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Pare o que estiver fazendo e veja Tom Kristensen domando um Ford Thunderbird de corrida em Goodwood

Tom Kristensen poderia decidir hoje mesmo que não precisa fazer mais nada nesta vida. O dinamarquês de 50 anos de idade é o único piloto de corrida a vencer as 24 Horas de Le Mans não duas, não três, mas nove vezes – seis delas em sequência, de 2000 a 2005. Ele foi até condecorado cavaleiro pela rainha da Dinamarca por suas contribuições ao legado do país, e hoje só pilota por diversão.

E eu aposto tudo o que eu tenho (até mesmo o Robso, meu VW Gol 1985, que ainda está comigo) que Kristensen se divertiu à beça ao volante de um Ford Thunderbird 1959 durante o Goodwood Revival, evento que acontece todos os anos na Casa Goodwood, no Reino Unido, e tem como foco os carros de corrida do passado – que vão para a pista, sem essa de ficarem expostos no gramado de Lord March.

Kristensen participou do St. Mary’s Trophy com o Thunderbird da equipe de Bill Shepherd, dono da primeira (e provavelmente única) concessionária especializada em Ford Mustang do Reino Unido. E o que um cara que venceu nove vezes as 24 Horas de Le Mans é capaz de fazer com uma banheira americana no coração da Inglaterra? Isto:

Em 1959, o Ford Thunderbird já estava em sua segunda geração. A primeira, de 1955, foi criada para brigar com o Chevrolet Corvette de primeira geração pela preferência do público, mas foi um sucesso por outros motivos: seu visual elegante e limpo e sua abordagem mais voltada para o conforto do motorista do que para a esportividade em si. A Ford dizia que o T-Bird era um “carro pessoal”, e não um esportivo propriamente dito, e em 1955 (seu ano de lançamento) o Thunderbird vendeu 23 vezes mais que o Corvette, com mais de 16.000 unidades do Ford contra 700 do Chevrolet.

Para a segunda geração, porém, a Ford decidiu que ter apenas dois lugares afetaria negativamente as vendas do Thunderbird. Por isto, em 1958, uma remodelação completa transformou o conversível em um quatro-lugares, além de dar a ele uma aparência mais rebuscada (para não dizer carregada), com quatro faróis, mais elementos cromados e rabo-de-peixe mais proeminente na traseira. Também deixou o carro bem mais pesado, com cerca de 500 kg a mais que a geração anterior; e maior, com quase 20 cm a mais no entre-eixos. Foi quando o Thunderbird se transformou em uma banheira.

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O modo como o carro é controlado por Kristensen deixa claro que estes carros não foram pensados para contornar curvas com velocidade e estabilidade na pista. Eles foram feitos para rodar na cidade com a capota abaixada e pegar estradas longas, lisas e rápidas. E é exatamente isto o que torna a pilotagem do dinamarquês tão impressionante: nota-se que a traseira é leve e desgarra com facilidade, pois a suspensão por eixo rígido é limitada na hora de colocar os pneus em contato com o solo. Por outro lado, a dianteira do Thunderbird é independente por braços sobrepostos assimétricos, facilitando um pouco as entradas de curva.

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É claro que os pneus fabricados para serem iguais aos da época, diagonais com paredes bem dobráveis, não ajudam muito. Mas faz parte do show!

Nota-se que Kristensen não estava poupando a velha barca, que chegou a soltar parte da tubulação do sistema de escape ao perder uma de suas braçadeiras após chocar-se com uma zebra. Só é uma pena que a oficina de Bill Shepherd não tenha divulgado as especificações do carro. Perguntando a Bill no YouTube, soube que se trata de um big block Lincoln de 430 pol³ (sete litros) preparado com especificações próximas ao que era usado pela Nascar no início dos anos 1960. Shepherd diz que originalmente o motor entregava perto de 435 cv, mas esta potência deve estar mais próxima dos 600 cv atualmente.

Assistindo ao vídeo onboard tudo fica ainda mais impressionante: vemos o cockpit modificado com uma gaiola de proteção integral e o painel de instrumentos completo, assim como os revestimentos de porta originais. Um banco concha foi instalado para o piloto, enquanto o banco do carona é o mesmo com o que o carro saiu da fábrica (bancos individuais na dianteira eram opcionais). As reações rápidas de Kristensen ao volante, realizando correções na trajetória com frequência, denotam que não é a primeira vez que o dinamarquês controla uma banheira americana em Goodwood…

Em 2015, Kristensen participou do St. Mary’s Trophy com o Ford Fairlane Thunderbolt, equipado com um V8 427 (sete litros) “high-rise” (chamado por ter o coletor de admissão e o carburador em uma posição cerca de 15 cm mais alta), que tinha dois carburadores Holley de corpo quádruplo 500 cv. Em uma volta, Kristensen foi da quarta posição para a liderança, mostrando que não é só de protótipos Le Mans que ele entende.

 

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