O trágico acidente de Gilles Villeneuve: uma análise médica

Hugo Torres 9 novembro, 2014 56
O trágico acidente de Gilles Villeneuve: uma análise médica

O Doctor Gas de hoje vem contar a história de um dos maiores pilotos da Fórmula 1 que não conseguiram conquistar um título mundial. Na qual muitos consideram a “Era de Ouro” da categoria, muitas figuras se destacaram e são cultuadas atualmente, como Ronnie Peterson, Mario Andretti, James Hunt, Jody Scheckter e Emmerson Fittipaldi. Para os fãs da Ferrari, no entanto, o posto de maior figura da época ficará eternamente dividido entre Niki Lauda e Gilles Villeneuve.

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Joseph Gilles Henri Villeneuve nasceu em janeiro de 1950 em Richelieu, província de Quebec. Membro de uma família de classe média, Gilles teve seu primeiro contato com um volante já aos sete anos de idade graças à insistência de seu pai – imaginamos que da parte dele também não houve objeção. Aos 17, apenas um ano após a aquisição da permissão para dirigir, iniciou sua carreira no automobilismo em corridas regionais de snowmobile e provas de arrancada.

Villeneuve

Demonstrando bastante destreza em suas participações e já pai de seu primogênito Jacques, Gilles entraria em 1972 para a equipe Moto-Ski e no ano seguinte na Fórmula Ford, onde conquistaria o título do campeonato de Quebec e o prêmio de novato do ano. 1974 seria o ano da entrada na Fórmula Atlantic, importante categoria de monopostos na América do Norte naquela década. O desempenho de Gilles foi assombroso em 1976, clamando nove vitórias em 10 corridas e os títulos americano e canadense, além de ser chamado pela McLaren para disputar o GP de Pau, na França, pela Fórmula 2.

Villeneuve

Gilles em seu Formula Atlantic, em 1974

Chancelado por James Hunt, Villeneuve foi convidado para disputar a temporada de 1977 pela mesma McLaren como terceiro piloto, fazendo sua estreia no GP da Grã Bretanha. Segundo o próprio Gilles, a sua experiência com os snowmobiles o dava grande noção de controle e bons reflexos, mas apesar de todo o reconhecimento de suas capacidades o motivo de sua posterior contratação pela Ferrari naquele ano para o GP do Canadá, como substituto de Niki Lauda, era bem mais ingrato: Enzo queria um piloto jovem e inexperiente, para mostrar a todos que o mais importante para a vitória eram os carros, não seus condutores.

Marcado na sua segunda corrida pela Ferrari por conta da morte de um espectador e um fiscal de pista que se encontravam em local proibido, após uma colisão com Ronnie Peterson em Fuji, Gilles passou 1978 lutando com erros e questionamentos da imprensa italiana. Suas performances arrojadas e manobras arriscadas só iriam encontrar um ponto de equilíbrio no fim da temporada, com provas importantes e a conquista do GP do Canadá, sendo até hoje o único canadense a vencer uma corrida em casa.

Villeneuve

 

Com a saída de Carlos Reutemann em 1979, Villeneuve fez dupla memorável com o sul-africano Jody Scheckter. Em disputa apertada naquele ano, ambos conquistaram 3 vitórias, mas a maior regularidade do companheiro o presenteou com o título. Apesar do segundo lugar e de uma sessão de treino assombrosa nos EUA, quando ficou nada menos que 11 segundos à frente de todos os outros pilotos na chuva, a memória mais marcante daquele ano fica para a Disputa (com D maiúsculo mesmo) entre Gilles e René Arnoux no GP da França. Após ser ultrapassado e perder o segundo lugar a 3 voltas do fim da prova, Villeneuve iniciou um ataque feroz a Arnoux, com diversos toques entre as rodas dos dois carros e troca de posições para completar a corrida à frente do francês.

A disputa é uma demonstração do estilo de pilotar de Gilles, e Arnoux o elogiou eternamente por esta performance. A vitória ficou com Jabouille.

Gilles vinha para a temporada seguinte como maior aposta nas casas de Londres, mas o 312T5 decepcionou a todos. Graças à conquista de apenas 6 pontos e mais 2 de Scheckter, seu companheiro decidiu sair da equipe e foi substituído por Didier Pironi. Em 1981 o primeiro carro turbo da Ferrari, 126C, mais uma vez o deixaria na mão por conta do lag absurdo e downforce aquém dos demais veículos do grid. Apesar das adversidades, Gilles ainda conquistaria duas vitórias em Monaco e na Espanha, além de uma atuação nada menos que épica no Canadá, quando o bico de sua Ferrari se partiu antes da metade da corrida e cobriu sua visão por várias voltas até romper por completo. Sob forte chuva e sem asa dianteira em um carro com downforce reconhecidamente ruim, Villeneuve completaria a prova em terceiro lugar.

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Para a temporada de 1982 a Ferrari prometia uma revisão extensa nos carros, com melhoras no chassi e no motor. As modificações pareceram surtir certo efeito, pois Gilles liderava a segunda prova em Jacarepaguá antes de perder o controle do veículo e terminou em terceiro em Long Beach, sendo desqualificado por irregularidades na asa traseira. A quarta prova foi realizada em San Marino e envolveu um episódio daquela que ficou conhecida como a “Guerra FISA-FOCA”.

Nelson Piquet, piloto da Brabham, havia recebido a bandeirada em primeiro no GP do Brasil, mas na inspeção após a corrida teve seu carro declarado abaixo do peso. Sob observação mais minuciosa, os fiscais perceberam um tanque de água de cerca de 26l utilizado para “esfriar os freios”. O tanque se esvaziava durante a corrida e posteriormente seria preenchido para evitar problemas na inspeção. Após a desqualificação do brasileiro, Bernie Ecclestone, então presidente da FOCA (Associação dos Construtores da F1) e da Brabham, resolveu boicotar a corrida de Imola junto ao restante das equipes associadas.

Com este imbróglio, apenas 14 carros iniciaram a corrida e 5 a completaram, com Villeneuve e Pironi a liderar as últimas voltas e protagonizando uma estranha cena. Após uma virtual vitória garantida com a saída dos carros da Renault, os dois receberam ordem de diminuir a velocidade, mas Pironi ultrapassaria Gilles após alguns minutos. Dando o troco depois e pensando que o companheiro queria apenas entreter a torcida, Villeneuve tomou a dianteira e logo reduziu o ritmo novamente. Na última volta, no entanto, Pironi novamente ultrapassou Gilles, desta vez fazendo um corte agressivo à sua frente no fim do movimento para terminar a prova em primeiro lugar. Possesso, Villeneuve prometeu nunca mais falar com o companheiro.

Apenas duas semanas depois teria início a próxima corrida, na Bélgica. No dia da classificação o clima de guerra imperava, e a 8 minutos do fim da última sessão Pironi se punha em sexto lugar, 1 décimo de segundo à frente de Gilles. Com seu último jogo de pneus, Villeneuve vinha em alta na Butte quando avistou Jochen Mass à sua frente, em velocidade inferior. Tentando dar passagem, Mass moveu-se para a direita, mas Gilles também o faria. A Ferrari atingiu a traseira da March a mais de 200km/h e iniciou uma sequência de capotagens, arremessando seu corpo após a ruptura dos cintos a uma distância de 50 metros até a cerca de contenção, aos pés de atônitos fiscais de pista.

Noticiário da época. A colisão ocorre aos 00:17 e no segundo 22 é possível ver o corpo de Gilles atravessando o vídeo

Derek Warwick e John Watson foram os primeiros a parar e socorrer Gilles, já sem respirar e com seu rosto azulado. O primeiro médico chegou após apenas 35 segundos e ao perceber a ausência de respiração logo intubou o piloto, garantindo a ventilação dos seus pulmões e o transporte até o hospital foi feito em 11 minutos. Apesar da prontidão no atendimento, Gilles não recobrou em momento algum a consciência e foi declarado morto na mesma noite, na presença de sua esposa.

Infelizmente a prova no dia seguinte não viu grandes homenagens a Villeneuve, ao contrário do que esperavam e queriam os colegas de grid. Após a vitória de Keke Rosberg, Pironi passou a conquistar resultados importantes, mas após um acidente brutal em Hockenheim, também na classificação e também com uma Ferrari atingindo a traseira de um carro — desta vez o Renault de Alain Prost —, Didier quase perdeu suas duas pernas e nunca mais voltou a pilotar um Formula 1. No restante da temporada Keke Rosberg levaria dois pódios e uma vitória, ficando com o campeonato.

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O mecanismo

Segundo o relato do Dr. Sid Watkins, a causa da morte de Gilles foi a fratura de vértebras da região do pescoço. Neste tipo de lesão, muito comum nos acidentes com ejeção para fora dos veículos, a maior preocupação é com a medula espinhal, que passa por dentro dos corpos das vértebras. Ela emerge da base do crânio e serve de comunicação entre o cérebro e outras estruturas do sistema nervoso a todos os órgãos e extremidades do corpo.

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As lesões se manifestam de forma clássica como perda de funções motoras (contração muscular) e de sensibilidade. Elas podem se dar em diversos níveis da coluna, que é dividida em porções; as mais baixas, se não contarmos o sacro, estão na coluna lombar. Normalmente as fraturas destas vértebras não têm grande repercussão neurológica, já que a parte mais calibrosa da medula já se dividiu e distribuiu pelas diversas partes do corpo.

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A medula é a porção em amarelo, com a divisão de cores para cada porção de nervos partindo. Reparem que ela termina no nível L1 (primeira vértebra da parte lombar), tudo que vai abaixo é somente raiz nervosa e portanto mais difícil de lesionar.

Com a ascensão do nível, vamos encontrando achados maiores no exame. Vale ressaltar, ainda, que as alterações verificadas podem não ser permanentes e devem ser confirmadas com avaliações posteriores. As fraturas de vértebras torácicas, localizadas logo acima das lombares, costumam vir acompanhadas de perda de força nos membros inferiores (paraplegia) e também da sensibilidade, junto a ausência de controle da bexiga e do ânus.

As vértebras do pescoço ou cervicais são aquelas que inspiram os maiores cuidados. Como elas estão localizadas logo abaixo da saída da medula, os feixes nervosos que as atravessam contém partes das conexões do cérebro com quase todo o corpo. Além das pernas, então, nas fraturas e luxações podem ser vistas tetraplegias e as complicações imediatas mais temidas: o “choque neurogênico”, por perda do controle da circulação sanguínea e déficit na nutrição dos órgãos, e a parada respiratória, por conta da ausência de estímulos controlando os músculos que fazem parte dos movimentos da respiração.

Villeneuve

 

Apesar dos escassos registros sobre o ocorrido com Gilles, a informação de fratura de vértebras cervicais se encaixa no contexto dos fatos que vieram à tona, com parada respiratória quase instantânea na sequência do acidente e dificuldade no manejo das demais lesões que possa ter sofrido, por conta do choque.

 

O que fazer?

Como vimos em textos anteriores, o primeiro passo deve ser sempre frisado e constitui a garantia da segurança do socorrista. A gravidade e a presença relativamente comum de lesões da coluna são ratificadas na já conhecida sequência ABCDE: a segurança das vias aéreas e a imobilização da coluna com colar cervical e prancha rígida são o primeiro ponto a ser abordado, já no item A.

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Os movimentos de rotação, flexão e extensão da coluna podem agravar ou até mesmo causar a perda de funções neurológicas. Por este motivo, caso a pessoa a prestar socorro se sinta insegura ou não tenha o material adequado disponível, a primeira medida será evitar a movimentação do paciente até a chegada da equipe treinada. Evitaremos aqui descrever a colocação do colar cervical e o posicionamento na prancha por ser atitude restrita ao socorrista e estar relacionada a riscos de lesão por imperícia.

Depois da imobilização do paciente – e talvez a intubação, se o mesmo não respirar espontaneamente no momento -, o mesmo deve ser conduzido agilmente a um serviço com experiência nestas lesões e se possível com neurocirurgião de plantão. Algumas sequelas podem ser prevenidas com a intervenção precoce, mas a previsão das mesmas ainda é um processo difícil e pouco confiável. A fisioterapia terá um importante papel na recuperação após o controle do quadro inicial.

 

O legado

Apesar da ausência de manifestações oficiais importantes dos dirigentes na corrida da Bélgica, como local vazio no grid, minuto de silêncio ou mesmo o cancelamento do evento, diversos fãs prestaram homenagens àquele que era considerado o maior showman e mais popular piloto da época. Pouco mais de 5000 pessoas foram a seu funeral, incluindo o primeiro-ministro canadense. Ninguém, no entanto, se surpreendeu com o ocorrido, já que nas palavras do próprio Gilles ele não tinha medo das colisões: “Claro que numa curva em quinta marcha e com a cerca ali, eu não quero bater. Não sou louco. Mas se é o fim da qualificação e você está tentando a pole, acho que dá para esquecer o medo…”

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Jochen Mass foi inocentado no incidente, apesar de questionado por outros pilotos. O acidente de Gilles e outros da temporada de 1982, como os de René Arnoux, Jochen Mass, Ricardo Paletti e Didier Pironi, estimularam o largo uso de fibra de carbono já instituído na McLaren no ano anterior na busca de chassis mais rígidos e resistentes a impactos. A pouca largura do circuito belga de Zolder foi questionada e este só viria a ser palco de uma corrida de F1 mais uma única vez.

Foi incentivado o uso de comunicação dos boxes com os pilotos a fim de alertar sobre os perigos da pista e uma grande discussão sobre os pneus utilizados nas classificações foi levantada, mas sem nenhuma conclusão contrária a seu uso. A busca por mais segurança dento do cockpit foi reforçada, em especial quanto à qualidade dos cintos de segurança.

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Jacques Villeneuve em um dos carros do pai

Tal como aconteceu com Dale Earnhardt, talvez a maior homenagem que Gilles pode ter recebido veio através de seu filho Jacques, com 11 anos de idade à época do seu falecimento. Mundialmente reconhecido, Jacques trouxe novamente o sobrenome à tona em 1995 com a vitória das 500 Milhas de Indianápolis e em 1997, quando se sagrou campeão da F1 sobre Michael Schumacher após uma colisão com o alemão na última corrida da temporada. Até hoje lembra o pai como pode.

Destemido para uns, inconsequente para outros, Gilles está eternizado batizando o circuito de Montreal, no Canadá, e vive na memória de família e fãs que o adoravam pela sua agressividade e arrojo. Como disse o próprio Gilles certa vez, “Se a vida é como um filme, eu tive sorte de atuar nela, de ser o escritor, protagonista e diretor do meu jeito de viver”.