Os carros perdidos que a Ford quase fabricou no Brasil

Leonardo Contesini 20 março, 2017 0
Os carros perdidos que a Ford quase fabricou no Brasil

A Ford do Brasil tem uma história curiosa. Ela está aqui desde 1919, quando se instalou na Rua Solon, no bairro Bom Retiro, em São Paulo, para montar modelos importados em regime CKD. Seu primeiro carro de passeio produzido em solo nacional, contudo, só foi lançado em 1967. Seu segundo carro de passeio não era exatamente um Ford, e sim um Willys com sotaque francês. Na mesma época ela ainda produzia o Jeep Willys, que havia sido seu principal “rival” nos anos 1940 e no início dos anos 1990 não tinha um mísero motor de concepção própria — ou eram os CHT, de origem Renault, ou os AP de origem Volkswagen.

Mas esta história poderia ter sido ainda mais interessante se a Ford tivesse colocado em produção uma série de veículos que ela pensou em produzir, mas na última hora achou melhor deixar para lá. São estes carros que conheceremos agora.

 

Belina quatro portas

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No final dos anos 1960, quando a Ford começou a desenvolver a linha Corcel, ela chegou a fazer um protótipo da Belina com quatro portas.

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O modelo foi flagrado pela revista Quatro Rodas em fevereiro de 1969, mas na hora de colocá-la no mercado a Ford decidiu lançá-la somente com duas portas. E assim ela ficou até 1990, quando a Del Rey Belina foi tirada de linha.

 

Corcel Cobra 1970

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Apesar da origem europeia do Corcel — sua plataforma e motores eram compartilhados com a Renault e seu visual inspirado pelo Escord Mk 1 — na hora de criar as versões esportivas do compacto a Ford decidiu buscar inspiração nos modelos americanos. Entre eles estava o Corcel Cobra, que foi apresentado no Salão do Automóvel de 1970.

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O Corcel Cobra era baseado no Corcel GT daquele ano e trazia apenas modificações estéticas — o motor era o mesmo 1.3 com carburador Solex de corpo duplo e 88 cv do modelo produzido em série.

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A inspiração era claramente os modelos preparados pela Shelby na América do Norte: ele trazia scoop no capô, faixas decorativas ao longo da carroceria, spoiler integrado na traseira com um pequeno aerofólio na tampa do porta-malas. O vigia era coberto com uma persiana plástica e o painel traseiro da carroceria era pintado de preto.

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O carro foi para o Salão apenas como um conceito para testar a receptividade do público. Aparentemente o público não gostou tanto da ideia de um Corcel Cobra.

 

Corcel II

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Lançado em 1978, o Corcel II foi o primeiro carro brasileiro a usar faróis retangulares, mas esta primazia poderia ter sido diferente. Quando a Ford decidiu reestilizar o Corcel depois de quase dez anos de mercado, ela novamente buscou inspiração no Escort europeu, que chegara à sua segunda geração no final de 1974. Por isso os primeiros protótipos do Corcel II já tinham os ângulos retos e as laterais vincadas como conhecemos em 1978, porém sua dianteira usava uma grade recuada em relação à borda do capô e faróis circulares — exatamente como o Escort Mk II da época.

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No fim a Ford achou melhor adotar o estilo do Granada europeu, mais limpo e contemporâneo que o do Escort. O visual também inspiraria o Del Rey três anos mais tarde.

 

Corcel quatro portas

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Depois de lançar o Corcel II, a Ford cogitou criar uma versão quatro-portas do modelo, assim como na primeira geração do modelo. Um dos protótipos chegou a ser flagrado pela Revista Auto Esporte em 1979. Curiosamente ele tinha apenas a porta traseira esquerda. No fim das contas o projeto foi cancelado, provavelmente porque a Ford já planejava o Del Rey, que foi lançado dois anos mais tarde.

 

“Jampa”

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O Ford “Jampa” foi o avô que o EcoSport nunca teve. Nos anos 1980 a Ford brasileira decidiu criar um jipe usando como base a Pampa 4×4, em uma tentativa de substituir o Jeep Ford/Willys da mesma forma que o Bronco substituiu o Jeep CJ5 nos EUA.

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Como conta Carlos Meccia no Autoentusiastas, a Ford chegou a produzir um protótipo funcional, que usava a mesma mecânica da Pampa 4×4 e tinha capota dupla — uma de lona e outra rígida.

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O problema é que, assim como a Pampa, a “Jampa”, como acabou apelidada, não tinha diferencial central para equalizar a velocidade dos dois eixos, nem caixa de transferência reduzida, o que limitaria seu desempenho e versatilidade. Diante do problema, a Ford fez estudos de viabilidade para trazer o sistema do Bronco americano, porém os custos inviabilizaram o projeto e ele acabou engavetado.

 

Del Rey II

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Em 1985 a Ford já pensava em modernizar o Del Rey para torná-lo mais competitivo frente aos modernos Santana e Monza. A marca chegou a fazer um protótipo com para-choques plásticos envolventes, grade dianteira integrada ao capô, faróis com piscas integrados, traseira mais elevada e com lanternas verticais e até uma versão alongada, com uma janela integrada à coluna C.

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A revista Quatro Rodas chegou a dar o carro como certo para a linha 1987, mas a Ford manteve o Del Rey exatamente como era em 1985 até o fim de sua produção em 1991.

 

Del Rey Omega

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Foto: Carlos Meccia/Autoentusiastas

Nessa mesma época a Ford trabalhava em outro projeto para o Del Rey. Batizado Omega, o projeto visava uma evolução do modelo de modo que ele ficasse maior e mais potente. Como também contou Carlos Meccia no Autoentusiastas, a Ford pretendia adotar o motor 2.3 de quatro cilindros lançado nos anos 1970 para o Maverick e também adotado no Ford Sierra argentino. O motor seria instalado em posição transversal e a Ford previa uma perua e uma picape além do sedã visto nestas fotos. O visual era claramente inspirado no Scorpio de primeira geração.

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Foto: Carlos Meccia/Autoentusiastas

O projeto, acabou cancelado após a fase de protótipo, possivelmente devido às negociações com a Autolatina e a possibilidade de usar o Santana como base para um sedã médio, como aconteceu em 1991 quando o Versailles foi lançado.

 

Ford “Gol”

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Ele parece um Ford Aspire — o compacto baseado no Kia Avella que a Ford vendeu nos EUA e Canadá entre 1993 e 2000 — mas, na verdade era um compacto que a Ford estava desenvolvendo com base no Gol de segunda geração durante os tempos da Autolatina. Na época a Volkswagen vendia o Logus e o Pointer baseados no Escort/Verona e a Ford pretendia desenvolver um compacto menor que o Escort para entrar no segmento dos compactos. Que base poderia ser melhor que o campeão nacional de vendas?

Há poucas informações concretas sobre o projeto, mas segundo rumores da época, a Volkswagen não gostou nem um pouco de ver que a Ford pretendia concorrer com o Gol com um modelo próprio. O conflito de interesses entre as marcas levou à decisão de mútua de encerrar a parceria em 1994, algo que se concretizou dois anos mais tarde. Sem o Gol para servir de base ao seu compacto, a Ford passou a importar o Fiesta da Espanha em 1995 e a produzi-lo no Brasil a partir do ano seguinte.