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Project Cars Project Cars #130

Project Cars #130: a história do Alfa Romeo 2300 que ganhou um V8 302

Olá a todos. Meu nome é Estevam, tenho 33 anos (mesma idade do Alfa deste post), e moro na terra do Hot Lap, ou seja, Limeira (SP). Sou engenheiro mecânico por profissão e gearhead por paixão. Sei que é uma enorme responsabilidade escrever para vocês, que têm ferrugem com gasolina correndo nas veias, e sei também que é muito prazeroso ler um texto que foi escrito com cuidado, respeito e paixão pelo assunto tratado. Esse, acredito eu, é o ponto chave do sucesso que o FlatOut está tendo, e por isso, espero atender às expectativas que foram criadas na escolha da Alfa para o Project Cars.

 

O início

Como tudo começou? Eu imagino que ninguém nasce já gostando de automobilismo — acredito que tem um momento na vida que essa fagulha se acende e aí é um caminho sem volta. No meu caso, venho de uma família em que automóvel é apenas um meio de transporte, mas tenho um tio que era meio a “ovelha negra”. Foi na minha infância, descobrindo uma coleção da revista Motor 3 que a coisa teve início.

Materia Motor 3

Os testes naquela época botavam pra quebrar sem dó. Só pelas fotos publicadas dava pra perceber isso. Na terra era C10, Gurgel, Buggy sempre com as rodas no ar. No asfalto era só pneu dobrado, quase saindo das rodas nas curvas. Os textos eram uma delícia de ler, alias, os leio até hoje. Um exemplo a citar foi a matéria de lançamento do Gol GT, o primeiro carro nacional original testado pela revista que virou o antigo  traçado de Interlagos abaixo dos quatro minutos. Eles contam que foi necessário trocar os pneus do carro no meio do teste porque eles simplesmente ficaram sem ombros durante as voltas rápidas.

E assim fui crescendo. Quando ia à banca de jornal,só trazia revistas com encrencas: era Fusca com motor v8 dianteiro, Gordini com V8 entre-eixos, Puma DKW com motor AP dianteiro, T-bucket feito no fundo do quintal, Romi-Isetta com motor de 750 Four etc. Bons tempos!

 

Agora, como surgiu essa de Alfa Romeo 2300 Ti4 com motor 302 V8?

Foi assim: eu tinha um Gol 1987 turbo com cabeçote feito pela Paula Faria, comando SamCams, pistão e biela forjado, Weber 40 trabalhada e quatro bicos extras no HIS. Tinha lá seus 300 cavalos com 1 bar de pressão, era um carro bem divertido e perigoso, mas de tanto ouvir que ia me matar com ele, decidi vendê-lo. Outro motivo para essa decisão foi querer um carro com tração traseira. Mas não poderia ser um carro qualquer, teria que ser principalmente divertido.

Tenho o costume de ficar procurando carros e peças nos sites de compra e venda da internet (acho que muitos aqui fazem isso) e já tinha praticamente fechado negócio com um Lada Laika de uma moça de São Paulo. Quando contei pra minha esposa que sábado nós iríamos pra São Paulo pra ver e buscar o carro quase fui dormir com a Honda (Honda é o nome da minha cachorra vira-lata). Acho que não fui muito claro ao tentar explicar como ficaria legal um Lada Laika com motor AP turbo igual ao que o Gol tinha, mas tudo bem.

De volta às buscas, decidi que meu próximo carro teria que ser ano 1981, para ter a mesma idade que a minha, isso me restringiu a uma faixa muito pequena de opções. Chegava em casa depois do serviço e digitava no campo de busca “1981” e analisava os resultados: dezenas de Fusca, 147, Opala, Brasilia, Passat e um ou outro fora de série nacional. Mas os que agradavam os olhos, não agradavam o bolso, e os que agradavam o bolso, iriam agradar somente o ferro-velho aqui da cidade. Alguns até eram interessantes, mas não rolava uma química.

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E assim foi, até que num domingo à tarde, dia 15 de janeiro de 2012, um carro em particular brilhou na tela do computador: um Alfa Romeo 2300 Ti4 preto, 1981, equipada com bancos de regulagem elétrica revestidos em couro, vidros e travas elétricos nas quatro portas, abertura do porta-malas elétrica, direção hidráulica progressiva, ar condicionado, freios à disco nas quatro rodas, tração traseira, câmbio de três marchas (cadê as outras duas?) e a cereja do bolo: motor V8.

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Pelas fotos o carro estava bem alinhado, com pintura brilhando e tudo bem limpo, mas a data que aparecia no rodapé das fotos era de 2007, o que me deixou com a pulga atrás da orelha. Afinal, em 2012 o Alfa poderia não estar tão bom como mostravam as fotos. Perguntas enviadas, algumas dúvidas sanadas e ficou marcado de que no dia 21 de janeiro eu iria até Santo André ver o carro. Falei pra minha esposa e a primeira pergunta dela foi “Não é outro Lada, né?”. Mostrei as fotos, ela gostou e topou ir junto ver a Alfa.

 

O primeiro encontro

Acho que a sensação de ansiedade foi bem essa de primeiro encontro, lembrei da minha época de “pré-aborrecente”, quando conhecia uma garota pelo Mirc e trocava apenas fotos até o encontro cara a cara. Engraçado é que as fotos eram sempre mais interessantes.

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Sábado acordei bem cedo, peguei o GPS, programei o endereço, abasteci o Clio e peguei a estrada com minha esposa. Fizemos uma paradinha básica no Graal 56 pra tomar um café e algum tempo depois, estávamos em Santo André tocando a campainha do casal dono do carro. Fomos muito bem recebidos, um pouco de conversa e logo nos encaminhamos para o estacionamento do prédio, onde repousava sob uma capa, ao lado de uma Courier o motivo dessa jornada.

Fiquei observando de longe, o Paulo, dono do Alfa falou que ia buscar o carro para darmos uma volta. Quando ele tirou a capa a pintura brilhou como pedra ônix ao sol daquela manhã quente de janeiro.

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O carro estava estacionado de frente e a traseira estava com as duas saídas de escape apontadas em nossa direção. Ouço o barulho de uma bomba elétrica e alguns segundos depois um estrondo, um ronco grave e encorpado que só um V8 é capaz de oferecer. Tentei manter minha “poker face”, afinal eu era o comprador, mas nesse ponto já era visível meu entusiasmo.

Ele a manobrou até o portão e me chamou para o test-drive, uma aula básica de como funcionava a alavanca de câmbio — complexa e cheia de folgas — que tem a primeira marcha no lugar da segunda (mais pra frente detalho esse item) e saímos à rua.

Conforme íamos andando ele me explicava os detalhes do carro, e o V8 ronronava empurrando com a facilidade que o torque do 302 proporciona. Então chegamos a uma rua reta e deserta e o Paulo me disse: “Pisa!”

Afundei de uma vez o acelerador. Eu estava em segunda marcha, o motor deu uma engasgada e em seguida acordou colando nossas costas nos bancos. Como a rua era curta, logo tive que frear forte. Senti que os discos nas quatro rodas seguravam bem a berlina de quase uma tonelada e meia. Aproveitando a situação, o dono aproveitou para explicar as mudanças que já tinham sido feitas no sistema  (as pinças não eram mais originais).

Voltamos e estacionei o carro em frente ao prédio, e vi que termômetro do painel já acusava um aquecimento além do normal. Ele me explicou que era por causa do radiador pequeno de Tempra que estava adaptado (futuramente eu descobriria outros motivos do aquecimento) e que andando ela esfriava. Parti então para a avaliação do restante do carro: estofamento bom, algumas alterações estéticas em relação como os retrovisores de Gol e a eliminação da tampa do tanque (o carro agora é abastecido por dentro do porta-malas), um ponto de ferrugem entre o vidro traseiro e a tampa do porta-malas, outro na saída de ar, o painel estava solto e o velocímetro e conta-giros não marcavam nada condizente com a realidade. Havia também um problema na documentação, o motor não estava ainda cadastrado, mas o processo estava em andamento.

O dono me contou que o Alfa era verde metálico, e que ele era o segundo proprietário. O primeiro tinha sido uma transportadora que usou o carro e depois o encostou por muito anos. Aí ele comprou e reformou o carro todo, mudando a cor para preto e o motor para um seis-cilindros de Opala com kit GNV. Depois disso um Ford Galaxie entrou em um rolo e ele então decidiu usar o motor V8 — tudo isso feito no fundo do quintal da casa que ele morava.

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Avaliando tudo, no geral o saldo era positivo para um carro extensamente adaptado como estava. Os defeitos que eu estava vendo eram poucos e mesmo colocando na balança que eu poderia encontrar muito outros problemas, ao menos o carro estava andando e documentado (no documento consta “Veiculo Modificado”).

Negociamos, consegui um desconto no valor e só não levei o carro embora no sábado mesmo porque o licenciamento estava vencido e o casal ficou de entregar essa parte em ordem. Já o cadastro do motor na transferência ficaria por minha conta. Na viagem de volta pra Limeira perguntei pra minha esposa o que ela achou do carro e ela resumiu: “Está bonito, mas cabe na garagem de casa?”.

Caramba, eu não tinha pensado nisso! A garagem da minha casa é relativamente, grande, mas é em “L” e ficam dois a dois, sendo que há um limite no comprimento para dois carros um na frente do outro, e eu já estava com um Fusca, um BR-800 e um Clio.

Fiquei a viagem toda pensando nisso, chegando em casa corri para pegar a trena e medir a garagem e o Clio. Depois entrei no Google e procurei a ficha técnica do Alfa e finalmente a cheguei à conclusão: os dois carros cabem e sobra ainda uma folga de uns 20 centímetros. Ufa!

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E como aquela semana foi longa, o despachante até que foi rápido e conseguiu entregar o documento na quinta-feira (licenciado), assim eu já poderia rodar com ela, combinei então que na segunda-feira, dia 30 de janeiro, eu iria buscá-la.

No próximo texto, contarei como foi a viagem entre Santo André pra Limeira (a sensação era de estar dirigindo um carro alienígena por São Paulo) e irei detalhar melhor a parte mecânica. Um abraço!

Por Estevam Cavazin, Project Cars #130

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