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O Lada Niva mais caro do mundo: você pagaria R$ 300 mil (!) por ele?

Eu sou fã do Lada Niva, nunca escondi de ninguém. O utilitário soviético foi lançado em 1977, depois de pelo menos cinco anos de testes, foi o primeiro SUV produzido em série com construção monobloco, é estiloso (ao menos para mim, e eu sei que este é um critério subjetivo) e, bem, já completa mais de 40 anos sem alterações profundas em seu projeto e com o mesmo visual básico.

Para minha sorte o Niva foi importado para o Brasil oficialmente entre 1990 e 1997 (com um pequeno lote de algumas dezenas de unidades importadas por um concessionário em 1999) e, ao lado de outros modelos da Lada, como o Laika e o Samara, ajudou a fabricante a chegar à marca dos mais de 70.000 carros vendidos. Os carros soviéticos que vieram para o Brasil, e venderam razoavelmente bem em 1991, 1992 e parte de 1993. Foi quando entrou em vigor a legislação para carros populares, que tornou o Lada pouco atraente frente a opções mais estabelecidas. O golpe final veio em 1996, quando o governo aumentou os impostos para companhias que não tinham fábricas instaladas no País, matando o maior argumento de vendas da Lada: o preço baixo.

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Isto não impediu, contudo, que os fãs do Lada Niva continuassem cultuando o 4×4 como uma das melhores opções para encarar trilhas pesadas – e logo surgiram receitas para adaptar peças mais comuns de outros carros no utilitário russo. Afinal, ele foi criado para as condições severas das vias siberianas – ou mesmo a falta delas – e, assim, não é qualquer obstáculo que é capaz de tirá-lo de circulação.

Para minha sorte o Niva não é um carro caro e, no Brasil, com menos de R$ 30 mil é possível comprar um exemplar em ótimo estado, talvez até com motor AP (bem mais robusto e fácil de manter que o original da Lada). Agora, já imaginou pagar dez vezes este valor por um Niva todo surrado, que provavelmente nem é capaz de rodar? Pois esta possibilidade existe – há um Lada Niva prestes a ser leiloado pela RM Sotheby’s que, de acordo com a agência de leilões britânica, tem chances de ser arrematado por £ 75.000, ou exatos R$ 305.307 em conversão direta, na cotação de hoje.

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Dito isto, a RM oferece uma boa justificativa: o Niva em questão, fabricado em 1979, participou do rali Paris-Dakar em 1981. Não, ele não ganhou – sequer conseguiu terminar a prova.

Como você deve saber (especialmente se já leu este post), o Paris-Dakar, hoje Rally Dakar, é um dos ralis de resistência mais impiedosos do planeta. Disputado desde em 1977, o piloto francês Thierry Sabine ficou perdido no meio do Deserto do Ténéré, no coração do Saara, norte do continente africano. Ele conseguiu voltar para casa depois, e desta desventura surgiu a ideia de disputar uma corrida naquele mesmo deserto no ano seguinte. Com o passar dos anos o Paris-Dakar mudou algumas vezes de localização e atualmente, apesar de sequer ser realizado no eixo entre a Europa e a África, manteve o nome Rali Dakar por uma questão de popularidade.

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Na França o Lada Niva era vendido pela importadora do empresário Jacques Poch, que se tornou o representante oficial da Lada naquele país. O carro que aparece nas fotos foi comprado por um homem chamado François Jeanson, que inscreveu-se na edição de 1981 do Paris-Dakar com seu filho como navegador. Era a terceira edição da prova, cuja largada aconteceu em Paris no dia 1º de janeiro, com a chegada em Dakar, no Senegal, prevista para o dia 20.

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O jipe recebeu peças de fibra de vidro na carroceria (capô, tampa do porta-malas e portas), suspensão reforçada, protetores para os para-choques dianteiro e traseiro, luzes auxiliares e um tanque de combustível com maior capacidade. O motor de 1,6 litro carburado, com apenas 76 cv, não foi modificado, e nem o sistema de tração 4×4 com reduzida.

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O carro ganhou a inscrição #167, e foi um dos doze exemplares do Niva a participarem do Paris-Dakar em 1961. Outros 170 carros, 15 caminhões e 106 motocicletas foram inscritos – e, como é bem conhecido, apenas uma fração destes veículos terminou a prova. A RM não dá detalhes sobre o andamento da prova para o Lada Niva dos Jeansons, mas é conhecido que ele abandonou prova antes do fim.

O carro permaneceu com a família Jeanson até 2009, quando foi comprado por seu atual proprietário. Este, conhecendo o histórico do carro, decidiu preservá-lo como estava desde os anos 80, e o deixou em sua coleção por quase uma década. O Niva acompanha toda a papelada que registra sua participação no Paris-Dakar, incluindo artigos de revistas e fotografias.

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É o suficiente para justificar um valor estimado em R$ 300.000? Dificilmente, se tratando de um Lada Niva. Tanto que o carro visualmente lembra bastante qualquer outro Niva preparado para trilhas que possa eventualment ser vendido. E, como dissemos, ele muito provavelmente ele sequer está em condições de rodar. Veremos depois do dia 5 de setembro, data para a qual está marcado o leilão em Londres, no Reino Unido.

Agora, se os caras esperam arrecadar até R$ 300.000 por um Lada Niva que nem terminou o Rali Dakar, imaginamos qual seria o valor estimado pelo exemplar que chegou na terceira colocação naquela mesma prova.

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O carro foi inscrito por Jean Claude Briavoine e Bernard Clerisse, que haviam participado da edição anterior, em 1980. Eles conseguiram o apoio do importador Jacques Poch e, com isto, tiveram condições de preparar melhor o Niva para a prova, o que lhes rendeu o 3º lugar na classificação geral, atrás apenas de um Range Rover V8 e de um protótipo de buggy.

No ano seguinte, 1982, a dupla Briavoine/Clerisse ficou com a segunda colocação, perdendo apenas para um Renault 20 Turbo.

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Leonardo Contesini
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