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História

O encontro de dois mundos: quando o Renault 5 Turbo do Grupo B foi pace car da Fórmula Indy

O automobilismo certamente é o esporte mais diverso que existe. Arrancada, corridas em ovais, rali, turismo, protótipos-esporte, Fórmula 1, IndyCar… e por aí vai. Normalmente fica “cada um no seu quadrado” mas, de vez em quando, dois mundos colidem. Como em 1982, quando um dos carros mais emblemáticos do Grupo B de rali foi pace car da Fórmula Indy. Loucura, não?

Aconteceu justamente na época em que a Renault investia no mercado norte-americano através de uma parceria com a AMC, no início da década de 1980 – era o início das relações da Renault com a Chrysler, que comprou a AMC em 1987.

Naquele momento, a AMC estava interessada em um modelo de entrada, menor e mais acessível do que qualquer outro carro desenvolvido in-house, para conquistar potenciais clientes dos importados japoneses. A Renault se beneficiaria com a presença no mercado norte-americano, e aproveitaria para distribuir modelos da Jeep (que eram fabricados pela AMC) na França.

O primeiro fruto desta parceria veio em 1976: uma versão rebatizada do hatchback Renault 5, vendida nos Estados Unidos como Renault Le Car. Desde o lançamento, o Le Car era elogiado pela economia de combustível, pelo espaço interno e pela suspensão confortável – e as avaliações da imprensa sempre o colocavam como a melhor opção no segmento de entrada. Mas ele demorou para emplacar nas vendas, talvez pelo tamanho diminuto. Os norte-americanos nunca foram culturalmente acostumados a modelos de pequeno porte.

Entre as décadas de 1980 e 1990, a fabricante de pigmentos e tintas PPG era a patrocinadora principal da Fórmula Indy. E eram eles quem escolhiam as fabricantes que ficariam responsáveis por fornecer os pace cars – que, no fim das contas, eram uma forma de publicidade.

Naquele ano, a convidada foi a AMC – que podia escolher qualquer carro no portifólio do grupo para usar como ponto de partida. Talvez para ajudar a melhorar a imagem do pequeno francês, a AMC decidiu escolhê-lo. Exceto que, em vez de usar a versão comum do Le Car como base, a fabricante decidiu mover seus pauzinhos junto à Renault e levar para os EUA um exemplar do Renault 5 Turbo, seu primo anabolizado.

Como contamos neste post, o Renaut 5 Turbo foi lançado em 1980 para competir no WRC – antes mesmo da criação do Grupo B de rali. Apesar de usar o monobloco do hatch como ponto de partida, ele trazia diversas modificações importantes: o motor, que antes ficava debaixo do capô, ia parar atrás dos bancos; e a carroceria recebia para-lamas bem mais largos para acomodar as bitolas e pneus maiores. O quatro-cilindros de 1,4 litro, com comando no bloco e duas válvulas por cilindro, (muito semelhante a motor que deu origem ao Ford CHT brasileiro), ganhava um turbocompressor Garrett e era acoplado a um transeixo de cinco marchas.

Na variante de rua, o Renault 5 Turbo tinha pelo menos 160 cv. Já a versão de rali podia ultrapassar facilmente os 350 cv, dependendo do acerto. Com ela, a Renault havia conseguido duas vitórias importantes no WRC: o Rali Monte Carlo de 1981 e o Tour de Corse de 1982.

Por mais que os ralis fossem algo praticamente desconhecido nos Estados Unidos daquela época, o diretor de design das operações AMC/Renault nos EUA, Dick Teague, viu o Renault 5 Turbo a inspiração perfeita para o projeto. Nascia ali o Renault 5 Turbo II PPG Indy Pace Car.

Teague foi o responsável pelo estilo do carro, e recebeu ordens expressas da França para não alterar demais a identidade visual do hot hatch. O resultado foi uma versão mais limpa do modelo original (cujas linhas haviam sido traçadas por Marcello Gandini, do estúdio Bertone, e exibiam clara influência italiana), construída em fibra.

A dianteira perdeu a grade original e ganhou uma cara mais lisa, conservando apenas os faróis. Os quatro para-lamas também foram alargados, e a área envidraçada foi toda refeita, com as janelas maiores e mais rentes à carroceira, dando a impressão de ser tudo uma peça só.

Foto: Sunspeed

A traseira também adotou uma identidade visual nova, co, uma enorme saída de ar com uma grade preta que percorria quase toda a largura do carro. As lanternas traseiras ficavam ocultas nas extremidades da grade.

Tudo isto posto, a maior diferença do Renaut 5 Pace Car em relação ao modelo produzido em série eram as portas asa-de-gaivota, elemento que Teague considerava essencial para o conceito, e que utilizava componentes emprestados do DeLorean DMC-12. Não foi difícil consegui-los – afinal, a Renault estava envolvida no projeto o motor PRV (Peugeot Renault Volvo) utilizado pelo esportivo de John DeLorean.

Não encontramos fotos claras do interior, mas é bem provável que ele tenha mantido o design criativo usado pelo Renault 5 Turbo de série – abaixo, uma foto para referência.

Outra modificação interessante foi a escolha das rodas: um jogo de BBS de competição calçado com pneus slick Goodyear, muito parecido com o conjunto utilizado pelo Renault 5 que competia na IMSA dos Estados Unidos. Que, aliás, também serviu de inspiração para o esquema de cores.

Depois da temporada de 1982 da Indy, o Renault 5 Turbo II foi desmontado e guardado em um depósito por alguns anos. Depois disto, ele foi comprado pela Sunspeed, firma norte-americana de engenharia que envolveu-se na construção dos Renault 5 que competiram na IMSA GTU no início dos anos 1980. Eles restauraram o carro por completo e, depois, o venderam para uma concessionária espanhola especializada em clássicos. A Classic Road Spain mantém o Renault 5 Turbo II PPG Indy Pace Car em seu acervo e, de tempos em tempos, o expõe em eventos realizados na Europa.

Foto: ForoCoches

Além do Renault 5 Turbo II, a AMC Renault preparou outros dois pace cars para a Fórmula Indy naquele ano: um Alpine A310 modificado e um protótipo com portas asa-de-gaivota chamado Aero Wedge Turbo.

Os dois carros, porém, não tiveram a mesma sorte do Renault 5: seu paradeiro é desconhecido, e não se sabe nem mesmo se eles ainda existem.

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