Porsche Lindner Coupé: o 356 feito na Alemanha Oriental com peças contrabandeadas – e a ajuda de Ferry Porsche

Leonardo Contesini 23 janeiro, 2018 0
Porsche Lindner Coupé: o 356 feito na Alemanha Oriental com peças contrabandeadas – e a ajuda de Ferry Porsche

Sabe porque achamos os carros cubanos e soviéticos tão interessantes? É porque eles simbolizam a vontade das pessoas em ter um carro apesar de tudo conspirar contra isso. Veja os cubanos, por exemplo: eles aprenderam a fazer fluido de freio com detergente de louça, xampu e mel. No lado oriental da Cortina de Ferro a história não era diferente: até dava para comprar peças novas, mas a produção mal dava conta da demanda pelos carros e a fila de espera levava anos. Por isso não havia um mercado inteiro de peças sobressalentes esperando compradores.

Se descolar peças para seu Trabi já não era uma tarefa muito fácil, o sonho de ter um Porsche em um país com economia planificada e fechado ao vizinho capitalista era praticamente impossível. A não ser que… você tivesse noções de mecânica e uma pequena ajuda de um cara chamado Ferry Porsche.

Essa história começou no início dos anos 1950, quando a Alemanha voltava a se reerguer após a Segunda Guerra, agora dividida ao meio entre os vencedores. O lado de cá ficou com os EUA e Inglaterra, que instituiram um sistema político democrático e um sistema econômico capitalista, com mercado aberto e cultura de consumo. Era a República Federativa Alemã (RFA ou DFR, na sigla em alemão). O lado de lá ficou aliado aos soviéticos, que instituíram um sistema político bipartidário formado pelo Partido Socialista e pelo Partido Social Democrata (na prática o “senhor” e o “sim, senhor”) e um sistema econômico socialista, com economia planificada e racionamento. Essa era a República Democrática da Alemanha (RDA ou DDR, na sigla em alemão).

csm_15_3_01_7fcc460f33

Nos primeiros anos o trânsito entre as duas Alemanhas era controlado, porém liberado. Você podia pegar seu carro ou moto (ou trem ou ônibus), dar uma volta no outro lado da fronteira e voltar para o seu lado. Assim faziam os irmãos gêmeos Falk e Knut Reimann. Eles moravam em Dresden, cidade que sofreu um dos piores ataques aéreos da Segunda Guerra e que, após o conflito, ficou no lado oriental da Alemanha, e eram estudantes de engenharia

Em uma de suas visitas a Berlim, os irmãos puderam ver as novidades sedutoras do novo mercado alemão. Entre propagandas de refrigerantes e televisores (a grande novidade da época) os gêmeos toparam com o Porsche 356, o primeiro esportivo produzido em série na Alemanha desde o início da Segunda Guerra. Como qualquer pessoa que interessada em máquinas motorizadas eles obviamente ficaram encantados pelo carro. O único problema é que eles não poderiam importar um Porsche 356, ainda que tivessem dinheiro para isso graças à ilegalidade das importações do oeste.

E aqui voltamos à engenhosidade sobre a qual falei no primeiro parágrafo deste texto: a vontade de ter o Porsche era maior que a proibição. Então eles decidiram que construiriam seu próprio 356 no lado oriental da fronteira.

Por sorte, na época ainda era possível encontrar refugos de guerra nos dois lados da fronteira. Eles já haviam restaurado uma moto BMW e um Fiat Topolino que encontraram abandonados. Para fazer o Porsche, eles encontraram um Kübelwagen (o “jipe” feito sobre o Fusca) com motor e tudo, tiraram a carroceria e começaram a procurar alguém que pudesse martelar o metal para transformar aquele chassi rolante em algo parecido com um Porsche.

lindner_porsche_356_reimann_2_0

Eles encontraram o sr. Arno Lindner, um antigo encarroçador da cidade que agora trabalhava com seu filho Helfried. O filho viu no projeto uma chance de reacender os negócios da família, quem sabe fazendo uma série de esportivos em parceria com os irmãos Reimann. Assim eles construíram uma estrutura de freixo com aço tubular que daria o suporte para as chapas. Mas antes disso, era preciso resolver um outro problema: encontrar chapas de aço para fazer a carroceria de Porsche. De volta ao campo, os irmãos conseguiram juntar 15 capôs de caminhões Ford, abandonados pelos aliados.

csm_03_6_03_192b4467f8

O trabalho levou 1.000 horas de trabalho e a carroceria acabou 30 cm mais longa porque o Kübelwagen era 30 cm mais longo que o Porsche 356, uma vez que fora projetado para levar quatro militares armados, e não um casal a passeio. A ideia era construir dez exemplares, mas antes de colocá-la em prática, os irmãos acharam prudente testar o carro. Faltava fôlego, afinal, o Kübelwagen ainda usava a primeira iteração do famoso flat-4, com 1.100 cm³ e 23 cv. Eles então decidiram ir até Zuffenhausen conhecer a fábrica da Porsche e pedir ajuda para resolver o problema. Ao chegar, foram zoados por terem feito um 356 meio desajeitado com um motor 1.100 de 23 cv. Mesmo assim, eles negociaram uma visita e deixaram uma carta a Ferry Porsche.

IMG_3469

Surpreendentemente a carta foi entregue e Ferry Porsche, dizem, ficou furioso ao descobrir que os irmãos copiaram seu carro. Depois de pensar um pouco ele percebeu que o carro era mais uma homenagem que um plágio mal-intencionado e, tocado pela coragem e ousadia dos Reimann, respondeu a carta dizendo que doaria as peças necessárias enviando-as para uma concessionária Volkswagen chamada Winter, no lado ocidental de Berlim. Dali em diante os irmãos teriam que dar um jeito de colocar as peças no lado oriental da fronteira — o que, como você deve ter notado, era proibido.

csm_04_Porsche-Brief_Landscape_4ec1ff38ab

O que era um contrabando para quem já havia feito um carro inteiro? Como eles levaram as peças para o outro lado é algo que nunca foi explicado — imagine o porquê —, mas eles conseguiram e adaptaram os pistões, cilindros e carburadores usados fornecidos por Ferry Porsche. Eles também conseguiram documentos falsos para que o Porscheli (como o carro foi batizado) passasse como um carro da Alemanha Ocidental pelas fronteiras.

2017-01-25 07.52.13

De volta a Dresden eles terminaram o carro em 1956, fizeram uma habilitação (uma só, para economizar dinheiro, afinal eram gêmeos) e partiram em viagem com seu novo esportivo de 130 km/h. Eles primeiro foram a Bruxelas, depois desceram a Nice, passaram por Genebra, foram até a Itália e finalmente voltaram para casa. Com ajuda de Helfried Lindner e do contrabando das peças cedidas por Ferry Porsche, os irmãos Reimann construíram outros 13 exemplares do 356 “Lindner”, como o carro ficaria conhecido. Quando os chassis abandonados acabaram, a produção também precisou ser encerrada.

lindner_porsche_356_reimann_15_0

As viagens dos irmãos também acabaram pouco tempo depois. Em 1961, já com o Muro de Berlim em pé e com a Guerra Fria esquentando, eles entraram no Porsche para fugir da DDR, mas acabaram descobertos e condenados a dois anos em uma casa de detenção da Stasi em Berlim, enquanto o Porsche foi apreendido e acabou vendido ao piloto de testes da Melkus, Siegmar Bunk, que mais tarde o desmontou para retirar peças. Ao sair da prisão, Falk Reimann mudou-se para a Hungria, enquanto seu irmão permaneceu na Alemanha.

csm_05_8_14_7e9c1e3bde

Os restos mortais do carro voltaram a aparecer somente em 2008, recuperados por um entusiasta de clássicos chamado Ernst Bernsteiner. Até então pouco se sabia sobre ele. Todos achavam que era um Tatraplan com para-choques de Porsche. Na época, seu atual proprietário, Alexander Fritz, tinha pouco interesse nos 356, mas ao conhecer o carro ficou intrigado por sua história e começou a pesquisar mais a respeito. Ele encontrou a história completa na internet e, em 2012, arrematou o carro.

Em sua busca pelos detalhes do carro ele encontrou os irmãos Reimann e Helfried Lindner, que vasculharam suas memórias e caixas de fotos para ajudá-lo na restauração. Infelizmente Knut e Lindner não conseguiram acompanhar o processo completo e não chegaram a ver o carro concluído. Falk, por sua vez, sobreviveu para supervisionar todo o trabalho e acompanhou o carro ao concurso de elegância de Schloss Dyck, onde o Porsche Lindner foi o único carro construído na Alemanha Oriental e arrematou o prêmio em sua categoria.

2017-01-25 07.51.36 2017-01-25 07.52.26 getimage-3.aspx getimage-5.aspx getimage-2.aspx csm_12_Lindner10_83748100e9