão estática neste conjunto (Alam comenta que a eficácia térmica e de fluxo do K-Series é de outro mundo, permitindo taxas elevadas), queimando etanol. O bloco foi retrabalhado com camisas da Darton, uma modificação clássica nos EUA entre os K-Series mais bravos, mas por enquanto não há girdle (reforço estrutural em forma de grelha, instalado na parte inferior do bloco), upgrade que provavelmente será necessário no próximo estágio.

O cabeçote foi todo retrabalhado pela Jaques Motorsport, tanto nos dutos quanto nas câmaras, sedes, com direito a válvulas redimensionadas, tanto na admissão quanto no escape, e comandos de válvulas custom-order da Skunk2. Na parte de lubrificação, para lidar com as rotações mais altas a turma da Rev It Up instalou a bomba do Type R, dispensando também os eixos balanceadores, o que libera alguns cavalos a mais.

O sistema de alimentação usa duas bombas, um catch tank e quatro injetores de 2.200 cc/min (209 lbs/hr) – e estes últimos são justamente o gargalo do atual estágio de preparação. O coletor de admissão e o TBI são Skunk2, sendo que o coletor foi retrabalhado pela Rev It Up. Já o sistema de escape dimensionado conta com um catback Invidia Q300 nas ruas, enquanto nas pistas fica apenas com o downpipe.

Agora, ao turbocompressor: embora não tenhamos as especificações do componente, Alam comentou que optou pela menor turbina para a aplicação, para ter o melhor enchimento e o quanto de linearidade fosse possível, um dos pedidos do proprietário. O sistema trabalha com seis diferentes níveis de pressão, de 0,7 (para uso nas ruas e nas primeiras marchas) a 1,68 bar; graças ao sistema TurboSmart, que por meio de um comando (no Black Bull, pela alavanca de farol – veja aos 17:40 do vídeo lá em cima, ou aí embaixo) ativa um solenoide que comanda a wastegate. Desta forma, o piloto consegue ter controle independente da pressão da turbina de acordo com cada marcha – mas ao mesmo tempo, quando quiser propositalmente destracionar o veículo em quarta marcha, ele consegue fazê-lo. Detalhe: na quarta marcha, este carro passa dos 200 km/h!

O câmbio do Civic Black Bull usa uma relação customizada: da 1ª à 4ª marcha, são engrenagens PPG, enquanto a 5ª e a 6ª são Graf, vindas da Argentina. As marchas são bem mais longas: de acordo com Alam, enquanto no Si original, a velocidade em quinta marcha a 8.500 rpm é de 215 km/h, o Black Bull vai até 220 km/h na quarta, atingindo 275 km/h em quinta e mais de 300 km/h em sexta.

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A suspensão traz amortecedores e molas do tipo coilover da Skunk2, enquanto os freios usam um conjunto misto, com discos, pinças e pastilhas de marcas diferentes, importas do Japão e do Reino Unido. Os pneus dianteiros são drag street Nitto NT01, de medidas 245/40 R18.

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Se você acha que estes 1.006 cv (considere esta potência como dentro dos parâmetros do dinamômetro utilizado) são suficientes, se prepare. O turbocompressor vai ganhar uma carcaça maior, permitindo um maior fluxo – o objetivo da Rev It Up é trabalhar com pouco mais de 2 bar no Black Bull, mais de 25% de acréscimo. Como Alam havia comentado, os injetores atuais estão em seu limite, e por isso o sistema receberá mais quatro bicos, com o coletor de admissão devidamente retrabalhado. Será que veremos este K23 encostando nas 10 mil rotações por minuto?

Para se ter uma ideia do que o Civic Black Bull faz nesta última evolução, de acordo com Alam, em uma recente comparação que eles fizeram com dados de Vbox (sistema de aferição de números por GPS, utilizado largamente por preparadoras e fabricantes por sua precisão) com um Nissan GT-R de 1.470 cv nas rodas (bastante conhecido no meio dos exclusivos), o Black Bull foi apenas 0,3 segundo mais lento nas retomadas de 200 km/h a 260 km/h.

Os números aferidos pelo VBox (como usa sinal de GPS, impossibilita o uso em dinamômetro) são aterrorizantes: de 100 km/h a 200 km/h em 5 segundos cravados. De 100 km/h a 260 km/h em 9,10 s. De 200 a 260 km/h em 4,1 s. É como se a resistência aerodinâmica não existisse ou se não fosse exponencial. Sobre a polêmica em torno da potência aferida na passagem do dinamômetro frente à pressão declarada de 1,68 bar, a Rev It Up já se manifestou em algumas postagens no Facebook:

(…) Nosso foco não é fazer um “Rei do Dino” e sim um carro 4 cilindros de rua e com tração dianteira que ande bem nas provas de 800 metros. Vamos ver como ele vai se sair nessas condições, tendo 500, 700 ou 100cv. Os bicos que usamos nele acabaram com 1.7kg e não existem bicos maiores para esse caso. Teremos que colocar outra bancada pra subir a pressão. O carro estará em contínuo desenvolvimento. Pra primeira fase estamos satisfeitos.”

(…) Um número em um papel é somente um número em um papel quando confrontado com os resultados de outros carro de potência e torque parecidos. As coisas acontecerão de forma natural, não adianta ninguém desesperar com coisas como: Não tem essa potencia etc. A verdade sempre aparece. Se ele passar direitinho como carros de 900 a 1000 cv acredito que será o suficiente pro pessoal que está afim de comprovar ter mais dados.”

Não temos dúvida de que este é um dos projetos mais radicais a circular nas ruas do Brasil e que mostra o potencial astronômico dos motores K-Series. Como sempre dizemos aqui no FlatOut, o K20 e seus derivados são como bacon: vão bem em tudo. E no caso deste Black Bull, temos uma montanha de bacon de primeira.

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