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O fim do Fiat Palio: nove coisas que você não sabia (ou não lembrava) sobre ele

No último dia 22 de fevereiro o Fiat Palio deixou de ser vendido no Brasil como hatchback após 22 anos ininterruptos de mercado. O carro feito para substituir o Uno no Brasil e em outros países emergentes (enquanto os europeus ganhavam a primeira geração do Fiat Punto) passou por altos e baixos ao longo destas mais de duas décadas, mas no geral foi um carro bem sucedido: após um pico de popularidade na época do lançamento, brigou por anos com o Volkswagen Gol pela liderança do mercado e até a obteve em 2014, interrompendo o longo reinado do rival.

O Palio não ganhou versões esportivas emblemáticas como o Gol ou mesmo o Uno. Aliás, o Palio foi criado para substituir o Uno, mas não conseguiu e teve de aprender a conviver com ele. E não demorou para que formasse família: em 1997 chegavam a perua Palio Weekend e o sedã Siena (este, fabricado na Argentina), e em 1998 estreava a pick-up Strada. Era a família completa, sob medida para encarar também Parati e Saveiro – sem o Voyage, a Volks estava até meio desfalcada.

No total o Palio teve apenas duas gerações. No caso do hatch, a primeira geração deixou de ser oferecida no segundo semestre de 2017, enquanto a segunda geração teve o fim de sua produção anunciado na semana passada – o que colocou um fim no nome Palio de uma vez por todas. O projeto, contudo, sobrevive: Fiat Weekend e Fiat Strada ainda estão em sua primeira geração e ainda não se sabe ao certo qual será seu futuro. Já o Fiat Grand Siena é o sedã do Palio de segunda geração – o Siena de primeira geração só deixou de ser fabricado em março de 2016, quase vinte anos depois do lançamento. Ou seja, tecnicamente as duas gerações do Palio ainda estão por aí, ainda que o hatchback não tenha sobrevivido à estratégia de novos modelos da Fiat, que deu origem ao Mobi e ao Argo.

Sendo um carro vendido por tanto tempo, o Palio passou por muita coisa. Para homenageá-lo (ainda que meio atrasados) nós vamos relembrar algumas curiosidades a respeito do valente compacto da Fiat.

 

O Palio era um Uno melhorado – e moderno para sua época

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O Fiat Palio era um carro mais robusto do que o Punto, perfeito para países emergentes onde as condições de rodagem eram mais severas. Por isto a Fiat aproveitou a plataforma do Uno italiano (o que é evidenciado pelo entre-eixos idêntico em ambos, com 2,36 metros), porém realizou diversas modificações na construção.

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O Palio teve a carroceria projetada pelo estúdio italiano I.DE.A, e seu visual era um dos destaques: apesar de compartilhar muito com o Uno, ele tinha linhas arredondadas, robustas e modernas, com grade embutida no para-choque dianteiro, traseira com lanternas altas e coladas no vidro, cujo visual “recortado” causou preocupação com custos de reparo.

O interior era amplo e a ergonomia era boa – novamente, como no Uno, porém com mais ênfase no conforto e no acabamento. Fica ainda mais impressionante se pensarmos que, depois do Brasil, o Palio foi oferecido em outros países, incluindo em outras versões de carroceria, e que só recentemente começaram a surgir boatos sobre os substitutos da Weekend e da Strada.

 

O Fiat Siena foi (é?) vendido na Coreia do Norte

O sedã do Palio, como acabamos de dizer, ainda é produzido – o Grand Siena, baseado na segunda geração do Palio. A primeira geração durou quase tanto quanto o hatch, e ainda teve tempo de viajar para lugares… improváveis. Como contamos neste post, o Fiat Siena de primeira geração foi o primeiro modelo produzido pela única fabricante de automóveis da Coreia do Norte, a Pyeonghwa Motors, após sua fundação em 1999.

A Pyeonghwa Motors não é afiliada à Organização Internacional dos Construtores de Automóveis, federação sediada na França que coordena as comunicações entre as fabricantes de carros do mundo todo, e por isso, na prática é como se a companhia não existisse para o resto do mundo. Por esta mesma razão é impossível obter dados concretos a respeito de vendas ou números de produção. Não sabemos nem se o Siena ainda é fabricado por lá.

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O que sabemos é que o Siena, rebatizado como Pyeonghwa Hwiparam, começou a ser fabricado em 2002 em regime CKD – a Fiat vendia os carros desmontados para a Coreia do Norte, que se encarregava da montagem e da distrubuição dentro do país. A fábrica tem capacidade para algo entre 10 mil e 50 mil modelos por ano (é difícil ter uma estimativa precisa), mas dizem que raramente são produzidos mais de mil carros por ano. A maioria das pessoas não tem condições de comprar um carro e anda a pé, de bike ou de transporte público. E que pode comprar um carro geralmente prefere os importados.

 

O Siena foi vendido na Turquia como Fiat Albea

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O Fiat Siena também foi fabricado na Turquia entre 2002 e 2012. Em seus primeiros anos, ele tinha o visual dianteiro da primeira reestilização do Palio, adotando a partir de 2006 a dianteira da segunda reestilização. Da coluna “B” para trás, porém, o Albea era diferente: além de ter entre-eixos mais longo (2,44 m em vez de 2,36 m), ele tinha traseira mais baixa e lanternas traseiras mais horizontais.

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O Albea também foi produzido na Rússia (de 2006 a 2011) e na China (de 2002 a 2006). O modelo chinês, contudo, se chamava Fiat Perla e tinha um visual ainda mais distinto na dianteira e na traseira, com faróis e lanternas triangulares e uma traseira ainda mais longa que no modelo turco.

 

O Fiat Palio conviveu com o 147 e com o Premio

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“Qual é, FlatOut, tão ficando malucos? O Palio começou a ser fabricado em 1996! Vocês já viram um Fiat 147 1996?”

Calma, caro leitor: sabemos que o Fiat 147 deixou de ser fabricado no Brasil em 1986, dez anos antes. Mas na Argentina ele existiu até 1997, pois custava pouco e vendia bem – mais ou menos como aconteceu com o Fiat Uno de primeira geração, que resistiu bravamente até 2014 e só foi detido pela obrigatoriedade de airbags e ABS para todos os carros novos vendidos o Brasil.

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Já o Fiat Premio deixou de ser produzido no Brasil em 1994, mas continuou em linha até 1996 importado da Argentina. A Fiat sequer se deu ao trabalho de mudar o nome do carro, que era vendido como Fiat Duna e equipado exclusivamente com o motor Sevel 1.6 com injeção eletrônica e 83 cv. Lá fora ele continuou produzido até 2000!

 

O Palio foi o primeiro compacto nacional com freios ABS e airbag duplo

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Muito antes da obrigatoriedade dos dois equipamentos a Fiat ofereceu (como opcional, é verdade) freios ABS e airbags para as duas versões disponíveis para o Palio no lançamento: a mais simples EL, com motor de 1,5 litro e 8 válvulas; e a de topo 16V, que como o nome indicava tinha um motor 1.6 16v de 106 cv com injeção eletrônica multiponto. Foi o primeiro carro pequeno com airbag duplo e ABS no mercado.

 

O Palio foi vendido com o volante do lado “errado”

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Não, não houve uma versão do Palio vendida na Inglaterra e nem no Japão: saiba que na África do Sul também se usa a mão inglesa, e o Palio começou a ser fabricado por lá em 1999 e se manteve no mercado até 2004. Detalhe: quem fabricava o Palio e a picape Strada na África do Sul era a Nissan, com quem a Fiat firmou um acordo para dividir seus recursos de produção.

 

A Strada é vendida como Ram no México

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A menor picape oferecida pela Ram, a divisão de picapes da Chrysler, é a… Fiat Strada. A não ser que tenha chegado hoje de Marte, você provavelmente sabe que a Fiat hoje é dona da Chrysler. Um dos frutos desta união foi a Ram 700, versão rebatizada da Strada vendida no México desde 2015, em versões de cabine simples ou dupla.

O motor é exatamente o 1.6 16v usado no Brasil, com 115 cv, acoplado a uma caixa manual de cinco marchas. As únicas diferenças visíveis em relação à Strada são os emblemas e o nome.

 

O Palio é o inventor dos “aventureiros urbanos”

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Hoje em dia praticamente todo veículo pequeno vendido no Brasil tem uma versão com apelo “fora-de-estrada” – suspensão elevada, adereços de plástico sem pintura na carroceria e visual mais robusto, sem necessariamente serem capazes de enfrentar terrenos ruins com desenvoltura (por isso as aspas). O VW Gol tem a versão Cross, o Fox teve o Crossfox, o Renault Sandero tem o Stepway, o Honda Fit tem a versão Twist, a Citroën tem seus modelos Aircross, a Peugeot teve a perua 206/207 Escapade… a lista vai longe. E tudo começou com o Palio Adventure, em 1999.

A versão com molduras nos para-lamas, suspensão mais alta, para-choques sem pintura e uma barra de proteção na dianteira foi a verdadeira pioneira dos “aspirantes a utilitário”. Alguns insistem em dizer que o Ford Ecosport é o maior culpado desta tendência, mas o SUV compacto feito com base no Fiesta só chegou ao mercado em 2003. A família Adventure acabou se tornando a “marca” da Fiat, estendida à Strada, à minivan Idea e ao furgão Doblò. E ainda deu origem à linha Way para o Uno Mille em 2006.

 

Palio Racing, o carro de corrida órfão

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Em 2016 o nosso editor-chefe Juliano Barata deu um rolê no autódromo José Carlos Pace, em São Paulo/SP, com um unicórnio: o último dos três protótipos do Fiat Palio de competição criado para as 24 Horas de Interlagos. O projeto de Ricardo Dilser, acessor técnico da FCA, tinha como objetivo colocar três exemplares do Palio na prova de longa duração. Eram meados de 2013, e a corrida estava marcada para janeiro de 2014.

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Os carros eram gêmeos, e tinham uma receita bem interessante: o motor 1.6 16v com taxa de compressão ampliada para 14,3:1, coletor de escape fluxado, comando mais bravo (com capacidade para até 8.000 rpm) e tuchos hidráulicos em vez de mecânicos, o motor do Palio passou a entregar 170 cv a 7.300 rpm e 19,3 mkgf a 5.700 rpm. A suspensão tinha ângulos de cambagem e cáster bastante agressivos e, por conta disto, um comportamento bastante traseiro na hora de atacar as curvas, diferentemente da maioria dos carros de corrida com tração dianteira.

O carro serviu como plataforma de testes para a equipe de engenharia da Fiat e certamente tinha potencial, mas as 24 Horas de Interlagos jamais passaram de boatos. Depois disto, Dilser foi obrigado a destruir dois dos carros, mas conseguiu preservar um deles – que originalmente tinha carroceria branca, mas foi pintado de amarelo e ainda espera pela chance de poder participar de uma grande prova no Brasil.

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