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Os quatro Takumi: os segredos e os mecânicos por trás do motor do Nissan GT-R

Iniciada pela Mercedes-AMG, a filosofia one man, one engine, na qual cada motor de alto desempenho é montado inteiramente por uma única pessoa — e no fim assinado por ela, às vezes — é algo relativamente comum entre os carros de alto desempenho. Esse processo foi adotado até mesmo pela GM, que é um dos grandes símbolos da produção em grande escala da indústria automobilística americana, na produção dos motores do Corvette Z06 (veja os detalhes neste post).

O motivo é bastante simples: no processo de linha de produção, cada operário cuida de apenas uma parte da montagem e a inspeção de cada etapa é feita mecanicamente. Isso garante que não haja falha humana em um processo que envolve dezenas de pessoas, mas também não impossibilita a construção de componentes que demandam alta precisão.

É por isso que, na hora de montar motores de altíssimo desempenho, as marcas optam por esse tipo de processo.  Quando só uma pessoa é responsável pela montagem do motor, ela consegue trabalhar sem a pressão e a pressa da linha de produção, e tem mais tempo para selecionar os componentes e para inspecionar os procedimento de montagem, garantindo a qualidade de construção que esses motores exigem.

Além da Mercedes e da GM, quem também adota a filosofia de um motor por funcionário é a Nissan. Cada um dos motores VR38 usados pelo GT-R e por suas versões de pista é montado por apenas um funcionário do início ao fim. Mas diferentemente dos alemães e dos americanos, que têm dezenas de artesãos se dedicando aos motores de alta performance, a marca japonesa delegou o trabalho a apenas quatro funcionários. Sim: todos os motores do Nissan GT-R atualmente são construídos por apenas quatro pessoas. Esses quatro caras aí embaixo.

NissanTakumi

Seus nomes são Izymi Shioya, Takumi Kurosawa, Nobumitsu Gozu e Tsunemi Oyama, mas pode chamá-los de “os quatro takumi”. A palavra japonesa significa artesão, mas definir esses caras dessa forma seria simplista demais. Eles são selecionados especialmente por sua expertise na montagem de motores e também por sua paixão pela marca, como contam Izumi Shioya, que está na fábrica há mais de 20 anos e pediu para trabalhar na Nissan porque adorava o Skyline, e Nobumitsu Gozu, que descobriu os Nissan em um filme da TV e decidiu trabalhar na fábrica que fazia aqueles carros — e hoje dirige um GT-R da geração anterior.

 

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O mais velho deles, Takumi Kurosawa, está na Nissan desde 1980 e explica que fato de assinar cada um dos motores que fabrica faz com que ele se sinta um verdadeiro representante da marca, e orgulhoso de seu trabalho. A história deste artesão que leva seu talento no próprio nome (Takumi também é um nome próprio japonês) é um pouco diferente dos outros três. Kurosawa-san era um jogador de futebol profissional no fim dos anos 1970 e um dia foi abordado pelo manager do Nissan Motors (atual Yokohama Marinos) para jogar pela equipe. Kurosawa estava lesionado, e viu no time da Nissan uma oportunidade de conseguir um trabalho que lhe garantisse o sustento no futuro. Assim ele aceitou a proposta. Um dia, cansado da rotina de treinamentos físicos, ele perguntou aos chefes o que era produzido naquela fábrica, foi apresentado ao lado industrial de seu time e acabou pedindo para trabalhar ali. Desde então ele monta motores na fábrica da Nissan em Yokohama e, atualmente, além dos VR38 dos GT-R de rua, ele também é responsável pelos motores de corrida dos GT-R que disputam a Super GT300.

 

Homem vs. máquina

Cada motor do GT-R tem 374 componentes colocados manualmente em seu devido lugar. Somente o aperto dos parafusos é feito por máquinas, que controlam o torque exato necessário para prender virabrequim, bielas, cabeçotes, cárter, balancins, polias e tampas de válvulas. Repare no vídeo que há até mesmo alguns números gravados à mão no eixo de saída do virabrequim do V6 (isso aparece aos 1:42). Nos primeiros anos do GT-R R35, alguns procedimentos eram testados por computadores (caso do assentamento das válvulas, entre outros), mas atualmente esse tipo de trabalho é feito manualmente para garantir precisão da montagem.

Além da montagem, os takumi também são responsáveis pela seleção dos componentes e por todo o procedimento de testes do motor em bancada. No final, com a montagem concluída e a aprovação nos testes, cada um deles certifica a qualidade da construção com sua própria assinatura, que vai estampada em uma plaqueta colada no bloco do V6 de 3.8 litros.

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A assinatura, como conta Tsunemi Oyama, é uma forma de pressão sobre o trabalho dos takumi, mas é uma pressão positiva, que não o deixa nervoso, e sim concentrado. Além disso, o nome no motor demonstra comprometimento.

De fato, a assinatura torna o motor algo especial. Como um carro de corridas do passado, a plaqueta com o nome de um desses quatro mestres afasta a imagem de um processo frio e impessoal, que é a montagem na linha de produção, e nos aproxima da dedicação desses trabalhadores. A Nissan conta que alguns proprietários do GT-R chegam a solicitar visitas à fábrica para conhecer o takumi que construiu o coração mecânico do seu carro.

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“Embora seja um modelo mais antigo, eu também tenho um GT-R. Por isso entendo os clientes do GT-R e coloco minha alma em cada motor, esperando entregar a mesma sensação aos clientes” – Nobumitsu Gozu.

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