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Car Culture

Pequenos Grandes Roadsters: os 50 anos do Honda S600

Antes de se tornar uma fabricante de automóveis e criar verdadeiras lendas como o Civic Type R e o NSX, a Honda produzia motocicletas. As primeiras motos saíram da linha de montagem em 1955 e, em questão de quatro anos, a companhia se tornou a maior fabricante de motos no mundo. Não demorou para que as ambições do visionário Soichiro Honda ganhassem mais duas rodas. Foi assim que, em 1962, nasceram os primeiros esboços de um pequeno roadster com motor de moto.

Era o início de uma história épica, que rendeu à Honda uma bela reputação e deu início à tradição de dar aos carros motores giradores, eficientes e deliciosos de acelerar — mesmo que, logo de cara, tivessem motores de menos de 500 cm³ e 44 cv… a 8.000 rpm!

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S500

A breve descrição acima pertence ao S500, introduzido em outubro de 1963. Quatro meses antes, em junho, a Honda lançou a pequena picape T360, equipada com um quatro-cilindros de apenas 356 cm³ e 30 cv a 8.500 rpm. Dizem que o mini-utilitário foi o primeiro carro produzido pela Honda, mas é meio forçado chamá-la de “carro”. Olha só para ela:

360

De qualquer forma, em junho de 1962 (exatamente um ano antes!), a Honda apresentou o S360, um roadster equipado com este mesmo motor e a proposta de ser um automóvel popular, barato e capaz de chegar aos 100 km/h. Sendo assim, é justo dizer que o pequeno S500 lançado naquele outubro de 1963 foi o primeiro carro de verdade da fabricante japonesa.

Sim, é uma história meio confusa (até porque seu desenrolar varia um pouco dependendo da fonte consultada), mas daqui para a frente fica mais fácil de entender.

O S500 foi um carro importante pelas inovações que trouxe — fora o fato de ser o primeiro carro esportivo da marca. Se o motor era pequeno, ao menos tinha quatro carburadores (o motor era derivado das motos da Honda), duplo comando no cabeçote e gostava de girar — agora deslocando 531 cm³, entregava 44 cv a 8.000 rpm, com corte de giro a estratosféricos 9.500 rpm. Por estas características, o pequeno quatro-cilindros era considerado um “mini motor de Fórmula 1”. A transmissão era manual, de quatro marchas, e força era entregue ao eixo traseiro por uma corrente banhada em óleo.

A suspensão era independente nas quatro rodas — barras de torção na dianteira e coilovers diagonais na traseira —, algo que, somado ao baixíssimo peso de 725 kg, garantia um comportamento mais do que animado. Dava até para chegar aos 130 km/h!

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Antes de tudo, porém o S500 era uma experiência — que, felizmente, deu certo. Entre outubro de 1963 e setembro de 1964 foram produzidas cerca de 1.300 unidades e não foram realizadas muitas modificações. Em vez disso, a Honda preferiu melhorar a receita de uma forma bem simples, quase óbvia: aumentando o tamanho do motor.

Foi assim que, em março daquele mesmo 1964 a Honda lançou o S600, que se mostrou superior em tudo durante os meses em que conviveu com seu antecessor e continuou sendo produzido até 1966. Mas o que ele tinha de especial?

s600

Para começar, os centímetros cúbicos a mais (agora eram 606 cm³) garantiam um belo ganho de potência: 57 cv a 8.500 rpm, o bastante para chegar aos 140 km/h — como os carros populares 1.0 de até poucos anos atrás. A diferença é que o S600 tinha quase metade do motor e foi lançado há exatamente cinco décadas. Como não admirar?

Além disso, foi com o S600 que a Honda se aventurou pela primeira vez com a produção de automóveis em larga escala: se, pouco menos de um ano, o S500 teve pouco mais de 1.300 unidades fabricadas, o S600 durou mais que o dobro e teve dez vezes mais unidades fabricadas.

Tendo sido o primeiro automóvel da Honda produzido em maior quantidade, o S600 foi o escolhido para expandir a atuação da marca para outros países.

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Desse modo, a fabricante realizou a conversão do modelo para receber o volante à esquerda, a fim de torná-lo apto para exportação. Além disso, passou a investir mais em publicidade, vendendo o S600 como um carro perfeito para casais sem filhos e homens de negócios — ou ao menos é o que as propagandas impressas da época nos levam a crer.

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O S600 também foi oferecido em versão cupê, lançada em 1965 e produzida em números limitados — antes, o S500 tinha a opção de um teto rígido de fibra de vidro.

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Acontece que todos nós sabemos que a verdadeira vocação do S600 era acelerar. Que o digam os caras da revista Motor Trend que, em 2007, testaram um deles e elogiaram o comportamento do motor, que parece acordar às 5.000 rpm quase como um VTEC. E o que dizer do ronco?

Com o pé plantado no assoalho além do pico de potência às 8.500 rpm você consegue os melhores resultados, e ainda curte o ronco inspirador e surpreendentemente grave do motor. Sem nunca soar estridente, o ronco parece mais com o de um monoposto da Fórmula Ford ou de um S2000 moderno.”

Dá para ter uma ideia melhor do que eles dizem assistindo ao vídeo abaixo. Trata-se do trecho de um programa da BBC gravado em 2008, e mostra Jenson Button, que na época era piloto da Honda, ao volante de um S600 pelas ruas de Mônaco. Sério, escuta só isso:

A citação ao S2000, aliás, é mais do que simplesmente uma analogia. Já em 1965 a Honda decidiu aprimorar a receita do S600 mais uma vez, apresentando no Salão de Tóquio o S800. Novamente, em essência era o mesmo carro com algumas diferenças estéticas (como as lanternas traseiras, retangulares em vez de redondas) e um motor maior, de 791 cm³ e 70 cv a 8.000 rpm. Mais potente e girador (a faixa vermelha começava nas 10.000 rpm), o motor do S800 permitia uma velocidade máxima de 160 km/h.

Honda_S800

O S800 foi fabricado até 1970, quando saiu de linha sem deixar sucessor. A linhagem ganhou continuidade somente em 1999,quando foi apresentado o S2000 — este, considerado por muita gente não apenas um dos melhores Honda já fabricados, mas um dos melhores esportivos da história por seu desenho e equilíbrio perfeito entre dinâmica e potência — e com um motor que girava acima de 9.000 rpm, como manda a tradição.

 

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