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Project Cars Project Cars #130

Project Cars #130: a despedida do Alfa Romeo 2300 Ti4 V8

Olá, pessoal! Faz um tempo que não escrevo, mas tem um motivo, acabei tendo que vender a Alfa Romeo V8, confesso que foi com dor no coração, ainda mais agora que voltei para finalizar o PC dela, ver as fotos e lembrar dos ocorridos, do prazer de dirigir, bateu a saudade e aquela vontade de sair com ela por aí.

Eu e ela sempre tivemos uma relação meio de amor e ódio, ela era meio esquentadinha, no real sentido da palavra, mas apesar de tudo, fiquei muito feliz com o destino que ela tomou.

Após alguns bons meses de anúncio no Mercado Livre, muitas propostas indecentes, como troca em um lote de roupas de grife, ou tem terreno à beira-mar, acabei fechando negócio um antigo amigo, que já havia flertado com ela antes, esse negócio acabou me apresentando um mundo novo, o da Subaru, também amada por uns e odiada por outros tantos, assim como a Alfa Romeo.

Pedi ao meu amigo Claudio, que ficou com a tutela da V8 por algum meses para descrever essa como foi essa experiencia, seu texto segue abaixo, hoje sabemos a bela Italiana descansa em uma coleção, junto de suas irmãs de 2300cc, preservando a historia de audácia daquele que um dia pensou: “Vou enfiar um V8 nessa Alfa”, esse cara foi o Paulo Calabrez, primeiro proprietário dela.

Segue o texto do Claudio:

Bem amigos, de início gostaria de confessar que nunca me passou pela cabeça ter um carro com swap de motor tão profundo. Sim, porque swaps “naturais” eu já fiz alguns, foram três ou quatro Mavericks quatro-cilindros que receberam o motor ideal para eles, o V8 302. Não que os Mavecos quatro-cilindros sejam totalmente ruins, mas têm motor insuficiente para o peso do carro e desempenho sofrível. Mas vamos deixar de lado essa questão existencial dos Mavericks, e partir direto ao assunto principal, a Alfa 302.

Há questão de uns três anos ou pouco mais, não me recordo bem, vi ela anunciada na internet, achei bem interessante porém na época estava envolvido em outros projetos, impedindo a vinda de um brinquedo que exigiria boas doses de energia, investimento e dedicação. E assim ela foi para as mãos de um amigo em Limeira/SP – o Estevam – com o qual acompanhei toda a saga desde a compra, as manutenções, melhorias, passeios, até os últimos meses, nos quais trocamos diversas mensagens sobre o carro, procurando arredondar o negócio. Este ano já tinha decidido fazer um projeto desde o “zero” com uma pintura especial – um buggy clássico 1976 –  e que já estava praticamente em fase final quando a negociação com a alfa ficou séria.

Posto que a Alfa apresentava alguns itens a serem melhorados e outros a reparo devido a dificuldade com peças e principalmente mão de obra local, fazendo com que fosse pouco usado, planejei a vinda de maneira a ter uma direta e rápida passagem na oficina do meu mecânico de confiança para V8 (o Arthur Lima) a fim de deixá-la em condições de rua, para rodar sem medo, depois eu poderia analisar o que fazer para dar andamento ao projeto e aprimora-lo. Passamos assim à fase de acertos financeiros e detalhes e finalmente a alfa estava mudando de dono.

4jet

Já na oficina do Arthur em São Paulo detectamos falhas no Quadrijet Edelbrock (foi montado um outro quadrijet da oficina, para teste, que proporcionou um bom funcionamento do motor, indicando que o do carro deveria ser revisado) e de cara uma pequena dificuldade para localizar um kit de reparo. A numeração não batia com os kits disponíveis, até que acessei o site da Edelbrock e descobri que o kit serviria para vários modelos “square bore” – que é o nosso caso, sendo assim compramos aquele kit mesmo e demos sequência ao serviço.

4jet 2

Havia também um forte indício de gasolina velha no tanque (tanto pela falha, fumaça como pelo mau cheiro na queima) mesmo porque o tanque deveria ser esgotado e retirado do carro para a solda de um pequeno furo na emenda, então a limpeza e descarte da gasolina velha foram feitos.

furo tanque

 

Tanque furado

tanque soldado

Tanque soldado

Detectamos também uma mangueira de respiro de óleo ligada indevidamente ao carburador, imposibilitando o ajuste correto da lenta, modificamos e a lenta veio perfeita. Boa noticia: após a desmontagem constatamos que o quadrijet está em estado de novo.

Ao examinar o carro por baixo para localizar o furo no tanque e depois o trambulador, vimos que o projeto foi feito com capricho e carinho, planejado e estudado com detalhe pelo seu mentor (Paulo Calabrez, conhecido alfista em Santo André). Mas algo também chamou atenção : a trambulação adaptada do opala (clec-clec) deixava a alavanca meio boba, com engates pouco precisos. Então aproveitamos para retirar o cambio e ajustar melhor essa  trambulação, e mesmo assim depois de revisada ficou apenas razoável, sendo um item que merecerá melhor estudo e investimento no futuro.

trambula

Finalizada a revisão fui conhecer o brinquedo de perto, conversar com o Arthur sobre os serviços feitos e futuras melhorias, acertei o pagamento e saí de lá feliz da vida com o 302 murmurando pelas ruas e avenidas de são Paulo, congestionadas em pleno sábado de manhã – mas diga-se de passagem foi um belo teste de funcionamento em trânsito pesado – e a alfa se saiu bem, com a temperatura bem controlada e se estabilizando entre 90 ~ 95 ºC .

Um tema que vou abordar agora é a relação de diferencial que está atualmente nele, 3.54 (Dana 30) com planetária soldada (blocada), eu não gostei do comportamento com essas soluções e já estou pesquisando uma relação 3.07 com planetária original, mais adequada ao uso urbano que pretendo. O fato de ter relação 3.54 deixa o carro muito travado, com a 1ª e 2ª marchas muito curtas e próximas, e a 3ª com pouca final, deixando de aproveitar a força do motor e pedindo muitas trocas de marcha no trânsito travado da capital. E a planetária soldada   em curvas mais fechadas força o arraste dos pneus traseiros e chega a incomodar. Na minha visão o ideal seria instalar um cambio C4 automático com a alavanca no assoalho, em conjunto com a relação 3.07 e planetária original.

Ao mesmo tempo em que me envolvi com o carro conheci um grupo de aficcionados por Alfa Romeo 2300 e fui muito bem recebido por eles, tendo mantido contato principalmente com o Marcelo Paolillo – um colecionador a quem é atribuído o maior acervo de Alfa Romeo 2300 no mundo – a chamada confraria. E também com quem desde o inicio mantive intenção de entregar a Alfa V8 para que a mesma fizesse parte de sua belíssima coleção, sendo mantida ao lado das outras em permanente exposição e cuidados.

Entre uma conversa e outra e com o agravamento da crise econômica, principalmente a alta do dólar (que me afetou diretamente, visto que trabalho no setor de importação), entramos em acordo e entreguei a Alfa 302 à ele, para cuidar e dar continuidade ao projeto.

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Deixo aqui minha rápida experiência com esse carro fantástico, que me ensinou a respeitar e gostar das Alfas, em especial as “Nonas” – apelido carinhoso dos alfistas à nossa brasileiríssima Alfa Romeo 2300 em todas as suas versões – e como legado trago hoje prá casa uma Alfa Romeo Ti-4 1985 original, das mãos do amigo Paolillo, sendo ela parte da negociação com a V8, e para que o carinho e admiração pela marca continue crescendo como as verdadeiras amizades que conseguimos nesse meio, o que realmente importa pois os carros vêm e vão mas os amigos ficam.

Até breve!

Claudio Letayf Carvalho

E assim se encerra o PC.

No mais, só tenho a agradecer ao FlatOut pela oportunidade de escrever para uma mídia que tem um público gigantesco de aficcionados e que apoia o automobilismo da maneira mais apaixonada que eu já vi, aqui a gente se sente em casa.

Grande abraço a todos!

Por Estevam Cavazin, Project Cars #130

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