Edição diária: 18/06/2019
FlatOut!
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Pensatas Zero a 300

Por que o Fiat Uno merece todo o seu respeito

“Uno nem é carro” – você provavelmente já ouviu esta pérola. E, se é como eu, provavelmente foi difícil conter o impulso de dizer umas boas verdades na cara de quem pronunciou tal atrocidade. Uno é carro sim, e dos bons. E é sobre isto que eu vim falar hoje.

Se você acompanha o FlatOut, sabe que meu carro atual é um Volkswagen Gol LS 1985 sobre o qual não consigo parar de falar aqui no site. A propósito, o Robso está, neste momento, na oficina para uma regulagem no carburador e, finalmente, a instalação do painel (saiba mais sobre isto aqui). Mas quem acompanha nosso trabalho desde a época do Jalopnik sabe que meu primeiro carro foi um Fiat Uno Mille ELX 1995. E também percebeu que eu curto escrever o nome completo dos carros.

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Eu já falei em algum momento que não foi uma boa ideia ter vendido o Uno – só percebi a beleza de carro que tinha nas mãos depois de passar algumas vezes pelo perrengue de dar a partida pela manhã em um Gol com motor 1.6 carburado a álcool, sem afogador. Claro, o estado do motor do Gol certamente tem a ver com isto mas, por experiência pessoal, no dia-a-dia prefiro a confiabilidade do sistema de injeção eletrônica Magneti Marelli do Uno à experiência old school do Weber 450 miniprogressivo. Ao menos nas idas e vindas cotidianas.

Mas eu não estou aqui para falar que o Uno é melhor que o Gol, mas para dizer porque o Uno é um carro que merece todo o seu com base no que sei sobre ele e em minha experiência como ex-proprietário de um exemplar.

Meu envolvimento com o Fiat Uno começou há dez ou quinze anos, quando meu pai trocou um belo Fusca 1600 1979/1980 por um bem conservado Uno CS 1.3 1988. Eu não entendia nada de carros na época, mas a diferença era notável. O Fusca era bem cuidado, nunca deu problemas e era o xodó da família, mas o Uno andava mais, era mais espaçoso por dentro e não muito maior por fora. Era movido a álcool e carburado, é verdade, mas o afogador funcionava e não me lembro de ter me atrasado na escola uma vez sequer por que o carro não quis pegar.

Em 2011 ganhei o Uno ELX que veio a substituir o CS 1.3 na garagem da família. Foi meu primeiro carro.

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Quem compra um Uno está levando para casa um hatchback projetado no início da década de 1980 por ninguém menos que Giorgetto Giugiaro, italiano que é um dos maiores designers de todos os tempos. No Brasil, onde foi lançado em agosto de 1984, seu perfil bastante característico lhe rendeu o apelido de “botinha ortopédica”. No entanto, tanto aqui quanto na Europa, onde foi lançado um ano antes, o Uno foi um marco no design dos carros compactos.

Sua fórmula não criava uma revolução, seguindo o mesmo padrão criado pelo Mini nos anos 1950 e popularizado pelo Volkswagen Golf nos anos 1970: motor dianteiro transversal, tração dianteira, construção monobloco. Aliás, Giugiaro também foi o projetista do Golf Mk1. Ele sempre soube como fazer um bom compacto.

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O Uno era um carro retilíneo, como outros da época. Mas suas linhas eram mais limpas e econômicas, com para-choques envolventes, maçanetas embutidas (na versão de duas portas), vidros bem integrados à superfície da carroceria, teto sem calhas e uma traseira quase plana, que ajudava seu coeficiente de arrasto aerodinâmico a ser um dos mais baixos para seu tempo – 0,34.

O formato retangular também ajudava a aproveitar ao máximo o espaço interno, especialmente a largura e a distância entre o teto e as cabeças dos ocupantes. As rodas ficavam bem nas extremidades da carroceria e a suspensão era muito bem acertada – no Brasil era independente nas quatro rodas, com feixes de molas semi-elípticas na traseira, enquanto o Uno italiano tinha eixo de torção. A modificação, é bem sabido, obrigou os engenheiros a dar um jeito de enfiar o estepe no cofre do motor, uma solução engenhosa que acabou deixando o capô do nosso Uno diferente do europeu – a tampa envolvia parte dos para-lamas dianteiros.

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O interior era simples e funcional, com o painel “satélite” inconfundível, o cinzeiro móvel, a ergonomia impecável para um carro tão compacto e o acabamento sem firulas que só foi ficando ainda mais rústico, digamos, com o passar do tempo. Os últimos Uno tinham lataria aparente em todas as colunas com exceção das dianteiras, cintos de segurança fixos e um console central formado por um molde oco revestido pelo próprio carpete do carro. Os detratores do Uno dizem que era abusar da economia de escala; os admiradores admitem que era mesmo, mas reconhecem que a Fiat economizou em detalhes nem tão pequenos assim sem prejudicar a usabilidade geral do carro. O comprador do Uno queria um carro que gastasse pouco, andasse o suficiente e durasse muito. Não seria um console central feito de carpete que comprometeria o conjunto.

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Uma vez que você aceita que o Uno foi um dos últimos automóveis recentes que levou ao pé da letra a definição mais simples de carro, você pode escolher respeitá-lo por isto.

Ou então pela competência do projeto original como popular, por sua desenvoltura natural em curvas, sua agilidade e comunicatividade, que o tornaram uma boa base para honestas versões esportivas e carros de competição — seus pedais são perfeitos para punta tacco e sua suspensão só precisa de um pouco de atenção na geometria para adquirir um comportamento dinâmico bastante empolgante.

Ou ainda pelo fato de ter usado o motor Sevel, de fabricação argentina, em algumas versões – comumente preparado pelos hermanos para girar acima das 9.000 rpm. Ou por sua capacidade de subir montanhas no asfalto…

… e na terra:

Por mais que reconheça que foi melhor para o Uno se aposentar no fim de 2013 (talvez tivesse sido melhor até um pouco antes), gosto de pensar que, em um mundo ideal, com leis de trânsito mais sensatas e motoristas que realmente as respeitassem, a impossibilidade/inviabilidade de instalar airbags frontais e freios ABS talvez não fosse motivo para encerrar sua produção.

Não vivemos nesta situação perfeita, mas o Uno continua sendo um bom primeiro carro para um jovem que acabou de tirar a carteira e quer se locomover com dignidade, adquirindo experiência ao volante em um carro que pode não ser rápido, mas sabe recompensar uma tocada limpa.

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É por isto que, fico com a primeira opção. Escolho respeitar o Fiat Uno e admirá-lo por ter se mantido fiel às suas origens por trinta anos (considerando que ele nasceu na Itália em 1983 e morreu no Brasil em 2013). E, me desculpe o Gol (e seus fãs) mas se me oferecessem um belo Uninho, de qualquer ano ou versão, eu provavelmente aceitaria sem pensar duas vezes.

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