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Car Culture

Pequenos grandes roadsters: Alfa Romeo Spider

Antes de qualquer coisa, a Alfa Romeo é tradicionalmente uma marca passional. Sendo assim, não importa se o carro tem problemas de acabamento, corrosão ou confiabilidade: quando está funcionando perfeitamente, um Alfa Romeo antigo é um carro apaixonante. O Alfa Romeo Spider é um destes. Um dos maiores sucessos da marca, tanto de público quanto de mercado, ele permaneceu em produção por quase três décadas sem maiores alterações. Esta é a sua história.

Em 1955 a Alfa Romeo lançou na Itália o Giulietta Spider — seu primeiro roadster. Já havia outros conversíveis — o primeiro Alfa Romeo, o A.L.F.A 24HP de 1910 era um conversível — mas roadster mesmo, com dois lugares e tempero esportivo, só em meados da década de 50. O carro se mostrou um grande sucesso mas, mas de uma década depois, o as formas elegantes do Giulietta Spider já estavam ultrapassadas, e a marca precisava de algo novo.

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Quer dizer, um roadster novo, porque os cupês e sedãs da época — o clássico absoluto Giulia, tanto o sedã quanto o cupê e o conversível — estavam fazendo um sucesso tremendo. Sendo assim, se a Alfa Romeo apresentou o primeiro protótipo no Salão de Turim de 1961, mas o modelo de produção só saiu do papel quatro anos depois, em 1965, e começou a ser fabricado no ano seguinte, tendo sido apresentada no Salão de Genebra de 1966.

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Quem foi até lá viu um carro novo, mas com receita clássica: carroceria de linhas limpas, de autoria de Battista Pininfarina, (fundador do famoso estúdio de design que leva seu sobrenome), motor dianteiro de quatro cilindros e tração traseira. A base era a do sedã Giulia 105, com entre-eixos encurtado de 2,35 para 2,25 metros, traseira baixa e uma simpática dianteira com faróis redondos encobertos por bolhas de acrílico — e , claro, o cuore sportivo, que aqui ficava entre as duas lâminas do para-choque.

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O perfil do carro era bem baixo e suas proporções eram muito harmônicas, com linhas extremamente convidativas para um passeio a céu aberto — um passeio que durou 28 anos.

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O primeiro Alfa Spider se chamava, na verdade, Duetto — em alusão aos dois lugares. Munido do motor Twin Cam de 1.570 cm³ alimentado por dois carburadores Weber, que lhe rendeu o sobrenome “1600”, o Duetto usufruía de 109 cv para chegar aos 100 km/h em 11,5 segundos. Contudo, sua aceleração em linha reta era a menor das preocupações: os Alfa Romeo sempre foram feitos para serem ágeis em qualquer situação, e o Duetto não era exceção.

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A suspensão era dianteira era independente do tipo McPherson e a traseira, por eixo rígido — contudo, o carro tinha molas helicoidais e freios a disco nos quatro cantos. O conjunto todo pesava 995 kg.

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Boa parte do carro era construída nas oficinas da Pininfarina, o que incluía carroceria, interior e parte elétrica. Os carros, então, eram pintados e enviados para a fábrica da Alfa Romeo em Milão, onde recebiam motor, freios e suspensão. O Alfa Spider foi o último projeto no qual o fundador da Pininfarina se envolveu pessoalmente antes de morrer, em 1966. Ele foi um dos responsáveis pela adoção de alguns recursos relativamente novos na época — o Spider Duetto 1600 foi um dos primeiros carros a usar construção em monobloco com zonas de deformação programada na dianteira e na traseira.

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Apesar da inovação, sua proposta era básica. Sendo assim, a limpeza do exterior era acompanhada de um interior quase espartano, apenas com o essencial para divertir o motorista. O grande volante de três raios ficava em frente a um cluster com os mostradores principais — velocímetro e conta-giros —, com os manômetros adicionais de temperatura, combustível e pressão do óleo no centro do painel, que tinha pintura na cor da carroceria. O motorista se sentava baixo e com as pernas esticadas e a alavanca do câmbio — manual de cinco marchas do início ao fim da vida do Spider — ao alcance da mão. Um verdadeiro driver’s car — e que custava o mesmo que um Jaguar E-Type.

Em 1967 a Alfa Romeo descobriu que o nome “Duetto” já estava registrado por outra empresa (dizem que era a Volvo, mas não se sabe ao certo) e passou a chamar o carro de Spider Veloce. Contudo, levou mais alguns anos para que os entusiastas deixassem de chamá-lo pelo nome original. Além da mudança de nome, o Spider Veloce ganhou um motor um pouco maior — de 1.750 cm³ — e 118 cv, com capacidade para acelerar de 0 a 100 km/h em 10 segundos redondos, além da versão Spider 1300 Junior no ano seguinte, dotada de um motor de 1.290 cm³ e ausência de alguns itens, como as bolhas dos faróis, servofreio e calotas.

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Estas foram só as primeiras de muitas mudanças — o Alfa Spider nunca passou por uma grande revolução e, ao longo de seus 28 anos de carreira, foi ganhando pequenos ajustes aqui e ali para se manter competitivo no segmento dos roadsters entusiastas. Contudo, sua vida é dividida em quatro fases, e o Spider “fase 2” ganhou uma traseira reta, mais  curta e convencional, no lugar da traseira baixa e curvada do modelo que estreou no fim de 1965 como modelo 1966 e era conhecido como osso di sepia pelo perfil que dava à carroceria. Detalhes de acabamento por fora e por dentro também mudaram, e a qualidade geral de construção ficou melhor.

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Mas a maior novidade do novo Spider foi o motor de dois litros introduzido em 1971 — que lhe rendeu um novo nome: Alfa Romeo 2000 Spider Veloce. Com 1.962 cm³, ele agora entregava 132 cv. O peso aumentou para pouco mais de 1.000 kg, mas o carro ficou mais rápido, levando agora 9,5 segundos para atingir os 100 km/h. A Alfa também decidiu dar um pouco mais de requinte ao visual e à cabine, com um painel acolchoado e um console central, mas os bancos ainda eram forrados de vinil e o assoalho vinha, de série, forrado com borracha — carpetes eram opcionais.  Naquele ano, o motor 1.600 voltava a equipar o Spider na versão 1600 Junior. Em 1977 o 1.3 desapareceria e o 1600 Junior se tornaria a única versão de entrada.

Nos anos seguintes o Spider não passou por grandes mudanças, que vieram só nos anos 80 — e afinal nem eram tão grandes assim, mas começaram a comprometer a identidade do carro: para-choques de borracha e spoilers dianteiro e traseiro, adotados em 1983, maculavam as linhas limpas do roadster e não agradaram totalmente aos entusiastas. Havia ainda a versão Quadrifoglio Verde, que tinha acabamento superior e detalhes como carpete vermelho, rodas de 15 polegadas e teto rígido removível.

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O motor, que agora usava injeção eletrônica, tinha 125 cv a 5.500 rpm. Depois de algumas mudanças no acabamento em 1986, a última atualização importante aconteceu em 1990.

Para chegar à nova década, o Alfa Spider teve alguns vincos adicionados a seu perfil para ficar mais parecido com o resto da linha — mesma razão pela qual a lanterna traseira adotada lembrava a do 164. Os para-choques de borracha deram lugar a peças envolventes, na cor da carroceria, e o visual do carro recebeu um leve sopro de rejuvenescimento — suficiente para que durasse mais três anos no mercado. Para 1993, uma edição comemorativa com rodas de 15 polegadas com calotinhas douradas e emblemas “CE” (Commemorative Edition) foi lançada.

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Ao longo de quase 30 anos, mais de 124 mil Alfa Spider foram produzidos, contando todas as versões nos mercados europeu e americano — nos EUA, o roadster foi vendido a partir de 1969. Para fazer tanto sucesso, por tanto tempo, sem mudar sua essência, um carro precisa ser realmente muito bom — e não temos dúvida de que ele era.

Em 1995 a Alfa Romeo lançou um Spider totalmente novo. A plataforma era a Tipo Due (mesma dos Fiat Tipo e Tempra, ou do Lancia Delta) e a tração era dianteira, naturalmente. Versão roadster do cupê GTV, o novo Spider tinha um desenho bastante peculiar e era um grande carro — que tinha até uma versão com motor V6 de 3,2 litros, 24 válvulas e 240 cv, capaz de chegar aos 100 km/h em seis segundos.

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Mas ele não era mais um pequeno roadster, e há quem até hoje tenha saudades do primeiro Alfa Spider.

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