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Por que você deveria assistir ao novo “Carangas vs. Carrões”

Há pouco menos de um mês o Netflix lançou “Carangas vs. Carrões”, sua mais nova série sobre carros. Apesar do nome macarrônico, típico dos criadores de nomes brasileiros (que não têm a menor ideia de como apresentar conteúdo automobilístico para o público em geral), a série é a melhor produção sobre a cultura automotiva disponível atualmente no catálogo do Netflix e uma das boas surpresas dos últimos anos.

A premissa inicial soa um pouco imatura: colocar carros preparados para correr contra supercarros de milhares de dólares. Tem um ar de conflito de classes, algo como uma revanche dos oprimidos carros preparados sobre os supercarros opressores. Isso me causou uma certa desconfiança no começo. Esperava encontrar preparadores marrentos e playboys soberbos trocando gentilezas antes, durante e depois da corrida, mas isso foi um efeito do péssimo título brasileiro. Logo descobri que o título original é “Fastest Car”, ou “O carro mais rápido”, e que, felizmente, eu estava errado.

Isso não muda o fato de termos carros preparados correndo contra supercarros, mas, quando se tira o confronto do título, a intenção da série fica bem mais clara e você muda a expectativa do espectador e descobre que a corrida é apenas um pretexto para reunir histórias de entusiastas que jamais se cruzariam. A intenção da série é fazer o oposto do que se imagina: não se trata de um desafio, mas de uma conciliação e uma celebração à cultura automobilística.

Cada episódio de “Fastest Car” começa apresentando a história dos quatro participantes da corrida — três carros comuns preparados para arrancadas (as “carangas”), e um supercarro (o “carrão”) original. Sem apresentadores ou entrevistadores, a história de cada um dos participantes é apresentada por eles próprios: seu background com carros, as motivações que os levaram a construir/comprar seus carros, um pouco de suas vidas, suas famílias, seus conflitos pessoais, seus dramas e vitórias.

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Nessa hora a série, como toda série atualmente, tenta focar em dramas ou excentricidades. Há histórias realmente comoventes, como o participante que perdeu o melhor amigo em uma arrancada e constrói seu carro com o que restou do carro acidentado e o incentivo da viúva, mas há outras em que o drama não é exatamente um drama e essa tentativa forçada de dramatização acaba maçante em alguns momentos.

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As histórias em sua maioria são envolventes e importantes para colocar em contexto cada personalidade e como estas personalidades refletem os projetos e até o desempenho dos participantes na pista. Mas acima de tudo, elas mostram os diferentes perfis entusiastas e a incrível pluralidade de personalidades, motivações, frustrações, desejos e satisfações.

A única crítica é a falta de profundidade nos projetos, uma maior apresentação da parte técnica. Não estou nem falando de sabermos pressão de turbos ou que se o motor é stroked, mas em alguns casos não se fala sequer o layout do motor, ou o tipo de alimentação. O pouco que é apresentado, acaba, mais uma vez, traduzido com termos errados ou demasiadamente resumido. Se você entende inglês irá extrair um pouco mais dos projetos.

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Em seguida, os participantes são acompanhados ao longo dos sete dias de preparação para a corrida, mostrando não apenas as revisões e ajustes dos carros, mas também a pesquisa sobre os oponentes e a preparação psicológica para a disputa. Passados os sete dias, os participantes finalmente se encontram na pista, onde se conhecem, apresentam seus projetos e há um pouco de conflito de egos — que chega a ser mais cômico do que conflitante. Após essa curta confraternização os quatro carros alinham para a curta corrida de 402 metros.

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O auge de cada episódio, claro, é a linha de chegada, mas a essência de “Fastest Car” acontece logo em seguida, quando vencedor e perdedores se reencontram. Ali as personalidades se revelam e os estereótipos quase sempre são derrubados. O corredor durão que não sorri reconhece a superioridade do oponente. O garoto que detestava playboys de supercarros vê que o playboy, no fundo é um cara legal. A menina que se achava discriminada percebe que, na verdade, é respeitada e admirada.

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O resultado das corridas, que nem sempre são vencidas pelos supercarros (isso não é um spoiler, ok?) também mostram que a velocidade não é algo que precisa ser restrita aos donos de supercarros, a mecânicos super-experientes ou milionários bem-sucedidos. Quando uma picape rat rod está andando ao lado de um supercarro moderno de 600 cv, disputando cada centímetro daqueles 402 metros, essa mensagem se torna muito clara.

Esqueça o título. “Carangas vs. Carrões” não é uma série sobre corridas, sobre fazer versus comprar pronto ou sobre humildes versus arrogantes. É uma série sobre a paixão por carros e pela velocidade em suas diferentes formas. E ainda que você não concorde com algumas motivações (como o sujeieto excêntrico da Lambo cromada), lembre-se que cada manifestação de paixão pelos carros é uma pulsação vital para a cultura automobilística. Sem elas, tudo está acabado.

 

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