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Por dentro da fábrica de sonhos da Singer Vehicle Design

Se nos perguntarem qual é o automóvel que chega mais próximo da perfeição, estaríamos seriamente inclinados a responder “os Porsche 911 da Singer”. Já falamos deles aqui — são restomods espetaculares que transformam 911 da década de 1990, que já estão no fim de suas vidas, em máquinas com visual clássico e customização caprichada.

Aliás, “customização” não é uma boa palavra aos ouvidos de Rob Dickinson, fundador da Singer Vehicle Design. Ele diz que, quando alguém diz que os 911 da Singer são carros customizados, sente náuseas. Seus carros são Porsche, e sempre serão — ele faz questão de dizer no vídeo abaixo, feito pelos caras do XCAR, que nos mostra de uma maneira inédita os bastidores da Singer, e ainda nos dá a oportunidade de ouvir a história da marca da boca do próprio Dickinson.

Na verdade, se você é ligado em rock da década de 1990, talvez conheça a banda Catherine Wheel, uma das várias bandas da cena alternativa britânica na época. Eles ficaram ativos entre 1990 e 2000, com a mesma formação ao longo destes onze anos, lançaram cinco álbuns de estúdio e emplacaram singles como Black Metallic, de 1991 e Judy Staring at the Sun, de 1995.

OK, talvez você não conheça o Catherine Wheel, mas o Iron Maiden você deve conhecer. E Rob é primo de Bruce Dickinson, vocalista com o qual o Maiden lançou boa parte de seus maiores clássicos. Enfim: Rob Dickinson era guitarrista e vocalista do Catherine Wheel, mas antes de pegar a guitarra e se tornar um astro do rock, ele pensou em ser designer automotivo.

Dickinson (Rob, não Bruce) sempre gostou de carros, mas se lembra exatamente de quando surgiu sua paixão pelo 911: foi em 1977, quando ele estava no banco de trás do Fusca da família e seu pai o mandou olhar para o lado. Um 911 clássico passava, e ele ficou intrigado pela “cara sorridente” e pela traseira agressiva. Ao mesmo tempo, não deixou de notar a semelhança entre o carro do seu pai e aquele esportivo — e isto o deixou ainda mais fascinado, uma fascinação que durou para sempre.

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Com o sucesso do Catherine Wheel, em meados da década de 90 Rob conseguiu comprar um 911 da década de 1960 e restaurá-lo nos padrões originais — coisa fina, mesmo. Mas ele também era conhecedor do potencial do motor flat-6 refrigerado a ar e queria fazer do carro um hot rod. Mas, em vez disso, comprou outro 911 — um 964 da década de 1990, que tinha suspensão dianteira mais refinada, e executou um restomod com visual mais voltado para o modelo clássico, com para-choques feitos sob medida e estética limpa e preparação aspirada no motor. O resultado foi um conjunto que atraiu muita atenção no meio especializado e não demorou para que Rob começasse a receber encomendas.

Ao mesmo tempo, ele começou a frequentar um clube de proprietários do 911, vários deles com carros modificados, e Rob notou que havia um potencial no 911 muito mais amplo do que apenas restaurar e preparar: ele poderia transformar o carro em algo mais refinado e caprichado sem acabar com sua essência. E assim nascia, em 2001, o embrião da Singer.

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Norbert Singer e o Porsche 956

Na hora de escolher o nome da empresa, um de seus amigos sugeriu “Norbert”, inspirado em Norbert Singer — engenheiro mecânico que participou do programa do Porsche 917 que venceu Le Mans em 1970 e 1971, chefiou a equipe que desenvolveu o Porsche 935, vencedor de Le Mans em 1979, e projetou a carroceria dos Porsche 956 e 962, que venceram juntos sete edições da prova de endurance, e finalmente supervisionou o desenvolvimento do Porsche 911 GT1, que deu à companhia sua última vitória em La Sarthe, na edição de 1998. Basicamente o cara ajudou a Porsche a conquistar todas as suas 16 vitórias em Le Mans.

Rob tinha uma ideia melhor — usar o sobrenome. Além de soar mais bonito e continuar sendo um tributo ao grande mecânico, também refletia o envolvimento de Dickinson com o Catherine Wheel, afinal ele era o cantor na banda (singer, em inglês), e o ronco do flat-six refrigerado a ar era simplesmente música a seus ouvidos. Perfeito.

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Ele também nos conta como a Singer opera: a oficina não vende carros, e sim serviços, restaurando os 911 levados pelos clientes. Os carros são desmontados até só sobrar a estrutura, que é cuidadosamente reparada e repintada na cor que o dono quiser, recebe novos reforços estruturais e componentes de fibra de carbono (como os para-choques e para-lamas), tem toda sua elétrica revista e o interior refeito com materiais da melhor qualidade, sempre se atentando a seguir as especificações do cliente em termos de cores e acabamento.

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Há motores de 3,6, 3,8 e quatro litros, que são refeitos e preparados pela Cosworth, entregando algo entre 360 e 400 cv (dependendo do que o cliente quiser). Depois de entregues, em qualquer parte do mundo, os carros continuam sendo acompanhados à distância pela Singer, que procura saber onde o carro está, como estão sendo feitas as manutenções e quais são suas condições de uso — algo semelhante ao que a McLaren faz com o F1, segundo Rob. Ele diz que não se trata apenas de superproteção, mas também de analisar suas criações para resolver eventuais problemas e aperfeiçoar a receita.

É por estas e outras que, como dissemos, os Porsche 911 reimagined by Singer estão, para nós, muito próximos da perfeição sobre quatro rodas. Assista ao vídeo, vale a pena.

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