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Car Culture

O Porsche 718 Cayman GT4 Clubsport usa mesmo maconha no interior e na asa traseira?

Há alguns dias a Porsche apresentou o novo Cayman GT4 Clubsport, versão exclusiva para as pistas de seu esportivo de motor central-traseiro. O carro é movido por uma versão de 425 cv do motor flat-six de 3,8 litros usado pelo modelo anterior, acoplado à transmissão PDK de dupla embreagem e seis marchas. O carro de corrida ainda tem a suspensão dianteira do Porsche 911 GT3 Cup e diferencial com bloqueio mecânico, formando um conjunto perfeito para as pistas.

Contudo, um outro detalhe chamou a atenção do público e da mídia em relação ao 718 GT4 Clubsport: o material utilizado pela Porsche nos revestimentos das portas e na asa traseira, que é um compósito chamado pela fabricante de “fibra natural”, feito com fibras de linho e cânhamo, uma variedade de Cannabis.

Não foram poucos os veículos da imprensa que, ao comentar o exotismo do material, não resistiram à tentação da associação fácil e chamaram logo o material de “maconha”.

Mas… será mesmo que a Porsche colocou maconha em seu novo brinquedo de pista?

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Tecnicamente não. Maconha é o nome que popular um grupo de plantas do gênero Cannabis utilizadas como droga recreativa, cujas espécies mais conhecidas são a Cannabis sativa e a Cannabis indica. O que a Porsche utilizou no 718 Cayman GT4 Clubsport outra espécie do gênero Cannabis – a Cannabis ruderalis, mais conhecida como cânhamo – que, caso você não tenha percebido, é um acrônimo de “maconha”.

Plantação de cânhamo no Uruguai

 

Embora seja muito parecida com a maconha, o cânhamo tem algumas características próprias. A planta é menor que as outras espécies de Cannabis, possui um caule mais fino e fibroso e tem poucos galhos, com folhas maiores e abertas. Sua característica mais distinta é a florada: as outras espécies de Cannabis são fotoperiódicas, ou seja, sua florada depende do comprimento dos dias e das noites – elas costumam florescer no inverno, quando os dias são mais curtos que as noites. Já a Cannabis ruderalis floresce com base na maturidade da planta, independentemente da relação entre o comprimento do dia e da noite. Além disso, naturalmente o cânhamo possui um nível de THC mais baixo do que a maconha, e as variedades cultivadas geralmente têm a substância completamente eliminada.

Fibra de cânhamo

Por conta destas características, boa parte dos botânicos classifica o cânhamo como uma espécie separada. Existe, no entanto, uma parcela de cientistas que defende que a Cannabis ruderalis não passa de uma subespécie da Cannabis sativa.

É fato, porém, que as particularidades do cânhamo dão à planta diversas utilidades. É do cânhamo, e não da maconha, que se extrai a fibra natural que foi utilizada pela Porsche. Também conhecida como filame, é uma fibra muito resistente que possui diversas aplicações na indústria. O cânhamo é utilizado na fabricação de papel, por exemplo, porque seu rendimento é quatro vezes superior ao do eucalipto em um período vinte anos. Na indústria têxtil, a força das fibras faz do cânhamo uma excelente alternativa ao algodão.

Tênis Adidas Hemp, feito com fibra de cânhamo, ícone dos anos 1990 que já foi relançado pela marca algumas vezes

O óleo da semente de cânhamo costuma ser empregado pela indústria de cosméticos na composição de cremes, shampoos e óleos hidratantes; e também na produção de vernizes, lubrificantes, biocombustíveis e tintas. Já as sementes e folhas do cânhamo podem ser consumidas por seres humanos ao natural ou processadas como farinha, barras de cereal e até mesmo tofu.

Além disso, o cânhamo é bem mais rico que a maconha em canabidiol, ou CBD, substância similar ao THC que não possui efeito psicoativo, mas já vem sendo empregada pela medicina há alguns anos no tratamento de enfermidades como câncer, esquizofrenia, ansiedade crônica, epilepsia, psicose, Mal de Alzheimer e Mal de Parkinson.

Voltando ao Porsche 718 Cayman GT4 Clubsport, o cânhamo teve suas fibras utilizadas junto com o linho para criar um material muito parecido com a fibra de carbono em maleabilidade, aparência e leveza. Até mesmo as técnicas de moldagem são parecidas com a fibra de carbono: os revestimentos de porta foram feitos usando moldagem por transferência de resina, enquanto a asa traseira foi fabricada por pré-impregnação.

Embora não seja resistente quanto a fibra de carbono (o que a torna inutilizável em componentes estruturais), o material desenvolvido pela Porsche é quase tão leve – para efeito de comparação, um revestimento de porta de fibra natural pesa 5 kg, enquanto uma peça equivalente de fibra de carbono pesa 4,5 kg.

Existem, também, algumas vantagens práticas: o processo de fabricação da fibra natural consome muito menos energia; e conforme a Porsche contou à americana Road and Track, o compósito absorve até cinco vezes mais vibrações que a fibra de carbono e, diferentemente desta, não produz lascas quando se quebra – o que, em caso de um acidente na pista, gera menos resíduos.

A Porsche pretende, futuramente, aperfeiçoar a fibra natural para reduzir o custo de produção, que ainda é mais alto que o da fibra de carbono e, com isto, impossibilita o emprego do material em automóveis produzidos em grande volume – algo que a fabricante pretende colocar em prática no futuro, produzindo componentes não estruturais como para-lamas ou capôs de cânhamo. Que, reforçando, é diferente de maconha.

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