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Técnica Zero a 300

O que é dupla-debreagem? Para que serve e como se faz?

Você já ouviu falar em câmbio tipo “caixa-seca”, não? É um termo que costuma aparecer nas histórias antigas que seu avô (ou seu pai, dependendo da idade dele) contam sobre como era difícil dirigir os carros do passado.  “Caixa seca” é o nome popular para o câmbio com marchas não-sincronizadas, e a dificuldade em dirigir esses carros se deve, em parte, a uma técnica necessária para manejar a caixa seca: a dupla-debreagem.

Para entender o que é a tal dupla-debreagem, e por que ela é considerada uma técnica para conhecedores das máquinas, é preciso primeiro entender como funciona um câmbio manual.

O câmbio manual é baseado em três eixos independentes, o eixo de entrada, o eixo de saída (ou eixo piloto) e o eixo auxiliar (ou contra-eixo). O eixo de entrada é ligado à embreagem (e por ela ao motor), e leva o movimento do motor ao câmbio. Lá dentro esse eixo de entrada é conectado ao eixo auxiliar, peça que transmite o movimento do eixo de entrada ao eixo de saída.

Quando trocamos as marchas, o que acontece lá dentro do câmbio é a mudança da relação entre o eixo de entrada e o eixo secundário. Essa mudança de relação varia a diferença entre o número de voltas do eixo de entrada (velocidade do motor) e o número de voltas do eixo de saída (velocidade da transmissão). Colocado de forma simplificada, ela varia a velocidade do eixo de saída.

Como vimos no vídeo, todo esse conjunto de engrenagens está girando constantemente, mesmo quando não conectados ao eixo (as marchas que não estão em uso ficam somente “apoiadas” sobre ele) e por isso elas giram em velocidades diferentes. Na hora de mudar as marchas, há um anel entre a luva de engate (chamada de “casca” no vídeo) e a engrenagem da marcha que faz a sincronização entre os dentes da luva e os dentes da engrenagem para que a troca de marcha seja suave. Esse é o tal anel sincronizador.

 

Então para que serve a dupla-debreagem?

Nos câmbios tipo “caixa-seca” esse anel não existe. Eles só foram inventados na década de 1920 e levaram mais 30 ou 40 anos para se tornarem o padrão da indústria. A sincronização das marchas era feita pelo próprio motorista usando a dupla debreagem (ou dupla embreagem; que não tem nada a ver com os câmbios de embreagem dupla, logicamente) tanto nas subidas de marcha quanto nas reduções.

 

E como eu faço isso?

Embora pareça complicada ao ler a descrição, ela é uma técnica simples. Como exemplo, você está em primeira marcha e precisa mudar para a segunda. Então você pisa na embreagem, coloca o câmbio em ponto-morto e solta a embreagem (acoplando a transmissão ao motor novamente). Isso fará a queda da velocidade do motor (eixo de entrada) influenciar diretamente a velocidade da engrenagem da marcha seguinte, colocando-a mais ou menos na rotação correspondente à marcha seguinte. Quando o motor atingir essa rotação, você pisa novamente na embreagem e engata a marcha (deslizando a luva de engate sobre a engrenagem seguinte).

Nas reduções o processo tem uma diferença na segunda etapa. Você vem em terceira marcha, pisa na embreagem, coloca o câmbio em ponto-morto e solta a embreagem. Com o motor e o câmbio acoplados, você aumenta a velocidade do motor (e consequentemente do câmbio) até a rotação correspondente à marcha menor. Ao atingir essa rotação, basta embrear, e reduzir a marcha.

Os processos parecem lentos, mas na prática é tudo feito de forma tão rápida e intuitiva quando a troca de marchas comum, com uma só debreagem.

 

Ainda serve para alguma coisa hoje em dia?

Apesar de ter caído em desuso com a popularização dos câmbios sincronizados, a técnica ainda é usada por motoristas de caminhão (como no vídeo acima) e é até mesmo obrigatória para obter a habilitação para caminhões pesados nos EUA, que geralmente usam câmbios não-sincronizados por uma questão de maior resistência e durabilidade.

Em câmbios sincronizados, contudo, a técnica não serve para muita coisa a não ser estender a vida útil dos anéis sincronizadores. É por isso que Dom Toretto, ao zoar Brian por não saber usar a técnica em “Velozes e Furiosos” (2001), acabou cometendo uma gafe que pouca gente percebeu — especialmente porque os tradutores do filme não devem fazer a menor ideia do que seja “double clutching”

“Not double-clutching like you should” – “Sem usar dupla-debreagem como se deve”. No Brasil a dublagem mudou para “Até parece que um almofadinha como você me alcançaria”. 

Em uma arrancada a técnica é completamente desnecessária pois as trocas são feitas no limite de giros, e deixar cair as rotações para trocar a marcha só te fará perder tempo. O que se usa nas arrancadas é “clutch slipping” (“patinar a embreagem”) e “powershifting” (trocar as marchas sem aliviar o acelerador).

Agora, uma situação bastante comum em que se usa a dupla-debreagem quase sem notar, é quando, ao manobrar o carro, você tira da primeira e a marcha à ré não engata de jeito algum. Isso acontece em câmbios nos quais a ré não é sincronizada, e para engatar a ré, você precisa deixar o câmbio em ponto-morto, soltar a embreagem, embrear novamente e aí engatar a marcha.

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