O Dacia Duster já foi um jipe 4×4 de verdade

Dalmo Hernandes 11 julho, 2018 0
O Dacia Duster já foi um jipe 4×4 de verdade

Lançado em 2009, o Renault Duster é um dos SUVs mais bem-sucedidos dos últimos anos. Não é difícil entender o motivo: em um mercado dominado pelos ditos utilitários esportivos, o Duster oferece o visual típico da categoria, mecânica conhecia e de manutenção simples, bom vão livre do solo e, em algumas versões, até mesmo tração nas quatro rodas sob demanda para as massas.

Agora, como você deve saber, tanto o Sandero quanto o sedã Logan e o Duster são projetos da Dacia, subsidiária da Renault na Romênia. A Dacia foi fundada em 1966 e desde o início dedicou-se a fabricar produtos da Renault sob licença, começando pelo Renault 8, rebatizado como Dacia 1100.

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Em 1969 começou a ser fabricado o Dacia 1300, versão romena o Renault 12 que foi a base para a maioria dos carros de passeio da Dacia até a década de 1990. Em 1999 a Dacia foi adquirida pela Renault, que começou a utilizar projetos desenvolvidos pelos romeno, para criar seus modelos de baixo custo em países emergentes. Mas eles acabam fazendo sucesso também em países desenvolvidos, especialmente no Reino Unido. James May agradece.

Nos anos 80, porém, a Dacia tinha outra parceira – uma fabricante conterrânea. Seu nome era ARO, abreviação de Auto Romania, e desde sua fundação em 1957 a companhia dedicou-se a veículos off-road. Seu produto de maior notoriedade nas primeiras décadas de existência foi o ARO M461, versão romena do jipe soviético GAZ-69, que foi fabricado até 1975.

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Foi só em 1972 que a ARO lançou seu primeiro modelo projetado in-house: o ARO 24 Series. Era um típico jipe dos anos 70, com linhas que ecoavam Land Rover e Mercedes-Benz Classe G, porém com um indefectível “jeito” de utilitário do Leste Europeu (embora, tecnicamente, a Romênia seja um país do centro-sudeste da Europa). Talvez fossem as proporções meio, bem, desproporcionais, os faróis emprestados do Renault 12 e a linha de cintura saliente, por exemplo.

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O ARO 24 Series foi fabricado de 1972 a 2006, e foi um daqueles jipes que não mudaram quase nada em muito tempo porque a receita original simplesmente funcionava. Uma variedade de motores foi usada ao longo de 34 anos, com opções da Ford, Chrysler, Toyota e da própria ARO – de um quatro-cilindros de 2,5 litros e 67 cv a um V6 de quatro litros desenvolvido pela Cosworth e capaz de entregar 207 cv. Havia também versões com motor a diesel turbo ou naturalmente aspirado, e a tração podia ser traseira ou 4×4 permanente.

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Houve até uma versão brasileira, da qual poucos vão lembrar: o Cross Lander CL-244, que foi fabricado entre 2002 e 2005 na Zona Franca de Manaus pela então recém-fundada Cross Lander do Brasil. Apesar de planos ambiciosos, que incluíam a fabricação de 800 unidades por ano e até exportações para os Estados Unidos. Apesar do preço atraente – o CL-244 era o 4×4 mais barato do Brasil – a pequena quantidade de revendas autorizadas (apenas 16 em todo o País) e o cancelamento das exportações acabaram tornando bastante difícil a vida da empresa brasileira, que acabou fechando as portas em apenas três anos.

OK, FlatOut, mas e o Duster?, pensou o leitor. Pois bem: na Romênia o sucesso prolongado do ARO Series 24 motivou o desenvolvimento de um “irmão menor”, que foi lançado em 1980. Se o ARO 24 tinha o porte de um Land Rover, o ARO 10 era do tamanho de um Jeep Wrangler, com 3.910 mm de comprimento, 1.705 mm de largura e 2.400 mm de entre-eixos.

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O pequeno SUV foi lançado em 1980, e tinha versões com motor a gasolina e a diesel, sempre com quatro cilindros. Os primeiros exemplares usavam mecânica de origem Dacia, o que foi o primeiro passo para que, em 1984, a Dacia decidisse vender sob licença o ARO 10 no Reino Unido. Seu nome? Dacia Duster.

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O Duster usava um motor Dacia de 1,3 litro e 54 cv com o qual era capaz de chegar aos 90 km/h, e por isso não demorou para que fosse substituído por um 1.4 de 67 cv, o que aumentou sua velocidade máxima para 117 km/h. Como curiosidade: entre os vários motores oferecidos pelo ARO 10 ao longo de sua existência está o Volkswagen EA827 – do qual o famigerado motor AP é derivado – em uma versão de 1,6 litro e 75 cv. Basicamente um motor de Passat.

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Dissemos que o Dacia Duster já foi um jipe 4×4 de verdade, e certa forma ele era competente nisto. Em uma avaliação da revista britânica Autocar publicada em agosto de 1985, comenta-se que o pequeno SUV era “capaz de ir a qualquer lugar par aonde um fã de off-road relativamente inexperiente em busca de aventura” pudesse querer levá-lo”.

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No entanto, ao falar sobre os outros apectos do Duster, os jornalistas não seguraram as críticas. “Ele deve seu baixo preço a sua origem no Leste Europeu, e como alguns outros produtos dessa parte do mundo, sofre um pouco com falta de atenção aos detalhes na qualidade de construção e acabamento”, observa a avaliação. Menciona-se também o fraco desempenho do motor de 67 cv, que não condizia com o alto nível de ruído no interior do carro; a direção pesadíssima em baixa velocidade e os engates difíceis do câmbio.

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Por outro lado, o Dacia Duster custava pouco mais da metade do preço de um Land Rover de entre-eixos curto. O que não ajudou muito, no fim das contas, e tirou o jipe romeno do mercado britânico poucos anos depois. Bem diferente do que aconteceu com o atual Dacia Duster, que fez tanto sucesso que sua recém-lançada segunda geração manteve as dimensões e o estilo da primeira, aproveitando boa parte da plataforma original.

Via Jason Vogel