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Por que os EUA e a Inglaterra usam milhas, HP, libras e gallons?

Se você assiste Top Gear, Fifth Gear, Dupla do Barulho, Jóias Sobre Rodas ou qualquer outro programa britânico ou americano, já notou que as dublagens e legendas não batem com as imagens de velocidade, peso e volume de combustível. O motivo é mais do que conhecido: o sistema imperial de medidas adotado pelos EUA, Reino Unido (além de Birmânia e Libéria, duas potências mundiais). E dá-lhe milhas, HP, libras, gallons e quetais. Mas por que esses países continuam a resistir a algo que, em teoria, seria benéfico para eles próprios?

O sistema métrico surgiu para criar um padrão mundial de medida, o que facilitaria o comércio internacional. Nasceu a partir de medidas criadas pela primeira república francesa, em 1799, que foram ganhando melhoramentos de definição e deram origem ao sistema que conhecemos hoje, oficializado por uma convenção internacional em 1875.

O acordo pioneiro foi proposto por 17 países: Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Rússia, Espanha, Suécia e Noruega, que formavam um único reino, Portugal, Suíça, Peru, Venezuela, Argentina, Brasil, Turquia e… EUA!

Acordos internacionais precisam ser ratificados pelos Congressos de seus países para virarem leis. Nos EUA, isso nunca aconteceu. Ele até havia autorizado o uso do sistema métrico no país em 1866 (antes mesmo da proposta da convenção), mas os EUA nunca o adotaram como seu sistema oficial de pesos e medidas. Nem mesmo depois de 1975, quando o presidente Gerald Ford transformou o Ato de Conversão Métrica em lei, mas a lei não pegou. O motivo? Era voluntária: adotava o sistema métrico quem quisesse. E ninguém quis.

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Foi até criado um escritório federal para cuidar do assunto, o U.S. Metric Program. Ken Butcher foi encarregado de cuidar do programa e de converter o Estado de West Virginia. Sua história está neste excelente artigo do Mental Floss, mas vale a pena repassar algumas delas, em especial o primeiro posto a trocar galões por litros.

Foi uma confusão dos diabos. Os concorrentes pediram ao governo que fechasse o posto porque ele estaria enganando os consumidores e atraindo toda a clientela. Tudo porque ele obviamente cobrava menos pelo litro do que pelo galão (3,79 litros), ou 35 cents em vez de  US$ 1,40. Havia filas para abastecer e o governo cedeu aos apelos dos empresários.

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O quilômetro tem 1.000 metros? Que tal colocar 5.280 pés em uma milha para simplificar?

Em 1982, o então presidente Ronald Reagan mandou enxugar os quadros do governo e o U.S. Metric Program ficou com apenas um funcionário: Butcher. Hoje, ele trabalha com mais uma pessoa em uma salinha no National Institute For Standards and Technology (uma espécie de Inmetro americano). Sem grana e sem pessoal, seu papel ficou resumido a contar às pessoas que elas já usavam o sistema métrico. E que o usariam cada vez mais.

A aposta de Butcher é que as pessoas nos EUA não aderem ao sistema métrico por medo, mas ele explica que sua adoção é questão de segurança. Muitos motoristas de caminhão nos EUA são imigrantes, do México ou da Europa, e eles são os maiores responsáveis por acidentes em pontes, com caminhões presos pelo menor vão livre. Tudo, segundo Butcher, porque eles não sabem fazer a conta sobre o espaço disponível e a altura do caminhão. Mas imagine alguém que tivesse de tomar uma medida qualquer de remédio líquido. Ou qualquer coisa com risco envolvido no qual a medida exata fosse crucial para o sucesso do processo.

A resistência ao sistema métrico também encontra ecos bizarros. Há pessoas que escreveram livros contra ele, como James William Batchelder, com a obra “Metric Madness: Over 150 Reasons for Not Converting to the Metric System”, na qual ele diz que existe uma conspiração comunista para enfraquecer a economia americana e permitir uma invasão soviética (o livro é de 1981). Existem entidades de defesa do sistema imperial, como a Dozenal Society, e a resistência de quem não quer pensar diferente. Até o Vovô Simpson sai em defesa de medidas como rod (5,03 m) e hogshead (238,48 litros).

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Metrificando: “Meu carro faz 84 metros com um litro e é assim que eu gosto!”

Neste excelente artigo da revista “The Atlantic”, do jornalista Yoni Appelbaum, na qual ele entrevista o historiador Stephen Mihm, da Universidade de Georgia, autor do livro “Mastering Modernity: Weights, Measures, and the Standardization of American Life”, ainda não lançado.

Na entrevista, Mihm fala que há, sim, malucos de pedra e adeptos de teorias de conspiração para resistir ao sistema métrico, mas que não foram eles os responsáveis pela falha em sua implantação nos EUA. A culpa maior seria de indústrias de ferramentas que, de olho nos custos da conversão, fizeram lobby e barraram a adoção do sistema. Algo que ele chama de “a humilde rosca do parafuso”.

Em suma, a adoção do sistema métrico não foi obrigatória porque muita gente graúda colocou o pé na porta. Gente graúda que, hoje, é obrigada a fazer uso do metro, do centímetro e do milimetro para exportar seus produtos ou mesmo que já os produz em outros países que os  adotam. Mas Mihm não exclui também um bocado de orgulho nacional, como mostrou recentemente a promessa de campanha de Lincoln Chafee, pré-candidato democrata à presidência dos EUA.

Ele pediu que os EUA se unissem ao resto do mundo e adotassem o sistema métrico, um pedido que virou motivo de piada para seus detratores. Segundo Mihm, seria como se submeter à imposição de algo vindo de outro país, inclusive pela ignorância do público em notar que a proposta original partiu dos próprios americanos. Fora que é uma indignação seletiva. O americano não rejeita carros japoneses e coreanos (e alemães e suecos). Nem produtos feitos na China, como os iPhones. Ou empregos exportados para a Índia, como os call centers. Mas mudar meu sistema imperial não!

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Antes de condenar os americanos, contudo, vale uma reflexão caseira, pra medir os motivos da resistência e suas razões. O sistema métrico (mais exatamente o Sistema Internacional, ou SI) também tem medidas universais de potência e torque. São o kW e o Nm.

A Europa toda já utiliza essas medidas. A Austrália adotou ambos sem restrições. Procure nos maiores sites de lá, como o Motoring ou o CarAdvice, uma ficha técnica que traga cv ou mkgf. Não haverá nenhum. Achou estranho? Você detestaria falar em kW em vez de cv, para não parecer que dirige um eletrodoméstico? Pense nas suas razões para resistir. E sinta-se sob a pele de um americano.

 

E o Reino Unido?

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No Reino Unido a história é um pouco diferente. O sistema métrico já foi adotado oficialmente e está em um lento processo de implementação. O governo, as escolas e faculdades, a indústria e o comércio já adotam as unidades métricas, mas as medidas de velocidade, distância e volume de bebidas ainda usam oficialmente o sistema imperial.

Os britânicos também usam por hábito o sistema imperial para medidas corporais e consumo de combustível. Aliás, o galão imperial é diferente do galão americano — são 4,54 litros, ou seja, o mile per gallon americano é diferente do mile per gallon britânico. Até isso é confuso!

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Mas, como dito ali acima, os britânicos que ainda resistem ao sistema métrico o fazem simplesmente por uma questão de hábito — nada de orgulho nacional na terra da Rainha Elizabeth. Além das instituições da sociedade civil (como conselhos profissionais, institutos normativos etc.) adotarem progressivamente o sistema métrico como medida oficial, segundo uma pesquisa feita em 2013, a população mais jovem  — e que aprende os dois sistemas na escola — também se mostra mais receptiva ao sistema métrico. Fica claro que é apenas uma questão de tempo para que até mesmo o “império” abandone seu próprio sistema.

 

 

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