A revista semanal dos entusiastas | jorn. resp. MTB 0088750/SP
FlatOut!
Image default
Automobilismo Car Culture Projetos Gringos

500 cv e 12.000 rpm: Opel Calibra ITC Zakspeed, o monstro de fibra de carbono que nunca competiu

Sabe quanto tempo passou desde 1997? Dezoito anos. OK, desculpe-nos por te fazer se sentir velho em pleno início de tarde de uma terça-feira, mas foi preciso. Isto porque vamos falar de um carro de corrida tão incrível que simplesmente fica difícil acreditar que ele já tem quase duas décadas de existência: o Opel Calibra ITC Zakspeed, protótipo feito sob encomenda da fabricante alemã para dominar uma das categorias mais insanas do automobilismo de pista.

A ITC, ou International Touring Car Championship, foi a categoria que veio depois da DTM. Aconteceu em 1996, quando os organizadores do campeonato de turismo alemão, um dos mais tradicionais dos anos 1980 e 1990 – estamos falando da categoria que deu ao mundo carros como o BMW M3, o Mercedes-Benz 190E Cosworth e o Alfa Romeo 155 V6 Ti – decidiram expandir os horizontes da competição e levá-la a continentes fora da Europa.

O resultado: corridas disputadas também no Japão, em Suzuka; e no Brasil, em Interlagos. Além disso, diversas outras mudanças foram realizadas: a categoria começou a ser sancionada pela FIA, que passou a controlar os direitos de exibição, além de receber uma parte maior do lucro.

O lado bom é que, com mais recursos, a ITC ganhou um regulamento bastante liberal: quase não havia restrições tecnológicas, mecânicas e aerodinâmicas. Por outro lado, com mais dinheiro indo para a FIA, menos recursos financeiros sobraram para as equipes.

O primeiro ano do ITC foi 1996 e, de qualquer forma, foi um sucesso de público. A temporada foi vencida pela Opel, com o Calibra. O carro, preparado pela equipe Zakspeed, tinha um insano motor V6 Cosworth de 2,4 litros feito todo de alumínio. Com curso de 60mm e diâmetro de 94mm, era um motor extremamente girador: sua potência máxima superior a 500 cv aparecia a impressionantes 11.650 rpm, com 31,6 mkgf de torque a 9.000 rpm.

A taxa de compressão era de 12,5:1 e o sistema de alimentação era controlado por um módulo Bosch. Havia também um módulo eletrônico para o catalisador, que podia ser ajustado em três posições diferentes a fim de controlar a potência e as emissões do motor.

De deixar boquiaberto, não? Pois este mesmo motor, por razões óbvias, seria usado no ano seguinte. A temporada de 1997 certamente seria uma das mais insanas — ao menos é o que indica a evolução do Calibra ITC, desenvolvida pela Zakspeed para a Opel, do qual só existe um protótipo.

Atualmente, ele está no museu do Nürburgring Nordschleife — a gente até deu uma olhada nele. É realmente intimidador:

calibra-barata (1)

A fibra de carbono exposta, que dá ao carro todo o jeito de bólido do Darth Vader, é a principal característica do então novo Calibra de corrida, que usava o mesmo motor do ano anterior. Este “X” em cima do capô marca o crossbrace de fibra de carbono — material que substituiu o aço e o alumínio em praticamente todos os lugares possíveis: carroceria, elementos aerodinâmicos, chassi tubular, faróis, lanternas e até o banco do piloto — que, na verdade, é moldado no monocoque. Teoricamente, dependendo das dimensões físicas do piloto, a caixa de pedais (que, veja só, também era de fibra de carbono) e a coluna de direção eram ajustados.

zakspeed-calibra (1)

O resultado de tanto compósito era um carro de 1.040 kg — nada mau para um carro de corrida de 500 cv. De qualquer forma, o visual conferido pela fibra de carbono é apenas o cartão-de-visitas e o baixo peso conferido pelo material, algo meramente esperado. O que impressiona de verdade é o tanto de tecnologias avançadas para sua época que a Zakspeed incorporou no carro.

zakspeed-calibra (2)

Lembre-se: estamos falando de um carro que foi construído há dezoito anos que era equipado com aerodinâmica ativa, suspensão pushrod ajustável eletronicamente e até lastros móveis, que eram posicionados de acordo com o traçado do circuito para otimizar a distribuição de massas e, consequentemente, a dirigibilidade.

zakspeed-calibra (5)

Os sistemas ativos de aerodinâmica e suspensão, em tese eram configurados usando computadores, antes de o carro ir para a pista, e eram capazes de se alterar de acordo com cada trecho do circuito. Este tipo de coisa só começaria a ser vista com mais frequência no fim da década seguinte.

zakspeed-calibra (3) zakspeed-calibra (4)

Outro detalhe bacana é a transmissão. Além de, segundo consta, empregar o mesmo sistema de paddle shifts usado pela Williams na Fórmula 1, o câmbio (na verdade, um transeixo) era posicionado bem atrás do motor. Um eixo cardã ligado diretamente ao virabrequim levava a força do motor ao diferencial central variável, que ficava na parte anterior da transmissão e dividia a força do motor entre o eixo dianteiro e o eixo traseiro. O resultado era um conjunto mecânico que ficava instalado bem baixo no cofre, baixando assim o centro de gravidade do carro e melhorando seu comportamento dinâmico.

Infelizmente, porém, a Opel não dá muitos detalhes. As coisas não são muito claras, mas tudo indica que, tecnicamente, o carro pertence à Opel e, mesmo se quisesse, a Zakspeed não poderia colocá-lo para correr. E, mesmo que pudesse, não seria fácil: o motor é ligado de vez em quando, mas os pneus já são bem velhos e certamente uma boa revisão seria necessária.

zakspeed-calibra (7)

No mais, depois de ser testado por pouco mais de 40 km no fim dos anos 1990, tudo o que o carro faz agora é voltar para a sede da Zakspeed, que fica a poucos quilômetros do Museu de Nürburgring, para ser limpo e ficar em condições de ser exibido por mais algum tempo.

[ Fotos: Juliano Barata, Bryn Musselwhite/Speedhunters ]

 

Matérias relacionadas

Este Chevrolet Opala Chateau foi roubado há 16 anos e agora foi devolvido a seu dono

Dalmo Hernandes

Cobra vs. Cobra: o embate entre dois clássicos americanos no Goodwood Members Meeting

Dalmo Hernandes

Qual é o carro francês mais emblemático da história?

Leonardo Contesini
error: Direitos autorais reservados