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Precisamos falar sobre as tais peças “réplica”

Não é fácil ser entusiasta no Brasil. Ficamos num canto do globo em relação à Europa, Japão e EUA, o que deixa o frete astronômico. Vivemos em um dos país referência em tributação obscena e cara de pau, com sistemas de cascata e arbitrariedades como usar o valor do frete como parte do imposto. Temos bandidos de colarinho branco nas instituições financeiras e no governo e ladrões nas ruas. Não há sistema de seguro que atenda satisfatoriamente donos de carros com mais de 10 anos.

Aquela pecinha de pouco mais de 100 dólares, com frete, impostos e tudo o mais, pode chegar aqui por quase mil reais. Imagine então um jogo de rodas da Enkei, da Rays, da BBS. Algumas delas custam mais de mil dólares – cada roda. No Brasil, sai literalmente o preço de automóvel, pois entre o catálogo da Summit e da Real St. e a sua garagem, existe um abismo preenchido por impostos e burocracias. O look daquele carro gringo que está no seu fundo de tela está no topo de uma montanha de dólares.

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Fica fácil de entender como as peças “réplica” encontraram um terreno fértil no Brasil. A montanha vira um morro. Rodas, volantes, cintos de segurança, peças de suspensão, até bancos. Tudo esteticamente parecido o suficiente com o original. Mesmo entre os estudantes norte-americanos elas fazem certo sucesso – lembrando que lá, a idade para se poder dirigir com carta definitiva é de 16 anos em vários estados. É uma forma de se conseguir a customização desejada gastando até dez vezes menos.

Por tudo isso, este texto não tem o fim de dar sermão em ninguém nem queremos desmoralizar os carros ou as pessoas que consomem este tipo de peça. Mas, ao conversar com algumas pessoas do meio, sentimos que uma orientação em relação ao que se chama de “réplicas” se faz necessária. O buraco é mais fundo e o sabor não é doce.

 

Réplicas não são réplicas

“Réplica” ou “cópia” são palavras que passam a noção errada de que o produto é uma duplicata quase perfeita do original, quase como se o que separasse os produtos fosse uma questão de acabamento ou de marca estampada. Pra que pagar tão caro por esse, quando aquele outro é igual, só muda a logomarca, certo? Ou no máximo deixa-se de usar um material gourmet para se usar outro, um pouco mais pesado mas tão funcional quanto, não é? Este raciocínio é o placebo que tranquiliza muita gente e foi o motivador de escrevermos este texto.

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“Quase igual, mas só um pouco mais pesada”. Eu sei que você conta essa história pra você mesmo…

“Imitação” ou “falsificação” são termos que soam mais pejorativos e sim, são mais apropriados. Estas peças não utilizam os mesmos materiais, não são fabricados com os mesmos processos e o desenho dos componentes sofre incontáveis atalhos para reduções de custos, sendo a maior parte deles sutil, como eliminação de chanfros e adoção de quinas mais agudas. Isso fica ainda mais perigoso quando nos damos conta de que a maior parte das falsificações copiam peças de performance, que possuem desenho agressivo para máxima redução de peso: o material, os métodos de fabricação e a distribuição homogênea de pontos de carga e stress são absolutamente fundamentais.

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Rodas de extrema performance são projetadas e analisadas extensivamente com softwares de simulações computacionais de estruturas, como o método de elementos finitos, antes mesmo de existirem. Além do material, cada milímetro a mais ou a menos na parede ou no raio de cada curva faz enorme diferença. Elas são fabricadas com complexos processos de forja (veja nesta reportagem como eram feitas as Fuchs de Porsche – isso há quase 50 anos) que levam em conta até a estrutura molecular das ligas, sempre de especificação aeronáutica, e depois são testadas extensivamente em laboratórios internos e de homologação. Já as “réplicas” partem de moldes esculpidos sem muito cálculo e são fundidos em formas de areia com materiais e processos sem preocupação com controle de qualidade. Ocasionalmente há testes internos, mas você nunca saberá se sim ou não, muito menos como.

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Isso porque réplicas não precisam de selo nenhum de aprovação de entidades como o JWL (Japan Light Wheel Alloy, veja o selo acima), pelo contrário: projeto, materiais, processos, controle de qualidade e inspeções custam muito, muito caro. É isso que faz uma Volk custar caro e uma “Folk” ter preço camarada, e é isso que faz uma TE37 ser incrivelmente leve, rígida à flexão e ainda ter enorme capacidade de deformação numa pancada – enquanto uma réplica pesa 20 quilos e quebra.

Falando em peso, algumas fábricas de imitações tentam adicionar resistência de forma grosseira empregando paredes mais grossas, o que (1) não elimina falhas catastróficas em potencial no desenho ou na execução da peça (2) não assegura robustez, pois a porosidade, resistência mecânica e capacidade de deformação elástica e plástica não precisam seguir nenhum critério da indústria.

Tudo isso significa que uma roda pode quebrar ou rasgar (em vez de amassar) em um buraco, que um aro ou raio de volante rasgar e virar uma lâmina que pode arrancar suas mãos num acidente (veja os vídeos acima), que um parafuso de ancoragem de um Takata oliginal ou daqueles Recaro “iguaizinhos” pode ser decepado em uma batida, resultando em enforcamento do motorista (dica: assista ao vídeo abaixo com muita atenção), que uma bucha de PU pode empalar um braço de suspensão comprado no Aliexpress e te fazer passageiro para fora da pista a 150 km/h.

Não estamos dando uma opinião nem fazendo terrorismo psicológico. Estamos relatando cenários não apenas possíveis, mas que já aconteceram aqui e fora. Não é preciso procurar muito para encontrar estes casos e análises alarmantes de todo tipo de componente.

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Se uma pessoa que compra de um site como o AliExpress já sabe que está adotando uma falsificação, o pior, contudo, é que muitas delas são vendidas como peças originais em sites como eBay, Amazon e Mercado Livre, pois estes sites são apenas intermediários de diversos lojistas, de forma que a auditoria ou inexiste ou é insuficiente para fiscalizar a originalidade destas peças vendidas. Boa parte destes lojistas compram do próprio AliExpress e usam estas plataformas de comércio para venderem as falsificações, valendo-se do silêncio em relação à origem destas peças, ficando apenas o preço como indício de que não é uma peça original.

“Cara, frescura tudo isso que você escreveu. Tenho um amigo que usa (insira aqui a peça réplica) há anos e nunca teve problema nenhum”.  Todos temos um amigo – se não é você mesmo – que usa há anos uma peça X réplica comprada no Aliexpress. Não estamos aqui para dar a certeza de que o volante, roda ou cinto falsificado irá subitamente se desfazer com pouco esforço. Talvez você rode a vida toda com aquelas rodas réplicas sem que elas se arrebentem. Talvez não.

Mas uma certeza podemos dar: em uma situação crítica, de carga extrema (que não precisa ser um acidente, pode ser um buraco ou um salto), estes componentes não irão colapsar conforme o projeto original. Isso abre possibilidades para todo tipo de ferimento, que podem trazer todo tipo de sequela. O quanto você está disposto a arcar com essa roleta russa em termos de integridade física é o que vai determinar a sua decisão de comprar ou trocar aquela peça réplica tão bonita.

 

Nem toda réplica é ruim. Nem tudo o que vem da China é lixo. Mas…

O que deixa a conversa realmente confusa é que existem muitas empresas sérias que fabricam componentes de alta performance e que são, aí sim, réplicas dos designs originais, com homologação dos órgãos de transporte e frequentemente usadas em carros de competição e/ou de alto nível. Isso só acontece no cenário de peças históricas descontinuadas. Por exemplo, a Watanabe é conhecidíssima pelas rodas abaixo (modelo RS), feitas de magnésio e com um projeto altamente refinado – mas apenas quem é fã do antigomobilismo britânico sabe que o desenho original delas pertence à Minilite, e não à Watanabe.

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O mesmo vale para as rodas abaixo, que vimos no GD T70 que exibimos ontem, réplica de um Lola T70. São rodas forjadas fabricadas pela britânica Image Wheels, com design inspirado nas rodas do Lancia Stratos. Estes casos sim, merecem o uso do termo réplicas. São feitas com o mesmo rigor técnico das originais e, considerando a evolução dos softwares e materiais, podemos considerá-las tecnicamente superiores inclusive. Já quando uma falsificação de uma Volk TE37 usa o nome “réplica”, faz parecer que o processo de fabricação é similar. Não, não é nem um pouco. Pare de se enganar.

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Note que sequer usamos a palavra “China” neste texto até então. Isso porque muitas fabricantes estão usando plantas na China para fabricarem seus modelos de roda, caso da American Racing. O controle de qualidade e materiais usados são os mesmos, mas as marcas estão procurando mão de obra e manufatura mais em conta – justamente para tentar competir com os falsificadores que moram logo ao lado. Aliás, este é outro ponto: quando você compra uma “réplica”, você está ajudando a enterrar empresas que são feitas por e para entusiastas. Por causa dos falsificadores e de seus compradores, a BBS pediu falência duas vezes, em 2007 e em 2011 (leia mais aqui).

Peças automotivas são componentes de engenharia: você pode comprar uma falsificação pela estética, mas junto está comprando um risco que talvez você não saiba ou queira preferir não saber. Todo atalho tem um preço.

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